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11201558_oriEm 2002 o mundo foi confrontado com a informação de que a Igreja Católica acobertava centenas de casos de abuso sexual de seus sacerdotes contra crianças. A notícia, divulgada pelo jornal Boston Globe gerou uma série de outras matérias que mantiveram o caso quente, revelou centenas de outros casos ao redor do mundo e acabou por causar o afastamento do Cardeal Bernard Law, após ter sido exposto como conivente por ter acobertado padres pedófilos décadas a fio. A investigação do caso levou meses, atravessando inclusive um outro acontecimento traumático para o povo americano: a tragédia de 11 de setembro.

E é exatamente essa grande investigação que expôs a Igreja Católica que o diretor Tom McCarthy propõe-se a contar em Spotlight: Segredos Revelados, filme que narra todo o trabalho de pesquisa realizado pela equipe de investigação do jornal Boston Globe por sua equipe de jornalismo investigativo, a spotlight (holofote, em inglês). Encabeçada por Walter Robinson (Michael Keaton), o grupo é constituído ainda de Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James). A rotina de investigações da equipe muda com a chegada de um novo editor, Marty Baron (Liev Schreiber), que insiste que um antigo caso de denúncia contra abuso sexual de alguns padres da região seja novamente trazido à pauta, com uma apuração bem mais minuciosa.

O maior trunfo de Spotlight sem dúvidas fica no realismo e na preocupação do diretor Tom McCarthy em retratar com absoluta fidelidade o dia a dia e as dificuldades de uma investigação jornalística desse porte. E é curioso perceber que apesar de trazer uma história razoavelmente recente, o filme em diversos momentos parece retratar um passado distante, quando os grandes jornais ainda possuíam muita relevância e a internet começava apenas a despontar como uma ameaça em potencial. McCarthy não tenta reinventar a roda, e não procura trazer quaisquer meios fora do convencional para contar sua história, o que acaba sendo a melhor decisão. Todos os cortes do filme são importantes para o desenrolar da trama, e o cineasta acaba prendendo a atenção do espectador e mantendo seu interesse puramente pelo jorro de informações e simplicidade com a qual os explica, desenvolvendo a narrativa de uma forma convencional e fluída sem precisar se utilizar de quaisquer outros artifícios.

spotlight
O tema, assumidamente polêmico, é tratado com segurança e imparcialidade. Mesmo em sequências onde os personagens começam a questionar sua fé e o papel da Igreja e da religião no trato social, não existe qualquer crítica mais contundente ou inflamada contra a Igreja. É meramente a exposição dos fatos e a denúncia de uma situação que já estava tornando-se insustentável. Nas atuações, todo o elenco dá um show de interpretação, desde um seguro e confortável Michael Keaton no papel do líder da equipe de investigação, a Rachel McAdams com sua decidida Sacha Pfeiffer. Mas é Mark Ruffalo que mais brilha no filme, em um papel que inclusive lhe rendeu uma indicação como melhor ator coadjuvante no Oscar pela terceira vez em sua carreira. Com alguns maneirismos e uma obsessão em publicar a matéria o mais rápido possível, seu personagem é o que causa uma maior proximidade com o público devido a sua revolta e descrença na Igreja.

Um dos favoritos ao Oscar, não seria surpresa alguma se Spotlight: Segredos Revelados ganhasse o prêmio de melhor filme. Com certeza figura entre os melhores dentre os indicados, e sua importância em manter viva a lembrança das centenas de vítimas que sofreram abusos sexuais sob a conivência da Igreja faz com que seu caráter jornalístico torne-o uma obra atemporal.

 


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