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Certa vez, Alan Moore declarou que considerava Watchmen inadaptável. Isso porque a obra em quadrinhos foi completamente pensada para aquele meio, e construída utilizando-se de aspectos que só faziam sentido ali. Anos depois, Zack Snyder levou Watchmen ao cinema, e apesar de ter realizado um bom trabalho basicamente usando a HQ como storyboard e adaptando-a quadro a quadro (exceto pelo final) fica óbvio o quanto as nuances e tudo que torna a HQ uma obra prima se perdem na transposição.

Agora, uma das obras mais filosóficas e poéticas dos quadrinhos, Sandman, de Neil Gaiman, também vai ganhar uma adaptação. Outra obra considerada por muitos como “inadaptável” e que utiliza de todas as possibilidades narrativas dos quadrinhos para contar sua história  – talvez até mais do que Watchmen. Mas afinal, o que torna Sandman difícil de ser adaptado?

A última vez que soubemos de uma adaptação de Sandman, a ideia não inspirava confiança. Inicialmente o ator Joseph Gordon Levitt estaria produzindo e estrelando um filme baseado na obra de Gaiman, mas após diversas trocas de roteiristas, o próprio Levitt abandonou o barco. O último roteirista ligado ao projeto, Eric Heisserer, resolveu então chutar o balde e foi ao Twitter deixar bem claro para a Warner por que estava saindo: Sandman não funciona como filme.


Eu tive muitas conversas com Neil Gaiman sobre isso, trabalhando diversos aspectos, e chegamos à conclusão de que a melhor forma de fazer isso seria como uma série na HBO, ou uma série limitada, não como um filme. Nem mesmo como uma trilogia. A estrutura de um filme realmente não se encaixa com Sandman. Não é onde deveria estar. É algo que precisa ir para a TV. Então eu pulei fora e abandonei esse trabalho.”


Os conselhos de Heisserer parecem ter mexido com Gaiman, que na época disse o seguinte: “O inteligentíssimo Eric Heisserer sai do filme de Sandman, mas deixa uma mensagem.” Desde então, o escritor sempre declarou em entrevistas que se Sandman tivesse uma adaptação, seria como série de TV.

E agora, isso finalmente aconteceu. Sandman vai se tornar uma série live-action na Netflix, em uma temporada com 11 episódios, que conta com produção do próprio Gaiman (que vai coescrever o episódio piloto). Mas mesmo sendo em formato de série – que supostamente oferece uma forma de melhor de desenvolvimento para a trama, é possível fazer essa transposição com uma obra como Sandman?

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A verdade é que Sandman está longe de ser um quadrinho convencional, sendo um dos poucos casos em que uma história em quadrinhos consegue quebrar a barreira do preconceito a ponto de ser considerada por críticos como literatura de prestígio. Apesar de contar uma história com escopo maior em suas 75 edições, Sandman nunca se importou com linearidade, e algumas de suas melhores histórias, como “Um Sonho de Mil Gatos“, são contos curtos de apenas uma edição.

Porém, se a Netflix encontrar seu caminho (e mais do que isso, conseguir fazer algo fiel E comercial), pode criar uma das melhores séries de todos os tempos. Mas o caminho não será fácil. Em alguns episódios, Sonho pode encontrar anjos e demônios. Em outros, ele pode inspirar William Shakespeare a criar uma obra-prima. Não há amarras. E aí que mora o problema. Esse tipo de narrativa solta, lúdica, cheia de elementos fantásticos enraizados em mitos e ideias filosóficas pode conquistar o público comum?

É talvez o maior problema que a Netflix tem em mãos. Mais difícil do que transpor Sandman dos quadrinhos para a TV, é fazer isso de forma interessante, que conquiste o público e mantenha audiência. Afinal, não sejamos inocentes aqui. Tudo gira em torno de dinheiro. O problema reside em conseguir fazer algo fiel ao espírito dos quadrinhos – o que já é difícil por si só – e agradar o público. Porque é preciso deixar um fato claro: mesmo dentro do universo dos quadrinhos, Sandman é uma leitura para poucos. Principalmente considerando aqueles leitores acostumados somente com super-heróis.

O que fez Sandman se  tornar o que é hoje, ganhando tantos prêmios e elogios, foi justamente a sua narrativa detalhada, poética, cuidadosa. No estilo de escrita característico de Gaiman, grande parte das histórias contém um peso e um impacto que deixam uma impressão duradoura nos leitores à medida que são atraídos para um mundo multifacetado de contos de fadas.

De fato, Sandman tem potencial para ser não apenas a série mais diferente da Netflix, mas também algo bastante diferente do que temos em séries de TV em geral. Antologias como Black Mirror fazem sucesso, séries de “casos da semana” como House também conquistaram o público sustentando-se em um bom protagonista, assim como obras de fantasia também tem a sua base de fãs fiel. Mas e uma série que mistura tudo isso em uma narrativa com a qual você nunca sabe o que esperar no episódio seguinte?



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