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Stephen King sempre teve obras adaptadas para o cinema, mas poucas ganharam a mesma força que O Iluminado. O filme dirigido por Stanley Kubrick saiu das páginas do autor e se transformou em um dos títulos mais influentes do terror, gerando debates, teorias e análises que continuam surgindo até hoje. Mesmo quem nunca leu o livro conhece a estética do filme, suas cenas marcantes e o impacto cultural que ele carregou ao longo das décadas.

No vídeo de hoje, trazemos 10 fatos sobre O Iluminado, explorando curiosidades do processo criativo, diferenças de visão entre King e Kubrick e acontecimentos que ajudaram a transformar essa obra em um marco do gênero.

Um pesadelo que levou à criação de O Iluminado

Era 1974 quando Stephen King e sua esposa, Tabitha, se hospedaram por uma noite no Stanley Hotel, situado no Colorado, nas Montanhas Rochosas. Eles eram os únicos hóspedes naquela noite e ficaram no quarto 217.

Naquela noite, King teve um pesadelo intenso em que seu filho era perseguido pelos corredores do hotel por uma mangueira de incêndio possuída, demoníaca. King acordou em pânico, encharcado de suor, e foi até a varanda do quarto para fumar um cigarro. E, assim, a estrutura básica de O Iluminado se formou na cabeça dele, resultando no romance publicado em 1977.

Stephen King odiou a adaptação do filme

Stanley Kubrick mudou várias coisas do romance enquanto trabalhava em O Iluminado. Acredita-se que o próprio Stephen King escreveu um rascunho do roteiro do filme, mas o diretor nem sequer se deu ao trabalho de lê-lo. Claro que isso geraria uma situação desconfortável.

Stephen King geralmente é conhecido por ser bem receptivo a adaptações cinematográficas de suas obras, mas dessa vez foi especialmente crítico. Ele chegou a afirmar que essa foi a única adaptação de seus livros que ele realmente detestou. A interpretação de Wendy o deixou particularmente insatisfeito: King dizia que a personagem foi tratada por Kubrik de forma misógina, pois só estava ali para gritar e ser estúpida, muito diferente da personagem que ele escreveu no romance. Ele também reclamou que o filme saiu de uma história sobre horror e forças sobrenaturais para uma tragédia doméstica.

Os segredos do Quarto 217 e do Hotel Overlook

O Hotel Overlook era um dos elementos mais importantes do filme, e grande parte das filmagens externas foi feita no Timberline Lodge, no Oregon, que serviu como cenário. O diretor buscava um visual específico, e os corredores longos e o carpete com padrões geométricos ofereceram exatamente o que ele queria.

Ainda assim, Kubrick montou uma equipe para examinar milhares de hotéis nos Estados Unidos, resultando numa espécie de colagem visual inspirada em várias construções diferentes. Muitos dos eventos perturbadores no romance acontecem no Quarto 217, mas o Timberline Lodge pediu que o número fosse alterado para 237, porque não queria assustar futuros hóspedes — e o irônico é que o hotel ficou surpreso ao descobrir que os visitantes passaram a pedir especificamente esse quarto.

Conseguir a porta certa foi um desafio

Kubrik precisou encontrar uma estrutura resistente o bastante para exigir certo esforço para ser destruída. Curiosamente, uma das cenas mais assustadoras da história do terror enfrentou dificuldades com as portas usadas. Jack Nicholson já havia servido como voluntário em um corpo de bombeiros, então ele tinha experiência prática em quebrar portas — e as primeiras versões usadas no set eram fracas demais. Ele as destruía rápido e facilmente.

O departamento de cenografia teve de procurar portas muito mais resistentes. Ao todo, cerca de 60 portas foram utilizadas ao longo de três dias de filmagem até que Stanley Kubrick finalmente ficou satisfeito com o resultado.

Até o ator mirim improvisou

Você sempre espera uma performance poderosa de Jack Nicholson, mas o astro-mirim Danny Lloyd roubou a cena com sua atuação de Danny Torrance. Ele tinha o dom do iluminado, que permitia prever certas coisas. Ele testemunhava o passado horrível do hotel e podia sentir que algo ruim estava prestes a acontecer. Uma das características mais marcantes do personagem é a maneira como ele falava com seu amigo imaginário, Tony — movendo o dedo enquanto conversava com ele.

O diretor nunca instruiu o garoto a fazer isso. Foi uma improvisação do próprio ator mirim. Kubrick adorou a ideia e manteve o gesto como parte do personagem. Infelizmente, ele não seguiu carreira e esse acabou sendo seu único papel realmente marcante.

A cena do elevador levou um ano para ser filmada

Qualquer fã do filme se lembrará da famosa cena das portas do elevador se abrindo e um mar de sangue jorrando, mas talvez não saiba que a filmagem levou um ano.

Embora a cena tenha sido filmada em três tomadas (ao contrário de várias outras que exigiram muitas e muitas tomadas até que Kubrick ficasse satisfeito), cada tomada da cena do elevador levou nove dias para limpar o corredor e encher o elevador de sangue novamente, e só foi concluída um ano depois.

O design interno do Overlook é impossível

Se você já assistiu O Iluminado e sentiu que algo estava errado com a arquitetura do hotel, isso não é coincidência. Kubrick propositalmente criou um hotel que não poderia existir no mundo real: corredores que se cruzam de maneira impossível, salas maiores do que deveriam ser e locais que se sobrepõem fisicamente.

Fãs já mapearam o hotel e descobriram que, por exemplo, o escritório principal não poderia ter uma janela no fundo — é fisicamente impossível de acordo com a planta do prédio. Kubrick queria um ambiente perturbador, mas sem recorrer ao clichê de casa mal-assombrada óbvia. Em vez disso, o terror seria psicológico e subliminar. Móveis também mudam de lugar entre cenas sem explicação, reforçando o desconforto.

O livro tinha monstros de arbustos

Vários elementos do livro foram removidos no filme, mas o mais famoso são os arbustos esculpidos em formas de animais que ganhavam vida e atacavam quando ninguém olhava. Basicamente, como os Anjos Lamentadores de Doctor Who, só que feitos de plantas.

Kubrick achou essa ideia boba e optou pelo labirinto, que contribui muito mais para a atmosfera desorientadora do filme. Na adaptação de 1997 feita por King, os arbustos aparecem — e vendo o resultado, ainda bem que não estavam na versão de 1980.

Diferenças em cenas marcantes

Muitas cenas do filme, algumas até mesmo icônicas, sequer existem na obra de King. A cena na qual Danny encontra as gêmeas no corredor, por exemplo. No livro, a passagem é mais simples. O garoto encontra apenas duas manchas de sangue, marcando o local da morte de duas pessoas.

Outro ponto que é aumentado no filme é a passagem do elevador. Nele, Wendy vê um mar de sangue saindo de lá. No livro, enquanto isso, o elevador apenas funciona sozinho, sem ninguém o acionar.

Porém, a que mais difere é a cena de Jack quebrando a porta com o machado e tentando alcançar a esposa e o filho. Vale ressaltar que a esposa quase não se defende, apenas enfia uma faca na mão de Jack. No livro, porém, a passagem é muito mais pesada. Jack agride Wendy com um taco de críquete, enquanto ela consegue dar uma facada nas costas do marido.

Os cenários de O Iluminado pegaram fogo

Cenários de filmes sempre estão sujeitos a acidentes, mas foi uma coincidência peculiar quando um grande incêndio ocorreu no final das gravações, destruindo completamente os sets. Nunca descobriram a causa exata do incêndio. Os danos ultrapassaram 2,5 milhões de dólares. Existe até uma foto famosa de Stanley Kubrick rindo diante dos destroços.

A coincidência fica ainda maior ao lembrar que no romance original o hotel termina pegando fogo — então foi como se o destino tivesse replicado o fim do livro fora da tela.

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Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.