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Todos os filmes do Studio Ghibli são conhecidos por abordarem histórias alegres e encantadoras, mas Hayao Miyazaki mergulha em temas mais sombrios e maduros em Princesa Mononoke. Nesse filme, o diretor se desviou da ideia do “mundo colorido e divertido” para criar algo diferente do habitual.
Situado em um mundo governado pelos espíritos da floresta, o filme segue a jornada do príncipe Ashitaka, que sai do seu vilarejo após receber uma maldição dos espíritos malignos. Durante o conflito entre os animais e os humanos, Ashitaka conhece San, também conhecida como Princesa Mononoke, uma humana selvagem que luta ao lado dos lobos.
Referências à mitologia japonesa

As divindades de Princesa Mononoke são baseadas na mitologia japonesa, particularmente no xintoísmo, que é bem forte no Japão. A floresta é protegida por grupos de animais selvagens, e seus líderes são as divindades que se opõem aos humanos. Eles seriam Moro, a líder dos lobos e a figura materna da San, Nago, o líder dos javalis, e a divindade central, o Deus da Floresta.
O Deus da Floresta representa o equilíbrio entre a vida e a morte na natureza, por isso os humanos desejam ter a posse do seu poder. Quando os caçadores arrancam a sua cabeça e tentam fugir com ela, toda a floresta é engolida pela escuridão, afetando os animais e os humanos também.
A tradução de Mononoke
Na versão original (japonês) o filme se chama Mononoke Hime. “Hime” significa “Princesa” em japonês, que foi a única palavra do título traduzida para o lançamento internacional. Mononoke, por outro lado, não poderia ser traduzido devido ao seu significado.
Essa palavra pode ser traduzida como “espírito vingativo” ou “raivoso”, então talvez o título poderia soar como “Princesa Raivosa” se seguisse uma tradução ao pé da letra. Mas já que Mononoke se refere diretamente ao nome da protagonista, as distribuidoras americanas não viram problema em mantê-la no título.
O filme foi inspirado na guerra de Iugoslávia
Miyazaki encontrou inspiração para Princesa Mononoke nos tumultos da guerra da Iugoslávia, que aconteceu na década de 90. Nesse período, Miyazaki trabalhou na produção de Porco Rosso: O Último Herói Romântico, mas os eventos trágicos e a aparente falta de progresso humano o afetou ao ponto de criar algo novo.
Em vez de retratar um mundo alegre e divertido como O Serviço de Entregas da Kiki, ele pensou em um filme baseado no cenário de luta e desespero gerado pela própria humanidade. Sua intenção não seria criar um filme tão pesado no estilo gore, mas sim algo com um toque mais sério para desabafar sua frustração pela situação do mundo.
A doença dos trabalhadores da Vila de Ferro
Algo bem evidente no filme é que a maioria dos seguidores da Lady Eboshi, que vivem na Vila de Ferro, são pessoas doentes e com corpos enfaixados. O filme sugere que esses trabalhadores simplesmente sofrem de uma “doença incurável”, mas muitos fãs teorizaram que eles apresentam sintomas de lepra, uma doença que já afetou várias pessoas do Japão.
Miyazaki confirmou que essa teoria está correta, dizendo que buscou retratar pessoas que sofrem dessa doença, mas que conseguem viver com isso. Ele até visitou pacientes nessa condição em um sanatório de Tóquio para ver como elas vivem.
O filme foi feito quase todo a mão
No tempo moderno, o meio digital é utilizado por todos os profissionais que trabalham com criação, animação, ilustração, design, etc. Mas artistas mais tradicionais como Miyazaki preferem desenhar a mão livre. A partir de Princesa Mononoke, ele passou a utilizar mais recursos do meio digital para fazer suas animações.
No entanto, apenas 10% do filme feito no computador, os 90% restantes foram feitos inteiramente à mão pelo próprio Miyazaki. Além disso, o filme contou com 144 mil desenhos, e o diretor corrigiu mais de 80 mil durante a produção.
A lenda da espada enviada por Miyazaki
Durante a negociação para Princesa Mononoke sair nos Estados Unidos, Miyazaki entrou em desacordo com o produtor americano Harvey Weinstein, que tinha a intenção de encurtar o tempo de duração do filme para 90 minutos. Claramente, Miyazaki não aceitou isso e enviou uma mensagem intimidadora para encerrar o assunto.
De acordo com os boatos, Miyazaki enviou uma espada de samurai ao escritório de Weinstein, com a mensagem “Sem cortes”. Não se sabe ao certo se a história do presente é um boato ou verdade, mas essa discordância realmente aconteceu.
Em uma entrevista Miyazaki falou: “Na verdade, meu produtor fez isso. Fui a Nova York para conhecer este homem, este Harvey Weinstein, e fui bombardeado com este ataque agressivo, todas estas exigências de cortes. Eu o derrotei.”
Inspiração vinda de John Ford
O cineasta John Ford foi uma das principais influências para Miyazaki na área cinematográfica, incluindo em Princesa Mononoke. Ele se inspirou no filme Paixão dos Fortes para criar a fortaleza conhecida como Vila de Ferro em sua animação.
Esse filme de John se passa em um velho oeste selvagem e cheio de conflitos, e o objetivo de Miyazaki era incorporar um ambiente hostil para os seus personagens. Assim, veio em sua mente a ideia de uma região batalhadora e habitada por pessoas marginalizadas e oprimidas pela guerra.
O cenário de floresta foi inspirado na ilha Yakushima
A floresta que serve como o ponto central de conflito em Princesa Mononoke foi inspirada em um local real, a ilha de Yakushima, localizada no extremo sul do Japão. Declarado como patrimônio mundial, o lugar é famoso pela sua natureza exuberante e por ser o lar de animais raros.
Miyazaki até visitou a ilha para observar toda a sua atmosfera, o que foi de grande ajuda para tornar o cenário do filme bem realista. Entretanto, o diretor se deu ao trabalho de criar uma paisagem tão linda para mostrar como a natureza pode sofrer com a ganância humana.
A controvérsia de Lady Eboshi
Lady Eboshi é a líder da Vila do Ferro, uma personagem retratada como antagonista por caçar o Deus da Floresta, mas seu papel vai além do que apenas isso. Ela é uma mulher orgulhosa e que acolhe os fracos e exilados sem preconceito. Além dos animais, Eboshi precisa lidar com humanos inimigos que desejam seu território, por isso ela almeja criar um império forte e invencível.
A floresta é o local ideal para construir seu império, mas ela só teria controle do local, matando o Deus da Floresta. Foi por essa razão que San e os lobos entraram em conflito com a Vila de Ferro. Miyazaki a descreve como uma personagem controversa, sendo uma pessoa que deseja controlar a natureza por ganância, mas ela também é uma líder que acredita fazer o certo pelo bem de seu povo.
Ashitaka tem relação com duas mulheres
O filme não apresenta um romance explícito entre Ashitaka e San, mas eles realmente chegam a ter uma relação íntima. Na cena em que Ashitaka acorda ferido na toca dos lobos, San aparece coberta e dormindo ao lado dele. O executivo do Studio Ghibli, Toshio Suzuki, já revelou em uma entrevista de rádio que Miyazaki confirmou para ele que os dois personagens tiveram uma relação física nessa cena.
Além disso, Ashitaka também se relacionou com Kaya, a personagem que entrega uma adaga para ele antes de partir de sua vila natal. Na dublagem americana e de outros países, Kaya diz ser a irmã de Ashitaka, mas ela é a esposa dele na versão japonesa. A cena de despedida seria o momento em que ela declara o seu amor para ele, entregando uma adaga como símbolo de união do casal.