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Entre todos os personagens de Watchmen, nenhum deixou uma marca tão intensa quanto Rorschach. Com sua máscara em constante mutação, moralidade inflexível e uma visão de mundo brutalmente honesta, ele se tornou um dos vigilantes mais icônicos — e perturbadores — das HQs. Criado por Alan Moore e Dave Gibbons como uma crítica aos justiceiros extremos dos quadrinhos, Rorschach acabou sendo adotado por muitos como símbolo… mesmo que sua mensagem fosse tudo, menos esperançosa.
Mesmo décadas após sua estreia, o personagem continua gerando debates, inspirando novas histórias e dividindo opiniões entre fãs e críticos. E no artigo de hoje, falamos sobre isso em 10 fatos.
Ele nasceu da Charlton Comics

Rorschach é uma criação original de Alan Moore e Dave Gibbons para Watchmen, mas sua origem remonta aos personagens da Charlton Comics. Inicialmente, Moore planejava utilizar personagens da Charlton, adquiridos pela DC Comics, em sua história. No entanto, como o enredo envolveria a morte de alguns deles, a DC optou por preservar os personagens e solicitou que Moore criasse versões alternativas. Assim, Rorschach surgiu como uma reinterpretação de dois personagens criados por Steve Ditko: o Questão e Mr. A.
O Questão, também conhecido como Vic Sage, era um jornalista investigativo que combatia o crime usando uma máscara sem traços faciais, simbolizando sua visão de mundo em preto e branco. Mr. A, por sua vez, era ainda mais radical, representando fielmente a filosofia objetivista de Ayn Rand, com uma moralidade absoluta sem espaço para nuances. Moore utilizou essas características para construir Rorschach como um vigilante implacável, cuja máscara exibe manchas simétricas em constante movimento, refletindo sua percepção inflexível do bem e do mal.
Alan Moore quase não matou Rorschach
Desde que Watchmen se tornou um fenômeno cultural, Alan Moore concedeu inúmeras entrevistas revelando detalhes sobre o processo de criação da obra. Uma das revelações mais curiosas foi que, inicialmente, ele não planejava matar o Rorschach. O destino trágico do personagem não estava definido desde o começo da história — pelo contrário, Moore só tomou essa decisão ao longo do desenvolvimento da série.
Foi durante a escrita da edição #4 que Moore percebeu algo crucial: a rigidez moral de Rorschach, sua recusa em comprometer seus princípios, tornava impossível que ele sobrevivesse até o fim. Ao compreender melhor a psique do personagem, o autor concluiu que, por conta dos inúmeros traumas que carregava, o que Rorschach mais desejava — mesmo que inconscientemente — era morrer com dignidade. E foi exatamente isso que ele conseguiu.
O visual original era bem mais chamativo
É difícil imaginar o Rorschach usando qualquer coisa além do icônico combo: sobretudo marrom, chapéu e a máscara com manchas em constante movimento. No entanto, os primeiros conceitos criados por Dave Gibbons mostravam um visual bem diferente para o personagem. O uniforme que conhecemos hoje quase foi algo muito mais espalhafatoso.
No lugar do terno roxo discreto que ele usa sob o sobretudo, Rorschach originalmente vestiria um macacão branco coberto pelas mesmas manchas que aparecem em sua máscara. Além disso, o design incluía um sobretudo azul, luvas laranjas e um chapéu azul com uma faixa também laranja. Apesar de parecer mais “super-heróico”, esse visual acabou sendo deixado de lado — e com razão. O traje mais sóbrio reforça a atmosfera sombria e urbana do personagem, tornando-o ainda mais marcante.
Seu jeito de falar veio de um herói bizarro
Uma das características mais marcantes de Rorschach é sua forma peculiar de falar. Suas frases curtas, secas e quase sempre em tom monótono se destacam em meio aos outros personagens. Mas o que poucos sabem é que esse padrão de fala foi inspirado em uma fonte totalmente inesperada: Herbie Popnecker, também conhecido como Herbie, o Gordinho Furioso. Ele era um garotinho rechonchudo da Era de Prata, com poderes quase divinos vindos de pirulitos mágicos — e que falava de forma fria e fragmentada, sem emoção.
Alan Moore já declarou em várias entrevistas sua admiração por Herbie, chegando a chamá-lo de seu super-herói favorito. Isso levou os fãs a especularem durante anos se havia uma conexão entre os dois personagens. E de fato, segundo o jornalista Vinnie Bartilucci, Moore confirmou em uma entrevista que o padrão de fala de Rorschach foi sim baseado no estilo estranho e minimalista de Herbie.
O diário de Rorschach foi inspirado por um serial killer
Na mesma entrevista em que confirmou a inspiração de Herbie no jeito de falar de Rorschach, Alan Moore revelou uma influência muito mais sombria para outro aspecto marcante do personagem. Segundo Moore, o tom dos registros no diário de Rorschach foi inspirado nas cartas enviadas por David Berkowitz — o notório assassino conhecido como Filho de Sam — aos jornais de Nova York durante os anos 1970.
Berkowitz aterrorizou a cidade com uma série de assassinatos, deixando cartas escritas à mão nas cenas dos crimes para provocar a polícia. Essas mensagens ganharam ampla cobertura da mídia, em parte por causa da mitologia estranha e perturbadora que o próprio assassino criou ao redor de si. Essa referência direta às cartas do Filho de Sam ajudou a dar ao diário de Rorschach um ar ainda mais inquietante e realista.
Watchmen quase teve continuações feitas por Alan Moore
Hoje, Watchmen é visto como uma obra sagrada por muitos fãs — e até mesmo por seu próprio criador. Mas o que pouca gente sabe é que, inicialmente, Alan Moore não planejava que a história fosse totalmente fechada. Em uma entrevista de 1986 à The Comics Journal, Moore revelou que, caso a série fosse bem recebida, ele e Dave Gibbons consideravam criar um prelúdio chamado Minutemen, centrado na geração anterior de heróis do universo de Watchmen.
Além disso, a própria DC chegou a sugerir diversos projetos derivados focados em personagens populares, incluindo Rorschach. Entre as ideias discutidas estavam Rorschach’s Journal, uma série solo explorando fases anteriores da vida do personagem, e outra que mostraria suas aventuras ao lado do Coruja. No entanto, nenhuma dessas ideias foi adiante. Moore e Gibbons perderam o interesse, especialmente após os conflitos entre Moore e a DC em relação aos direitos autorais da obra.
Existem diários do Rorschach aprovados por Alan Moore
Embora Watchmen nunca tenha ganhado uma continuação oficial assinada por Alan Moore e Dave Gibbons, os criadores chegaram a colaborar em uma espécie de prelúdio pouco conhecido. Nos anos 1980, a DC fez uma parceria com a Mayfair Games para lançar uma linha de jogos de RPG chamada DC Heroes. Dentro dessa linha, foram produzidas duas expansões baseadas em Watchmen — Watching the Watchmen e Taking Out the Trash — além de um guia oficial chamado Watchmen Sourcebook, todos com a ajuda direta de Moore e Gibbons.
O Sourcebook traz algo raríssimo: três entradas de diário escritas por Rorschach, ambientadas antes dos eventos da HQ principal. A mais marcante delas é a primeira, datada de 1964 — exatamente na noite em que ele cria sua icônica máscara, usando o vestido de Kitty Genovese. Por serem os únicos materiais aprovados por Moore dentro do universo Watchmen, muitos fãs consideram essas histórias como parte do cânone. Curiosamente, um dos autores, Daniel Greenberg, já declarou que não as considera canônicas… mas, para os leitores, o aval de Moore diz mais alto.
O diário foi publicado… mas ignorado
No final de Watchmen #12, de Moore, Gibbons e Higgins, o famoso diário de Rorschach é aparentemente descoberto por Seymour David, um jovem que trabalha na revista The New Frontiersman — um tabloide de direita pró-super-heróis. Rorschach deixou o diário com a publicação antes de morrer, esperando que suas palavras pudessem expor a verdade sobre Ozymandias ao mundo. A cena final é ambígua, mas dá a entender que o caderno será lido… e talvez publicado.
Durante os eventos de Doomsday Clock, sequência oficial da história, descobrimos que The New Frontiersman realmente publicou o diário. Mas o impacto não foi imediato: o conteúdo foi ignorado pela maioria do público por anos, até que o presidente Robert Redford, já nos anos 1990, pediu uma investigação sobre o massacre de Nova York como parte de sua campanha à reeleição. Quando a veracidade do diário foi confirmada, Ozymandias se tornou inimigo público número um. Seymour, o rapaz que encontrou o diário, acabou sendo espancado até a morte… e o diário foi roubado.
O novo Rorschach é filho do psicólogo que analisou Kovacs
Walter Kovacs pode ter morrido no final de Watchmen, mas o manto de Rorschach foi herdado por alguém com uma ligação inesperada com o passado do personagem. Em Doomsday Clock, descobrimos que o novo Rorschach é Reggie Long, filho do Dr. Malcolm Long — o psicólogo encarregado de analisar Kovacs na prisão de Sing Sing. Tanto o Dr. Long quanto sua esposa, Gloria, morreram no ataque devastador causado pela criatura alienígena de Ozymandias em Nova York.
Reggie estava a poucos metros do local da explosão quando o monstro foi teletransportado para a cidade, e o trauma foi tão grande que o levou à insanidade, como tantas outras vítimas. Internado em um hospital psiquiátrico, ele acaba conhecendo Byron Lewis, o Traça, ex-integrante dos Minutemen. Byron consegue escapar temporariamente e retorna com alguns pertences do Dr. Long — entre eles, o diário de Rorschach e sua icônica máscara. Esses objetos dão origem a uma nova encarnação do vigilante, marcada por dor, legado e vingança.
O Questão leu Watchmen… e odiou o Rorschach
Fechando o ciclo de forma brilhante, existe uma história em que o próprio Questão — personagem que inspirou Rorschach — lê Watchmen e tenta agir como a figura que ele mesmo influenciou. Isso acontece em The Question #17, escrita por Dennis O’Neil com arte de Denys Cowan. Na edição, o Questão lê um exemplar de Watchmen e fica fascinado com os métodos de Rorschach, decidindo segui-los como referência.
Durante o restante da história, ele literalmente se pergunta: “O que o Rorschach faria?” Mas isso o leva a uma enrascada: ao adotar o estilo agressivo e impiedoso de Rorschach, o Questão se deixa dominar pela raiva e comete erros. Quando acaba encurralado, na mira de uma arma e prestes a morrer, é questionado se gostaria de dizer suas últimas palavras. Sua resposta? “O Rorschach é um lixo.”
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