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O ano 2023 definitivamente não foi bom para grandes franquias, especialmente para aquelas que envolvem super-heróis, como The Flash e Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania. Há, inclusive, fortes discussões sobre uma suposta fadiga de filmes do subgênero que, levantam especulações sobre esse tipo de produção falir e deixar de existir em um futuro próximo.
Será mesmo que a era dos filmes de super-heróis já se passou? Este ano foi o começo do fim do subgênero em Hollywood?
Para refletir sobre essas questões, é necessário lembrar que filmes de super-heróis não são algo novo na sétima arte, pois começaram a surgir em 1916, quando o francês Louis Feuillade apresentou Judex ao mundo.

Judex, caso não conheça, é um justiceiro que usa vestes sombrias para combater o crime por vingança pela morte de seu pai e, tem uma caverna em um andar subterrâneo de um castelo como base de operações. Familiar, não?
Judex (1916) foi só o nascimento do subgênero que se expandiu posteriormente com A Marca do Zorro (1920), As Aventuras do Capitão Marvel (1941), Superman e o Homem Toupeira (1951), Batman: o Homem-Morcego (1966) e muitos outros, até chegar ao lançamento mais recente, As Marvels (2023).
Repare que, a história do subgênero se confunde com o início da história do cinema, que aconteceu lá em 1895, quando Auguste e Louis Lumière exibiram a primeira projeção cinematográfica em um café em Paris. Portanto, não há uma era específica de filmes de super-heróis, apesar existir claramente uma época em que produções do tipo estiveram no topo em Hollywood.
Tendo como base a história, catalogar esse tipo de obra centenária como algo que não seja arte, ou digno de ser chamado de cinema, além de soar como pura arrogância, é um demonstrativo claro de ignorância da própria história da sétima arte.
Claro que existem diferentes preferências do público, cuja parcela pode simplesmente não gostar do subgênero, e não há nada errado com isso, como não há nada errado em não gostar de filmes de terror ou de musicais, por exemplo.
A grande questão da discussão atual sobre os filmes de super-heróis é que, mediante os fracassos recentes e a crise a criativa enfrentada pela indústria de blockbusters de Hollywood, há um certo desejo velado de algumas pessoas em ditar o que o público deve ou não gostar.
Parte desse desejo é originado pela justa causa de chamar a atenção para obras independentes, ou autorais de baixo orçamento que, de fato, merecem um espaço maior nas janelas de publicidade.
Porém, não seria mais inteligente concentrar energia na divulgação desses materiais alternativos, do que dividir atenção com a tentativa de lutar para destruir um subgênero, do qual diversos profissionais dedicam amor e suor para fazer acontecer?
Há também uma questão que poucos levam em consideração – levantada até mesmo por Christopher Nolan em entrevista para a Associated Press, que é a de que blockbusters exercem um papel fundamental na saúde da indústria, pois cinema não só é uma arte, como também é um negócio, e o sucesso de grandes produções proporciona o financiamento de materiais mais intimistas em grandes estúdios.
(Reprodução/Warner Bros. Pictures)
Portanto, é de bom tom notar que, se dedicar a lutar contra grandes produções acaba fazendo você lutar contra a própria causa de buscar um equilíbrio entre conteúdos.
Mas veja bem, não é por causa dessas pessoas que os fracassos de 2023 aconteceram, e é importante notar que a baixa procura do público por blockbusters não está se limitando apenas a filmes de super-heróis.
Até a data da publicação deste artigo, de todos os filmes com orçamento superior a US$ 200 milhões lançados este ano, apenas Guardiões da Galáxia Vol. 3 – que é um filme de super-heróis – conseguiu ser lucrativo (Via IndieWire).
Na lista de fracassos financeiros, há o magnífico Assassinos da Lua das Flores, de Martin Scorsese, o contestado Napoleão, do diretor Ridley Scott, e o aclamado Missão: Impossível – Acerto de Contas Parte 1.
Isso é um reflexo de outro problema real enfrentado por Hollywood atualmente: os filmes estão muito caros!
Pode-se dizer que os aumentos nos orçamentos estão ligados à grande projeção que o cinema alcançou antes da pandemia, época em que – os antes raros – filmes bilionários passaram a ser mais frequentes.
Acontece que, o ritmo de consumo diminuiu muito após a retomada do cinema. Além disso, a avalanche de conteúdo dos últimos anos fez o público claramente ficar mais seletivo sobre o que quer consumir. E é aqui que entra a verdadeira fadiga.
Não há apenas uma fadiga de super-heróis, mas sim de conteúdo, em um momento onde os sucessos diminuíram e os orçamentos não.
Por mais problemas que tenham, os grandes estúdios ainda são responsáveis por manter essa indústria viva e, pela saúde da sétima arte, o momento pede para que eles deem um passo para trás e, produzam filmes com mais critério e orçamentos condizentes.
Importante que fique claro, o público não é culpado pelos fracassos recentes de blockbusters, mas sim a própria indústria, que não está conseguindo atrair o interesse das pessoas, seja por entregar produções pouco interessantes ou até mesmo ruins.
Já há sinais de mudança de postura nos grandes estúdios. Alguns já até falam oficialmente em priorizar qualidade em relação a quantidade. Nessa equação, está claro que 2023 não foi o início do fim de nenhum gênero ou subgênero, mas sim um ano de muita reflexão na indústria.
Diante dessas prometidas mudanças, filmes de super-heróis podem até chegar com menos frequência daqui para frente, mas não vão deixar de existir. Afinal, eles existem há tanto tempo quanto o cinema.