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Liga da Justiça é bom.

Já pode respirar aliviado. Dito isso, o filme ocupa uma posição curiosa na história do cinema de super-heróis e é preciso primeiro contextualizá-lo:

Ele teve uma produção tão complicadíssima quanto fascinante, começando pela má recepção de O Homem de Aço e, especialmente, Batman vs Superman: A Origem da Justiça. A visão de Zack Snyder, apesar de ambiciosa e bem-intencionada, foi muito equivocada, falhando em inúmeros aspectos e sendo rejeitada pela crítica e grande público, forçando a Warner a retrabalhar em diversos momentos a sua continuação sobre a lendária equipe dos quadrinhos.

O ponto mais notável foi quando Snyder deixou a direção nos últimos meses da produção, devido a uma tragédia familiar, sendo substituído por Joss Whedon.

Acredito que por muito tempo vai se discutir sobre o quanto do filme corresponde à visão original de Snyder, o quanto foi alterado pelo estúdio e o quanto é o feitio de Whedon. Muito também vai se teorizar sobre cortes alternativos, estendidos ou uma versão do diretor que recrie a visão do seu diretor original e qual dessas versões seria melhor (e não duvido nada que o próprio estúdio não produza uma em breve). Mas não estamos aqui para especular sobre isso, apenas tratar da versão dos cinemas que temos disponível:

Liga da Justiça é um filme radicalmente diferente de seus antecessores. Um filme aventuresco, colorido, veloz e reverente ao seu material de base. Um filme muito mais convencional, é verdade, mas também muito mais coerente e humano. No entanto, o espectro de Batman vs Superman ainda está presente aqui, causando danos colaterais ao filme.

Ele vai muito além da quebra de tom brutal; é como se esse fosse o filme de uma terra paralela  onde Batman vs Superman foi completamente diferente. Elementos de trama são completamente esquecidos, personagens são repaginados e várias de suas decisões mais polêmicas são ignoradas. Ironicamente, o filme que deveria preparar o terreno para a Liga acabou sendo a sua maior sina, mas, dadas as circunstâncias, esse realmente parece o melhor caminho a seguir.

Com o mundo ainda de luto com a morte do Superman, o conquistador de Apokolips, Lobo da Estepe, surge para invadir a Terra e buscar os artefatos alienígenas conhecidos com as Caixas Maternas para ajudar a concretizar seus planos. Batman e Mulher Maravilha entram em ação com seu plano de recrutar outros indivíduos superdotados em uma equipe para enfrentar a ameaça alienígena.

Apesar de sua trama simples, ela sofre problemas de ritmo e narrativa. A decisão por um corte final de 120 minutos, visando um filme mais objetivo e dinâmico, não é das piores, mas não há como negar que 10 ou 15 minutos a mais fariam bem a ele, ajudando a respirar e talvez até preenchendo lacunas em sua narrativa frequentemente inconsistente (ainda que nada no nível de Batman vs Superman).

O Lobo da Estepe é um vilão um absolutamente genérico, sem muita presença, nenhuma nuance e feito em computação gráfica pouco convincente. Mas no geral, ele é como os vilões mais fracos nos filmes da Marvel: desinteressante, mas não fere muito o filme.

No entanto, a verdadeira força está nos heróis. Fãs de Barry Allen podem se incomodar com o uso do Flash como o alívio cômico da equipe, mas essa caracterização se encaixa bem dentro do contexto do filme, graças ao carisma de Ezra Miller, especialmente como personagem mais identificável e de bom coração. O mesmo vale para o Aquaman de Jason Momoa, diferente de sua iconografia clássica, mas faz sentido como o grandalhão antissocial do grupo. Ray Fisher se sai surpreendentemente bem como o Ciborgue, atormentado por sua condição biônica, e a proclamação de uma certa frase de efeito no final dá esperanças de vermos muitas outras facetas do personagem no futuro. Gal Gadot já era a figura com mais moral no elenco, após o sucesso de seu filme solo, e mantém o mesmo bom trabalho como Mulher Maravilha.

Já o Batman de Ben Affleck é um caso interessante. Ele é soturno, sim, mas entusiasmado, altruísta e fazendo um nítido esforço para não ser um tremendo babaca (na maior parte do tempo). Nem parece o mesmo sujeito que, um filme atrás, marcava criminosos como gado para que fossem mortos na prisão.

Mas o grande destaque é a, mesmo que limitada, participação de Henry Cavill. Finalmente temos o Superman, maior herói de todos, sorridente e de carisma infeccioso que merecemos e que mal posso esperar para ver em mais filmes. E não se trata de nenhum arco ao longo de três filmes. Desde a primeira cena, o filme estabelece como fato que ele sempre foi o grande escoteiro azul que conhecemos. Coerência à parte, não estou reclamando.

O clímax do filme é pouco impressionante em termos de ação e suspense, mas compensa justamente pela caracterização dos personagens, enfim fazendo jus às suas presenças míticas na cultura pop. Agora sim, um close da trindade fazendo pose foi conquistado e tem seu devido impacto.

Não é o grande filme que esperávamos para a primeira aparição cinematográfica da Liga, e também não traz nada de particularmente novo ao gênero de super-heróis, mas para uma produção tão conturbada, é um pequeno milagre o saldo positivo .

E quando o filme encerra com uma declaração de amor ao heroísmo e esperança (dessa vez, realmente sinceras) e com duas cenas pós-créditos que vão aquecer o coração dos fãs, o futuro do DCEU, enfim, parece muito animador. A Era de Heróis está de volta.



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