
Inegavelmente, Demolidor é o carro-chefe das séries Marvel dentro do serviço streaming da Netflix. Não apenas por ter sido a primeira a ser produzida, mas também por ser a que mais supre a necessidade do público com adaptações de quadrinhos – um gênero extremamente popular atualmente. Basta observar que dentre suas séries irmãs, como Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro, o Demolidor é o único que está devidamente trajado como um uniforme de super-herói, como nos quadrinhos.
E desde a estreia da série em 2015, o fã, sempre ávido por ter todo o conteúdo esperado de seu personagem o mais rápido possível, já sonhava com uma segunda temporada adaptando aquele que talvez seja o mais icônico e importante arco do personagem nos quadrinhos: A Queda de Murdock.
A segunda temporada veio, e com ela tivemos um arco de histórias envolvendo o Justiceiro, Elektra e o Tentáculo. Decepção para algumas pessoas? Talvez. Mas se analisarmos e considerarmos que Matt Murdock só vestiu a sua roupa de demônio e respondeu pela alcunha de Demolidor no último episódio da primeira temporada da série, era simplesmente um péssimo timing destruí-lo já na segunda temporada, sem tempo hábil dele se sagrar como o Homem Sem Medo, defensor de Hell’s Kitchen. Além é claro da necessidade do roteiro em manter Wilson Fisk, o Rei do Crime (Vincent D’Onofrio) preso tempo suficiente para alimentar seu ódio pelo vigilante.
Mas então, após uma segunda temporada – que inclusive trabalhou um pouco da permanência de Fisk na cadeia, bem como sua relação com Matt Murdock (Charlie Cox) – e uma participação em Os Defensores, parece que o caminho foi preparado para finalmente vermos uma adaptação da aclamada Queda de Murdock. Isso porque no último episódio da série crossover que reuniu os 4 personagens da Marvel em uma trama pela alma de Nova York, vimos uma cena extremamente reconhecível para os fãs da obra, com Matt recebendo cuidados da Irmã Maggie, uma freira que na verdade é sua mãe.
Mas ok, afinal, por quê A Queda de Murdock é uma história tão aclamada e esperada com tanto entusiasmo pelos fãs do personagem? Escrita em 1986 por Frank Miller (o mais importante roteirista a trabalhar com o Demolidor) e contando com arte de David Mazzucchelli, A Queda de Murdock (Born Again no original) traz uma trama extremamente séria e adulta (algo que hoje é considerado como uma grande marca dos quadrinhos da década em questão), onde Karen Page, ex-namorada do herói, agora viciada em drogas e envolvida com a indústria de entretenimento adulto para sustentar o seu vício, vende sua identidade secreta a um traficante por uma dose de heroína.

Tal informação vai parar nas mãos de Wilson Fisk, o Rei do Crime, o maior inimigo do Demolidor, que com o conhecimento de que a maior pedra no seu sapato é o advogado cego Matt Murdock, resolve usar de todo seu dinheiro e influência para transformar a vida do herói em um verdadeiro inferno. E é realmente isso que acontece. Murdock perde todo o seu dinheiro, prestígio, profissão, tem sua casa explodida e acaba indo viver na rua, entre mendigos. É realmente a queda do personagem, como o título em português tão bem ilustra.
A história funciona praticamente em dois atos distintos, com o primeiro deles trazendo a derrocada de Murdock e sua chegada ao fundo do poço, e o segundo lidando com sua retomada após ser encontrado e cuidado pela Irmã Maggie. Em uma jornada de recuperação, o Demolidor busca retomar o que perdeu em uma história que lida com superação, auto-conhecimento e perdão. Algo que serve bastante ao título original, Born Again, ou Renascido.
Mas ok, como já esperamos, é óbvio que a série da Netflix não adaptará a saga fielmente. Nunca é assim que acontece, e sabemos que transposição de mídia envolve diversos fatores que exigem mudanças e… como o nome já diz, adaptações. Karen Page por exemplo, vivida na série pela atriz Deborah Ann Woll, muito provavelmente não enfrentará o ingrato destino dado a sua contraparte nos quadrinhos, mas talvez seja sim diretamente ligada ao fato da identidade secreta do Demolidor chegar ao conhecimento do Rei do Crime. Não devemos esquecer que, ao longo de duas temporadas, a série trabalhou o fato de que a personagem possui um passado misterioso e sombrio – e talvez até criminoso. Ser ameaça e chantageada por Fisk não é algo que podemos desconsiderar.
E por falar em Fisk, existe inclusive um determinado momento na segunda temporada de Demolidor, logo após seu confronto com Murdock, que parece indicar que, no mínimo, a semente da dúvida foi plantada em sua mente. Será que ali ele já desconfiava que o advogado cego de Hell’s Kitchen é o seu vigilante trajado em vermelho? Essa descoberta na série tende a trazer um conflito talvez mais interessante do que nos quadrinhos, afinal, na obra original Fisk tinha motivos para odiar o Demolidor, mas não a Matt Murdock. Na série, ele odeia os dois homens, cada um por um motivo diferente. Então, como agirá ao descobrir que dois de seus maiores desafetos são na verdade a mesma pessoa?
Mas existe ainda um outro fator, extremamente esperado pelos fãs há um bom tempo, e que deve ser inserido agora: a presença do Mercenário. Considerado um dos maiores inimigos do Demolidor, o personagem nos quadrinhos é responsável por assassinar duas das mulheres que Matt já amou: Elektra e Karen Page. Apesar de não estar presente na saga original nos quadrinhos, o personagem se encaixa perfeitamente nesse momento da série, onde o Demolidor deve encarar o pior momento de sua vida. Com uma possível saída de Wilson Fisk da cadeia, é provável que o Mercenário trabalhe como seu assassino pessoal em busca de Murdock, um papel que o personagem já viveu por inúmeras vezes nos quadrinhos. E apesar da morte de Elektra (e sua ressurreição) já ter sido desperdiçada na temporada anterior, jogando fora a oportunidade de recriar um dos momentos mais icônicos dos quadrinhos, ainda existe a possibilidade muito real de que Karen Page seja morta pelo vilão nessa temporada, o que seria um tremendo choque para o herói. Isso se o Mercenário realmente estiver presente nesta temporada, claro.
Mas independente das conjecturas que façamos para o futuro do Demolidor em sua terceira temporada, existe algo que é inegável: serão dias sombrios na vida de Matt Murdock e daqueles que o cercam.






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