
Décadas depois da adaptação de 1997, Spawn retorna aos cinemas com roteiro e direção de seu próprio criador, Todd McFarlane. Estreante nesta mídia, o quadrinista entrou em acordo com a Blumhouse Productions, fundada pelo bem-sucedido produtor Jason Blum, para co-produzir o projeto. Blum é conhecido por ter produzido obras bem comentadas como Fragmentado e Corra!, mas é ainda mais conhecido por conseguir financiar longas com muito pouco dinheiro.
Não será diferente com o Spawn. De acordo com McFarlane, pretende-se gastar algo em torno dos US$ 10 milhões na produção – o que já é bem caro se considerarmos os padrões de Blum. O anúncio causou estranheza nos fãs: como financiar a ultra violência megalomaníaca dos quadrinhos do Soldado do Inferno em uma adaptação – que Todd promete que será muito fiel – com apenas esta quantidade de dinheiro? O quadrinista ainda diz que pretende contar com astros muito bem conhecidos como os protagonistas, o que deixa tudo ainda mais curioso.
Pois bem: agora temos Jamie Foxx confirmado como Al Simmons. Ganhador do Oscar por sua participação no ótimo Ray, Foxx é uma estrela incontestável cujo salário médio geralmente conta com muitos zeros em sequência. Além disso, McFarlane ainda revelou que pretende contratar o estrelado Leonardo DiCaprio para interpretar o detetive Twitch, embora ainda não exista nenhuma negociação.
É claro que DiCaprio muito provavelmente recusará o papel, mas considerando que alguém de seu escalão seja escolhido, não dá para imaginar Foxx e seja lá quem for o Twitch juntos numa produção de US$ 10 milhões, não é? Em uma situação comum, US$ 10 milhões seria somente o salário que cada um deles exige. Sobraria muito pouco para os gastos reais da produção, correto?
Bem, isto não é totalmente verdadeiro – e existe uma pequena história sobre os bastidores de Batman: O Filme que pode ajudar a esclarecer o que McFarlane e Blum pretendem fazer para ‘fisgar’ os grandes astros de seu projeto.
Quando Tim Burton e a Warner Bros. acertaram todos os detalhes para que as gravações começassem, ambos chegaram ao consenso de que Jack Nicholson era o melhor nome para interpretar o infame Coringa, mas havia um grande problema: Nicholson era simplesmente uma das pessoas mais famosas da época e seu salário era astronômico para os anos 80.
A exigência era que o orçamento não custasse mais do que US$ 35 milhões – contratando Nicholson, sobraria muito pouco para gastar em outras áreas essenciais, como o design de produção e os efeitos especiais. Foi quando alguém teve a brilhante ideia: e se, em vez de pagar ao astro o salário que exigia, os produtores criassem um acordo em que Nicholson tivesse uma porcentagem direta dos lucros de bilheteria e dos produtos licenciados vendidos? Ele receberia uma pequena quantia pelas suas cenas e o resto dos ganhos chegaria depois, derivado do próprio sucesso do longa.
Até então, este movimento era inédito. O acordo beneficiou tanto Nicholson quanto à Warner Bros.: por conta da presença carismática de seu Coringa, Batman: O Filme se tornou um grande sucesso mundialmente; por conta desse sucesso, Nicholson lucrou incríveis US$ 50 milhões. Deste modo, produtores poderiam contar com grandes astros em seus projetos de uma maneira mais acessível e astros poderiam ter ganhos ainda maiores – no caso de sucesso nas bilheterias, é claro. Vale lembrar que o mesmo ocorre com Daniel Craig na franquia de James Bond.

Seguindo esta lógica, supõe-se que exatamente o mesmo será realizado em Spawn: os protagonistas podem receber depois do lançamento, de acordo com os lucros da arrecadação em bilheteria e do licenciamento.
Façamos uma suposição otimista: se os lucros do longa-metragem girassem em torno dos US$ 200 milhões, descontados os gastos com produção e marketing, e Foxx tivesse um contrato com cláusula de participação de 10% nestes ganhos, o ator conquistaria US$ 20 milhões por seu trabalho, basicamente o mesmo que Ben Affleck recebeu para retratar o Batman em Batman v Superman: A Origem da Justiça. Já é um ótimo dinheiro. Além disso, também há de se considerar que o Spawn em si não terá participação em toda a história, então o rosto de Foxx pode aparecer somente em algumas ocasiões e, em outras aparições, ele pode somente dublar o personagem.
A Blumhouse gosta desse tipo de relação com os atores, já que gastou somente US$ 9 milhões com Fragmentado e conseguiu contratar o James McAvoy para estrelar – ele não é caro como Foxx e DiCaprio, mas vocês entenderam a lógica.
O negócio nem sempre é lucrativo: muitos estúdios não gostam de se comprometer com regalias para astros de cinema e certos talentos não aceitam este tipo de contrato por acharem muito arriscado, já que fracassos comerciais são sempre uma possibilidade. Ainda assim, é impressionante a criatividade que surge nos seres humanos quando o objetivo é economizar.





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