
Para este Superman, é ótimo ser um super-herói: é claro que ser o homem mais poderoso do mundo traz algumas responsabilidades muito sérias, mas se comprometer e cumpri-las traz uma satisfação sem igual, além de muitas novas amizades – o Homem de Aço é simplesmente muito bom em seu trabalho e grande parte do mundo o reconhece por isto. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito sobre Clark Kent: em um relacionamento secreto com Lois Lane, o tímido Kent passa por uma crise pessoal que lembra muito o Peter Parker de “Homem-Aranha 2”, se questionando sobre a possibilidade de contar a verdade sobre sua identidade secreta para a amada.
Afinal, explicar suas cada vez mais constantes evasões está ficando mais complicado e, com ela sabendo toda a verdade, não seria mais necessário mentir – por outro lado, este tipo de relacionamento mais íntimo poderia trazer mais perigos para ela caso algum malfeitor o descobrisse. Em meio a esta ambientação, o terrível “Doomsday” chega misteriosamente do espaço para causar caos para onde passa. O monstro gigante e alienígena louco por destruição demonstra sem muita dificuldade que a Liga da Justiça não é páreo para sua força e cabe ao líder da equipe, o Homem de Aço, tentar impedir que a cidade de Metrópolis e, posteriormente, a Terra sejam aniquiladas.

Criada por uma grande equipe de escritores composta por Dan Jurgens, Roger Stern, Louise Simonson, Jerry Ordway e Karl Kesel, a saga “A Morte do Superman” é considerada um clássico moderno na indústria dos quadrinhos e a classificação é muito justa: embora a história não seja a melhor do Homem de Aço, ela carrega uma premissa muito impactante e, portanto, não poderia não se destacar em uma década em que obras esquecíveis representavam uma maioria. Afinal, se trata da morte do maior super-herói de todos os tempos. Sem falar que a saga é muito enfática em retratar a tragédia do título.
Ostentando as mesmas excentricidades ultra-violentas e megalomaníacas conhecidas da década de 90, a narrativa não se intimida em apostar em sequências exageradas em que o protagonista bate, apanha, sangra e destrói tudo para tentar acabar com seu inimigo mais mortal. A escolha do antagonista demonstra-se, portanto, como mais do que adequada, já que Doomsday é o sinônimo de uma máquina de matar. Nesta nova adaptação de “A Morte do Superman” para animação, a premissa é exatamente a mesma, mas o foco narrativo é outro. Romântico e espirituoso, o longa-metragem animado não está necessariamente interessado em mostrar como o Superman morreu nas mãos do Doomsday, mas em contar como ele continua sobrevivendo nos corações das pessoas para as quais representou algo, independente de tê-las conhecido pessoalmente ou ter sido visto por elas na televisão.
Há duas escolhas essenciais que tornam inteligente o roteiro de Peter Tomasi, responsável por uma recente e muito boa fase do personagem nas histórias em quadrinhos. Primeiramente, Tomasi dá muito tempo em cena para Clark Kent e, consequentemente, consegue mais espaço para desenvolver seu relacionamento com Lois Lane, dando uma faceta mais humana a história – além disto, o conceito de Kent ser um cidadão qualquer que passa despercebido por todos pelos modos pouco atraentes funciona bem como não se assistia desde “Superman: O Filme“, clássico de 1978. Em segundo lugar, o roteirista também transforma “A Morte do Superman” em um grande palco para as pessoas; sim, as pessoas.
Há breves, mas significativas, falas de indivíduos que puderam conhecer o Superman pessoalmente por todos os cantos durante a mais de uma hora de duração da animação, destacando o símbolo de esperança que o mesmo significa para elas – a prática surpreende por ser um estudo de personagem muito sutil, sustentado pela observação do impacto das suas ações pelo mundo. Claramente, boas escolhas também podem, por outro lado, gerar resultados duvidosos: formada pelos seus membros usuais – com as adições de Caçador de Marte e Gavião Negro -, a Liga da Justiça acaba tendo uma participação meramente trivial na história, servindo como o suporte da exploração dos poderes do Doomsday.

Como já havia sido evidenciado por outras animações deste universo, a relação entre Superman e equipe continua muito frágil e superficial, principalmente no caso do Batman, desapontando por desperdiçar a chance de explorar o que o escoteiro representa para ser indivíduos com os quais conviveu por tanto tempo – e, neste sentido, a grande exceção é a Mulher-Maravilha, única personagem do time cuja amizade com o Homem de Aço realmente convence, até mesmo porque, neste universo, ambos já tiveram um relacionamento amoroso (e espero sinceramente que a DC esqueça esta ideia para sempre).
Quanto à direção do experiente Sam Liu e do iniciante Jake Castorena, não há muito o que dizer: conscientes das habilidades do Superman, os diretores comandam sequências bem mais cativantes que as próprias cenas de ação da HQ, exceto por uma afronta particularmente chamativa à Física no ápice do terceiro ato. Liu e Castorena não são sucessores de Bruce Timm nem parecem interessados em ser, mas seus esforços são o bastante para criar um conto que, apesar de excessivamente familiar, instiga por ser uma nova evolução no novo DCAU – e, aliás, uma obra bem melhor que a outra animação de 2007.





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