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O Aquaman sempre foi um personagem um tanto quanto irrelevante no imaginário popular. É claro que um fã de quadrinhos sempre soube a importância do personagem, inclusive tendo conhecimento de grandes clássicos que o personagem ostentou nessa mídia, como Death of a Prince, da década de 70. No entanto, ele nunca teve o apelo do grande público como outros grandes personagens da DC, como Superman, Batman e Mulher-Maravilha. Muito disso devido ao fato de que esses três eram muito mais fáceis de ser adaptados para cinema e TV, o que aumentou em muito a sua popularidade e o seu alcance cultural. Já o Aquaman… bem, digamos que viver no fundo do mar impossibilitava que o personagem se aventurasse para outras mídias.

Mas eis que no século XXI, Aquaman finalmente foi “encontrado” pelo grande público. Porém, não da forma que ele merecia. Aquaman encontrou o seu lugar como uma piada.

Parece que debochar do pobre Arthur Curry que falava com peixes de repente se tornou um grande negócio, mesmo que o personagem tivesse passado por uma reformulação total no fim dos anos 90 pelas mãos de Peter David, naquela que se tornou uma de suas mais aclamadas fases nos quadrinhos, onde passou a ostentar um visual barbudo e cabeludo, inclusive participando da Liga da Justiça de Grant Morrison em uma das formações mais icônicas da equipe.

Porém, em uma época que vivia a explosão dos memes e do compartilhamento viral em massa, a série The Big Bang Theoryque sempre foi ótima em fazer um grande desserviço aos nerds ao mesmo tempo em que curiosamente também os tornava populares – foi uma das primeiras em resolver olhar lá para trás, quando o Aquaman era muito mais bizarro (na verdade todos os super-heróis eram, e o Batman do Adam West tá aí para provar isso), e explodiram para o mainstream a imagem mais tosca possível do personagem.

E de uma hora para outra, passou a ser muito engraçado zoar o Aquaman, aquele pobre super-herói laranja com o poder idiota de conversar com os peixes. E consequentemente passou a ser mais engraçado ainda zoar os leitores de quadrinhos conhecedores do personagem, que tentavam de forma vã responder em cada uma das publicações debochando do herói, o quanto ele era fodão nos quadrinhos, o quanto debochar dele era pagar de ignorante, o quanto quem não lê quadrinhos não sabe de nada, e bla bla bla. E sabe o que eles conseguiram com isso? Fazer com que o pobre Aquaman fosse ainda mais e mais zoado. Anos de bullying não ensinaram nada para essa galera.

Era oficial. O Aquaman havia virado não apenas uma piada, mas um sinônimo real para muita gente, de um herói fracassado. Ser fã do Aquaman era quase motivo de vergonha. E digamos que o fato do herói quase não ter materiais publicados no Brasil de forma digna também não ajudou em nada.

Foi somente em 2011, aproveitando que todos (ou quase todos) os seus títulos estavam passando por um reboot completo, que a DC resolveu se utilizar da má fama do Aquaman para criar algo que pudesse gritar mais alto que os memes e alcançar o mainstream. E como fazer isso? Levando os memes para a história, é claro.

No reboot Novos 52, o escritor Geoff Johns, que já havia expandido de forma extremamente competente a mitologia do Lanterna Verde, voltou suas atenções para o Aquaman, na intenção de quebrar o estigma de fracassado que o personagem havia alcançado. E na vida todo mundo descobre (um pouco tardiamente, na maioria das vezes) que a melhor forma de parar de ser zoado é simplesmente aceitando ser zoado e demonstrando não se importar com isso. E é o que o Aquaman de Johns faz. 

Não existe uma tentativa na revista de simplesmente enfrentar a má fama do personagem mostrando que ele é fodão. Seria um caminho fácil e inútil, considerando que ele já tinha atos incríveis nos quadrinhos há anos, e ninguém se importava com isso, afinal zoá-lo era muito mais interessante. Era preciso algo mais, e o caminho escolhido por Johns foi muito mais criativo. Dentro do próprio universo do gibi, Aquaman É uma piada.

É quase como se o personagem tivesse sido transportado para o nosso mundo, e ali ele é menosprezado por policiais, por crianças e até pelos criminosos. A diferença do nosso mundo? Aqui nós temos o Aquaman em pessoa para provar quem ele é de verdade.

A trama construída por Geoff Johns e Ivan Reis para o Aquaman é extremamente interessante e, sim, trouxe alguma relevância para o personagem, mostrando que ele pode ser tão interessante quanto Batman ou Superman, desde que bem escrito.

E eu adoraria dizer que esse gibi fez com que piadas fossem engolidas e que todos se arrependeram de enxergá-lo como um fracassado, mas… olha, estamos falando de compartilhamento de massa em redes sociais, comparados com um material de nicho, então devo dizer que o máximo que essa fase conseguiu foi dar muito mais material para que os incansáveis leitores de quadrinhos continuassem sua cruzada pessoal de comentar em todos os memes do Aquaman o quanto ele era fodão e o quanto “vocês deveriam ler a fase do Geoff Johns antes de falar merda!”

Mas pelo menos agora eles tinham aquela imagem incrível do Jim Lee, com o Aquaman controlando tubarões para devorar os Parademônios de Darkseid, salvando a Liga da Justiça no processo.


Chega Jason Momoa. E Zack Snyder. E James Wan


Sejamos sinceros. Quadrinhos são legais pra caramba e super-heróis são uma das coisas mais incríveis que o homem já inventou. Mas é o cinema que torna esses personagens amplamente reconhecidos e populares a ponto daquele seu primo que te zoava por ler gibis, de repente aparecer usando uma camisa do Homem de Ferro.

E com a DC começando a estruturar o seu próprio universo cinematográfico no cinema, qual seria a melhor forma de popularizar de vez o Aquaman?  Levando ele ao cinema da forma mais badass possível, óbvio.

E sem espaço para fazer piada dessa vez. A hora de se encarar como piada já havia passado. Agora era o momento que eu citei anteriormente, que não teria funcionado na abordagem de Johns nos quadrinhos, com um Aquaman que fosse simplesmente uma força da natureza. E que ator melhor para retratar isso do que Jason Momoa, que já havia mostrado sua presença de tela como o imponente Khal Drogo em Game of Thrones?

Zack Snyder é conhecido por ter uma visão bem particular sobre sua escolha de casting. Mesmo que não sejam exatamente idênticos aos personagens – e Gal Gadot (Mulher-Maravilha) e Ezra Miller (Flash) também se encaixam nesse perfil – ele consegue visualizar atores que em sua concepção podem entregar melhores performances de acordo como ele entende esses personagens. E mesmo que o Aquaman de Jason Momoa só estreasse de fato em 2017, quando Liga da Justiça chegasse ao cinema, Snyder não resistiu em dar uma aperitivo do personagem em Batman vs Superman: A Origem da Justiça, inclusive divulgando meses antes a primeira imagem de Momoa caracterizado como Aquaman, indicando o que muitos já esperavam: que o visual seria bastante puxado para a versão mais imponente dos quadrinhos de Peter David.

No entanto, Aquaman não teve espaço para brilhar em Liga da Justiça, mesmo que o planejamento da DC já tivesse colocado seu filme como o próximo do calendário. De acordo com indícios de Snyder e informações do próprio Jason Momoa, a ideia era que Liga da Justiça preparasse o terreno para o filme solo do Aquaman, desenvolvendo mais o personagem, seu lar Atlântida e sua relação com alguns membros de seu núcleo, como Mera (Amber Heard) e Vulko (Willem Dafoe). Dessa forma, a bola seria passada para James Wan.

O que aconteceu foi que a Warner acabou afastando Snyder de Liga da Justiça com o filme ainda inacabado, colocando em seu lugar Joss Whedon, diretor de Vingadores, que recebeu a missão de modificar radicalmente o trabalho de Snyder para algo mais familiar e supostamente mais “redondo”. Dessa forma, diversas tramas foram cortadas ou encurtadas, e um dos afetados foi justamente o Aquaman, que acabou sendo o mais prejudicado dentre todos os membros da equipe, saindo sem desenvolvimento algum e sem qualquer apreço para o público.

Desde então, muita coisa mudou. A Warner deixou Aquaman como o único filme da DC em 2018, marcado apenas para o fim do ano, e enquanto isso buscou colocar ordem na casa. Walter Hamada foi colocado no comando do departamento de filmes da DC, e aos poucos o estúdio começou a repensar a abordagem que utilizaria para seus heróis no cinema.

E os trailers de Aquaman foram mostrando gradativamente essa mudança. Muito mais coloridos, sem medo de criar fielmente os visuais dos quadrinhos de personagens como Arraia Negra e Mestre do Oceano, e o mais importante… bebendo direto da fonte da aclamada fase de Geoff Johns. O diretor James Wan entendeu que antes de ser um brucutu amedrontador de quase 2 metros de altura, Jason Momoa é um cara super gente boa e extremamente carismático. Alguém com quem você gostaria de tomar umas cervejas.

E após entregar aos poucos em imagens e vídeos promocionais qual seria a pegada do filme, chegou a hora de entregar algo muito importante para testar de vez a recepção dos fãs. Afinal, o estigma de piada do Aquaman ainda estava ali. Ainda era o elefante no meio da sala. Estava sendo realizado todo um trabalho de relevância para o personagem, mas… e se o uniforme laranja colocasse tudo a perder e desenterrasse os memes e relembrasse que esse personagem que está chegando aos cinemas costumava ser uma piada até semana passada?

E o próprio James Wan chegou a reconhecer que isso realmente era algo que tirava seu sono:

O traje é meio extravagante… Então eu fiquei tipo: “Como faço isso para o público de hoje?” É um traje difícil de se fazer. Ele foi literalmente ridicularizado por toda sua carreira. Eu sinto que os verdadeiros fãs do Aquaman vão olhar e dizer: “Isso!!”

E foi o que aconteceu. Olhe bem para a imagem abaixo. Pois o que ela fez foi trazer o Aquaman para o mainstream com toda a relevância que ele merece para a cultura pop. Essa imagem é importante.

O que o filme do Aquaman de James Wan fez foi pegar a relevância trazida por Geoff Johns nos quadrinhos e replicá-la globalmente para um público maior, um público que está cada vez mais interessado nesses personagens de roupas coloridas, mesmo que nunca tenham lido um gibi na vida. O que Johns começou lá atrás, para um nicho específico, tem continuidade agora, para o mundo.  E convenhamos, quando você vê Jason Momoa ostentando esse belíssimo traje laranja enquanto cavalga um cavalo marinho e domina todas as criaturas marinhas, você começa a perceber que aquilo que você achava bobo pode ser algo extremamente badass.

E olha só, quando você ver alguém, insistentemente, ainda achando que é engraçado zoar o Aquaman, não precisa mais apenas usar a imagem do Jim Lee com o Aquaman e os tubarões. Agora você terá vídeos do fucking Jason Momoa controlando o Karathen e destroçando tropas Atlantes. Vai encarar?

Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.


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