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Nenhuma distopia previu algo tão silencioso e tão letal quanto a pandemia do COVID-19. As distopias são todas barulhentas, estridentes, com muita destruição, ou ainda monstros gigantes. As mortes que acontecem não se dão em hospitais, mas em meio a aglomerações de gente, todas elas fugindo para um último refúgio onde possam viver. Desta vez, não há refúgio. Ou melhor até há. Mas quem diria que o lugar para onde temos que correr não é nenhuma Ávalon, nenhuma Shangri-lá, nenhum El Dorado. O refúgio é a nossa própria casa.

O filme Melancolia, de Lars Von Trier

Essa distopia que estamos vivendo atualmente vei para acabar com todas nossas fantasias de distopias. Todos estavam errados, o mundo não acaba com um grito, nem com um ataque alienígena, mas com o tédio que impede a socialização. Talvez apenas Sofia Coppola estivesse certa, ou talvez Lars Von Trier. Ou talvez Herbert George Wells estivesse certo: um vírus da gripe está acabando com os tripóides. Mas não são tripoídes que são alienígenas, mas aqueles da charada da Esfinge, que fez a Édipo, sobre o ser que tem quatro pernas pela manhã, que tem duas pela tarde e três pernas ao anoitecer: nós, o próprio ser humano. O ser humano que usa bengala no fim de sua vida, seu crepúsculo, os tripóides idosos.

“primeiro Nostradamus previu a Internet, depois ele apenas procurou o resto no Google”.

Então temos outro mestre das Distopias, que por muitas vezes é levado a sério, Nostradamus, que de acordo com um meme que está circulando por aí, teria previsto a ascensão do vírus e a morte dos velhinhos no Velho Continente. Mas ninguém teria previsto que a distopia do COVID-19 tornaria inócuas todas as demais distopias. Será que, se e quando acabar o confinamento, no que a indústria do entretenimento se apoiará para refletir esse tipo de drama? Possivelmente as distopias serão menos dramáticas e mais sintomáticas como já refletiram nos quadrinhos em Sweet Tooth, Y: O Último Homem e The Walking Dead. Estes são quadrinhos que delinearam uma dimensão mais humana para as distopias.

Gus, de Sweet Tooth

Quem sabe teremos quadrinhos e outros produtos do entretenimeto que não se passem antes ou depois do apocalipse, mas durante ele, durante os esforços que a humanidade faz para que ele seja impedido, cauterizado, castrado. Em Sweet Tooth já temos a praga se alastrando pelo mundo, faznedo com que as crianças nasçam híbridas de animais. Em The Walking Dead, quando Rick acorda em um hospital a semelhança do filme Exterminio, com Cyllian Murphy, os zumbis já estavam espalhados por toda Atlanta.

Yorick Brown

Já em Y: O Último Homem é incrível, mas a praga que dizimou toda população masculina do planeta deixando apenas as mulheres, antes de fazê-lo foi necessário que as pessoas se fechassem em casa e se resguardassem dela. Foi depois de acabar todos os seus víveres que o protagonista de Y, Yorick Brown, surgiu nas ruas apenas para se deparar com uma gari recolhendo os corpos de homens endurecidos e estendidos pelas ruas.

Friends
Alguém falou em reprise?

A ironia é que a arma que usamos nessa distopia não é um cassetete ou uma submetralhadora, mas água e sabonete. Não usamos máscaras de gás, mas luvas e máscaras esterilizadas. Não nos unimos em prol do bem comum, mas nos isolamos em prol do bem comum. Nenhum grande mestre das escritas distópicas previu um futuro e uma história heroica que se daria de forma tão morna, em que as pessoas são marinadas em suas casas, em que nada acontece a não ser uma profusão de mortes e contágios e, quanto mais queremos que algo novo aconteça, só conseguimos com isso provocar mais morte e mais contágio. Como as reprises que fomos destinados a assistirmos num tedioso apocalipse.

Domenico de Masi e seu Ócio Criativo

Talvez pessoas com mais conhecimento, sabedoria e mais paciência que eu poderão dizer quais as consequências disso para as organizações humanas em sociedade ou ate mesmo para a economia. Domenico de Masi poderá dar explicações de como o tédio ou o ócio funciona na cabeça das pessoas fazendo com que elas ou se estupefaçam diante do nada ou passem a criar e construir, para preencher o vazio da vida. Feministas radicais poderão dizer, vetor é masculino, vírus é masculino, portanto é hora de abrir mais caminho para as mulheres.

This is the dawning of the of Aquariooooous…

Nostradamus, claro, com isso teria concordado, ao abandonarmos a violenta Era de Peixes, masculina, agressiva, dominadora e impositiva e partirmos para o envolvimento, equilíbrio, harmonia e entendimento da Era de Aquarius, para a qual poucos sobreviveram para contar a história. E, no nosso caso, para contar histórias. Certamente teremos mais histórias para contar: a dúvida é que caminho elas vão seguir – o da Era de Peixes, para produzir uma compensação social ou o da Era de Aquarius, em que ninguém mais precisará de compensação nenhuma.



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