Comentários

Qual o significado do segundo maior feriado cristão em um mundo onde muitos super-heróis nascem e renascem ao seu bel-prazer?

Nas histórias mais recentes dos X-Men, engendradas por Jonathan Hickman, os mutantes da ilha-nação de Krakoa conseguiram descobrir uma forma, graças aos poderes combinados de Os Cinco, trazer de volta todos os mutantes que já morreram no mundo. Dessa forma, o significado da morte no mundo desse tipo de super-heróis acaba sendo inócuo. Talvez, ela deva ser estudada de uma outra forma pelos acadêmicos que estudam as relações religiosas de vida e morte nas histórias em quadrinhos de super-heróis.

Os mesmos super-heróis que estamparam vários ovos de Páscoa que não puderam ser vendidos graças à pandemia da COVID-19 este ano, os Vingadores, desapareceram num piscar de olhos. Mas, graças às Jóias do Infinito, muitos desse heróis caídos, ou melhor, mais da metade do mundo foi trazida de volta à vida, acabaram, de algum jeito, passando por uma ressureição, graças aos sacrifício de Tony Stark. Outro homem de ferro há mais de dois mil anos atrás também se sacrificou por pelo menos cinquenta porcento da Terra. Vocês sabem de quem estou falando. O Thanos dele não estalou dedos, mas lavou as mãos.

Naquele tempo, lavar as mãos não era um sinal de cuidado, como é hoje durante a epidemia do novo Corona Virus. Era um sinal de desleixo, era um sinal de que devemos deixar as coisas como estão, se é assim que elas se colocam na nossa frente. Sim, aquele homem de ferro, que eu escrevo aqui com a letra minúscula, mas que tudo mais referente a Ele se escreve com letra maíuscula, para aqueles que creem, talvez se estupefaria sobre o significado que renascimento e ressurreição tomaram nos tempos de hoje em que os heróis massivos são outros.

A morte, no mundo dos super-heróis, é diminuída, é ridicularizada, ela não é mais um espaço de passagem, de transitoriedade, de transformação ou de reflexão. Ela apenas é mais um evento. Ela é um acontecimento, como um casamento, como uma briga de amigos ou até mesmo uma chocante troca de uniformes colantes. Ou, até mesmo, como vimos, a morte nos quadrinhos de super-heróis tem menos capacidade de comoção do que o beijo entre dois super-heróis homens. A Bienal do Rio de Janeiro que o diga.

Então se buscarmos o significado da Páscoa na Pessah judaica, em que é um tempo de sacrifício, de transitoriedade, de passagem, como o próprio nome judeu já indica, se comparada com os super-heróis, caímos novamente no discurso vazio de compra de ovos de páscoa com o Thanos estampado. Moisés e os hebreus passaram fome, realizaram grandes feitos para atravessar o deserto e o Mar Vermelho. Nossos super-heróis cruzam universos com um balançar de capa, ou, como no caso dos Flashes da Terra 1 e da Terra 2, eles precisam apenas se encontrar no final de um muro de construção para salvar um peão de obra. Com um martelo, Thor cria portais que vai do sistema skrull ao shiar passando pelos krees para deioxar uma encomenda. E os maravilhosos teleportadores, que levam, como Illyana Rasputin seus amigos a um vislumbre do inferno dos demônios que tentaram o símbolo da Páscoa por quarenta dias e quarenta noites, desde o fim do Carnaval até a Sexta-Feira Santa?

A simbologia da Páscoa, nos super-heróis, está esvaziado. As pessoas não para mais para fazer o principal ato dessa época do ano: a reflexão. Elas mal param para ler um texto que nem é tão grande, como este, para ler. Elas já tiram suas conclusões apressadas. Elas não querem mais parar para se questionar ou questionar as ações dos outros. Elas querem certezas prontas, entregues nas portas de suas casas, mastigadas e, se possível, empurradas goela adentro.

É algo doloroso pensar nas consequências que nossas ações tem na vida dos outros. Com grandes poderes vem grandes responsabilidades. mas só se você parar para pensar sobre isso.Refletir sobre a nossa existência como queria o filho Pai Poderoso,- que não é Odin -, é uma coisa difícil, dolorosa. É complicado ter que pensar que o que eu ou você fazemos, na verdade, não importa nem um pouquinho na grande ordem maior das coisas. A natureza segue e essa pandemia é uma prova que o mundo pode muito bem andar e continuar sem os seres humanos. No mundo dos super-heróis, eles estalam os dedos e surgem com uma panaceia para vírus como o COVID-19 em 24 horas, se preciso.

No mundo real, precisamos de ciência, precisamos de reflexão. precisamos de paciência num mundo que não tem paciência para nada e nem ninguém. E ai de quem for contra. Ai dos que, nesse mundo de atropelos, se põe ainda para refletir, pensar e dedicar anos de sua vida para estudar. Mas não é neles que, ironicamente, está a solução para essa crise? Não existe fórmula ou palavra mágica, só a importância da consciência que somos mais fracos que um minúsculo ser, que nem ser é, e que nem planos maléficos tem para nos derrotar. É engraçado se comparar isso com os discursos de autoridades que estão sempre inventando barreiras e inimigos para justificar seu poder. Seja nos quadrinhos ou na vida real.

Glorificados são aqueles que crucificam os demais, não os que continuam renascendo após dias de aflição. Glorificados são falsos ídolos, falsos mitos que, esses sim, continuam lavando as suas mãos de qualquer jeito. Deixa estar. E vão ao povo continuar crucificando aqueles que tentam trazer um pouco de realidade, de um pouco de reflexão, ciência, pensamento, para um mundo que não sustenta nem mais a si mesmo na sua pressa de consumir tudo que vê na sua frente.

É verdade que em tempos de pane, de convulsões mundiais precisamos de histórias para nos mantermos inteiros. O problema é que entra crise sai crise, precisamos de alguém que nos guie no meio de que histórias devemos manter e quais precisamos urgentemente descartar. Ou ainda, como esse homem de ferro dos solstícios, precisamos entender nossos ínfimos papeis nesse mundo. E, se as coisas forem como Ele promulgou há milhares de anos atrás, se estamos aqui para alguma coisa é para estendermos a mão ao próximo, seja esse próximo mesmo uma pessoa que esteja (para ser) crucificada. Em tempos de COVID-19, temos de oferecer ajuda, estender a mão. Bastante higienizada, seja de vírus, de mitos ou de fakenews. E que Odin nos proteja!



Comentários