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O estilo roguelike é bastante popular, e toda hora aparece algum jogo novo que segue as suas premissas de masmorras aleatórias e morte permanente. Apesar de ter surgido em meio a fantasia medieval, o gênero já transcendeu isso há muito tempo, e vários jogos já se arriscaram a colocar mecânicas de tiro em dungeons cheias de monstros. West of Dead segue essa tendência, mas em vez da costumeira jogabilidade frenética, o jogo da Upstream Arcade oferece tiroteios desesperados que se baseiam em cobertura tática. Só essa novidade já seria interessante para chamar atenção, mas com seus belos gráficos cell-shading e Ron Perlman, o Hellboy, dublando um pistoleiro morto em um purgatório do velho oeste, o jogo consegue apresentar bastante personalidade.

O jogo segue a vida, ou melhor, a morte, de William Mason, um pistoleiro morto, com crânio flamejante, que foi parar no purgatório. Confuso, sem ter certeza de onde está, quem é, e como morreu, ele avança pelo submundo tentando encontrar as respostas para o seu passado, um lugar de sombras e fumaça, em constante mudança, inspirado no velho oeste e em mitologias nativo-americanas. Durante sua busca, o panorama diante dele está sempre em constante mutação, sendo necessário encontrar e matar criaturas poderosas para descobrir mais sobre o que está acontecendo no purgatório e também sobre o seu passado. Nesse lugar de violência, a morte também é possível. Ou pelo menos uma espécie de morte. Ao ser derrotado pelas criaturas monstruosas que encontra, o pistoleiro acaba retornando para o saloon que marca o começo do purgatório.

É assim que o jogo estabelece o seu lado roguelike. As masmorras, diferenciadas por segmentos diferentes com seus próprios nomes, são todas geradas proceduralmente, oferecendo recursos e salas diferentes conforme o jogador morre e retorna para sua jornada. Com a ideia de morte bastante ligado ao conceito do jogo, falhar não se torna um grande problema, pois não soa tanto como uma ruptura dentro da narrativa. Além disso, West of Dead oferece mecânicas para compensar e até mesmo incentivar a repetição. Apesar de perder todas as armas, habilidades e power-ups, o jogador retém alguns poderes-chave que são desbloqueados ao longo das partidas, como por exemplo a capacidade de se curar. Outras recompensas, compradas com Pecado, também são persistentes, recompensando aqueles que vão à caça de monstros e inimigos para coletar esse recurso. Portanto, mesmo quem não gosta desse gênero, pode acabar gostando da obra.

Com um faroeste sobrenatural cheio de wendigos, zumbis, pistoleiros mortos e outras criaturas, a obra traz mapas que fazem bastante uso da escuridão e da penumbra. Isso combina perfeitamente com a estética bastante atraente que em muito lembra as artes do Mike Mignola, criador dos quadrinhos do Hellboy, de forma que conseguir a dublagem do Ron Perlman não só é um aceno para as inspirações do jogo, mas também parte de uma meta-linguagem que funciona muitíssimo bem. O clima sombrio de oeste estranho é um dos pontos altos do jogo, e casa muito bem com toda estética proposta. A dublagem de Ron Perlman, trazida em um estilo dinâmico, estilo o jogo Bastion, se encaixa perfeitamente nesse panorama, e está bastante evocativa. No entanto, nisso Upstream Arcade ficou devendo à Supergiant Games, pois logo as falas começam a se repetir e vão perdendo o seu efeito.

West of Dead não se trata de um caso de “estilo sem substância”, no entanto. O título apresenta um gameplay bastante sólido, não só na forma como coloca o seu lado roguelike e no avanço da história, mas também em seus combates. O jogo conta com uma diversidade de armas bastante vasta e os desenvolvedores conseguiram combinar muito bem mecânicas que nem sempre andam juntas. A câmera top-down nem sempre é a melhor escolha para um jogo baseado em cobertura, mas aqui ela funciona muito bem. É ótima a experiência de ter uma visão geral do mapa e saltar sobre lápides para pegar cobertura enquanto aperta os dois gatilhos do controle para atirar nos inimigos. Apesar do jogo funcionar perfeitamente no teclado e mouse, ele perde boa parte de sua graça, e essas mecânicas que ficam tão boas no controle, acabam por se mostrar medíocres sem ele.

West of Dead

Há certa velocidade nos confrontos, mas ele nem de longe é frenético. As armas precisam ser recarregadas e geralmente não contam com muitas balas. Isso torna essencial saber navegar pelos tiroteios e também o ritmo de pegar cobertura para não ser atingido, saltar sobre obstáculos e desviar de golpes inimigos. O jogo não é exatamente difícil, mas ele busca fazer o jogador ter consciência desses recursos e usá-los a todo instante. Os ataques dos inimigos são fortes, e descuidos podem fazer com que o protagonista perca vida bem rápido, embora não tão rápido a ponto de impedir que o jogador tenha reação.

Isso faz com que os movimentos precisem ser mais calculados, com um pouco de estratégia. Entrar de cabeça em uma sala escura pode ser desastroso, e mesmo sabendo quais inimigos se enfrenta, nunca é uma boa ideia sair atirando em tudo o que vê. A obra impele a buscar cobertura e se movimentar de forma pensada, evitando desperdiçar a munição que, apesar de infinita, precisa ser recarregada na arma. Ao tentar andar em meio aos inimigos, atirando no que aparecer para frente, o jogador logo se verá com as armas vazias, e a constante movimentação e disparos vai impedir que esteja com munição preparada na hora que realmente precisar.

West of Dead é um jogo bem trabalhado, bastante situado dentro da tradição roguelike, mas capaz de interessar quem não costuma ficar de olho no gênero. Suas mecânicas de são todas muito bem pensadas, trabalhando em ótima sincronia para fornecer uma jogabilidade em que tudo parece se encaixar muito bem. A obra é um exemplo de bom gamedesign, com todos seus aspectos não só funcionando individualmente, mas se complementando e incentivando, como uma máquina precisa operando em um ritmo lento, mas constante. A narração de Ron Perlman é a cereja do bolo, completando a apresentação desse jogo que se mostra um título bastante carismático.

Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.


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