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Quando a Paradox Interactive adquiriu a empresa de RPGs de mesa White Wolf, com todas as suas linhas do Mundo das Trevas, incluindo o famoso Vampiro: A Máscara, os fãs desse RPG logo se perguntaram quais novidades estariam a caminho e o que isso significaria para os jogos digitais da linha. Vampire: The Masquerade Bloodlines, RPG de computadores lançado em 2004 que há muito gozava de um status cult ainda era querido por inúmeros fãs, e já fazia tempos que pediam por um novo título dessa série. Em 2018, quando foi lançada a quinta edição de Vampiro: A Máscara, já era quase uma certeza que jogos digitais se seguiriam e a expectativa era grande. No entanto, o primeiro novo videogame da franquia, lançado em 2019, não se tratou de um CRPG que servisse de continuação do Bloodlines, mas sim de Coteries of New York, um jogo ao estilo visual novel.

Apresentando-se como uma “experiência narrativa”, Coteries of New York coloca o jogador na pele de um dos três personagens pré-definidos que acaba sendo transformado em vampiro nos primeiros minutos do jogo. Sem saber o que se tornou e ainda confuso com os acontecimentos, o personagem é capturado por outro de sua espécie e levado a uma grande reunião da sociedade noturna, onde a Príncipe de Nova York decreta a sua execução. A única chance dessa criança da noite é aceitar a ajuda de Sophie Langley, uma vampira mais velha e manipuladora que se oferece para ser sua senhora e ensiná-lo sobre a sociedade e a vida dos vampiros. A partir daí, o protagonista e o jogador acabam conhecendo sobre os vampiros da cidade de Nova York e o funcionamento do universo de jogo de Vampiro a Máscara.

Coteries of New York se trata claramente de uma obra pensada para introduzir novos jogadores ao cenário do RPG de mesa. Mais um acessório para os livros de RPG do que uma obra destinada para seus próprios fins, ele se esforça para inserir os novatos nos diferentes aspectos do mundo de Vampiro A Máscara, apresentando conceitos como a Camarilla, os Anarquistas, a Segunda Inquisição, e alguns dos dilemas que os vampiros do Mundo das Trevas precisam enfrentar. Nesse aspecto, a obra faz um bom trabalho, e consegue introduzir muito bem os conceitos do universo do jogo tanto para novatos quanto para veteranos, que precisa ser apresentados às novidades da quinta edição do RPG de mesa.

O jogo funciona muito como um visual novel, ou ainda uma versão digital das velhas aventuras solo dos RPGs. O jogador vai vendo a história ser apresentada para o personagem, e diversas vezes é apresentado com três escolhas ou respostas diferentes. Após a introdução do jogo, é possível participar de uma série de eventos na cidade de Nova York, com o jogador podendo escolher quais deles pretende participar. Esses envolvem interações com NPCs específicos que o jogador pode conseguir recrutar ou não como aliados através de suas respostas e escolhas. Além disso, existem eventos obrigatórios, que ocorrem de tempos em tempos e levam a trama adiante, seguindo a passagem das noites. Geralmente o jogador pode participar de dois eventos por noite, e precisa escolher com cuidado pois não é possível finalizar todas as sub-tramas antes do fim da história.

Em questões mecânicas, as escolhas do jogo não influenciam muito. Não existe exatamente uma forma de combate estruturada, mas volta e meia o jogador recebe a opção de se alimentar, ou seja, beber sangue de algum mortal. Estando bem alimentado, é possível usar opções especiais durante alguns diálogos, as disciplinas, os poderes vampíricos, que geralmente resultam em resultados imediatos melhores, quase que sucessos automáticos para alguma situação, mas nem sempre. Quando o personagem fica sem se alimentar, um efeito de sangue nas beiradas da tela indica que ele está com fome e que não poderá usar suas habilidades.

Apesar desse sistema de escolhas e do uso da disciplinas, o jogo não conta com quase nenhuma consequência para as ações do jogador. É possível falhar nas subtramas da Coteries of New York, mas o único porém dessa eventualidade é o jogador não poder ver até o final daquela história. A trama principal do jogo tem uma progressão quase automática e, tirando um par de vezes em que o personagem pode morrer, vai sempre seguindo em frente, mesmo que o jogador acabe falhando em alguma tarefa que lhe foi incumbida.

Apesar da falta de consequências do jogo, Coteries of New York tem uma história bastante sólida. É realmente um bom veículo para apresentar novos jogadores do RPG de mesa ao mundo do jogo, além de poder trazer bons momentos para qualquer jogador que curta Vampiro A Máscara. Os personagens são bem escritos, e foi feito grande esforço para estar fiel ao cânone do RPG, trazendo diversos personagens conhecidos do antigo suplemento New York by Night. O grande pecado do jogo é o final abrupto, que surge inesperadamente e acaba sendo extremamente apressado, não estando no mesmo ritmo dos demais segmentos para a obra.

Coteries of New York é um jogo simples e nada inova no estilo dos Visuals Novels. Nem de longe é o suficiente para quem está ansioso com o novo Bloodlines. No entanto, sua escrita sólida e bem amarrada ao universo de Vampiro A Máscara pode cativar os fãs do RPG de mesa, caso estejam atrás apenas de uma trama interessante ambientada no mundo das trevas. Adequado para fãs e curiosos, quem estiver interessado em uma obra mais complexa e com consequências é melhor passar longe deste jogo.

Escritor e tradutor, Renan passa o tempo lendo literatura e livros de história, quando não está quebrando a cabeça pensando em alguma nova campanha de RPG ou distraído com qualquer outra coisa. Comento sobre HQs, livros e filmes no meu canal Um Fracasso de Público.


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