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Assim como Novos 52 nunca foi uma fase unânime entre o público nos quadrinhos, sua adaptação em um universo compartilhado de animações acabou gerando controvérsia em determinados momentos com os fãs. Apesar de alguns problemas ao longo de seus 7 anos, no entanto, a saga animada acabou tendo em 2020 um encerramento digno de grandes animações da DC com Liga da Justiça Sombria: Guerra de Apokolips.

Mesmo com o fim tão recente de sua última saga, a DC não perdeu tempo e começou um novo arco, dando início a um universo completamente novo de animações em agosto com a chegada de Superman: O Homem do Amanhã. Ao contrário do que aconteceu com os Novos 52, iniciado com um mega evento (Flashpoint), este reboot trouxe um começo pé no chão, com sua jornada acompanhando os primeiros dias de seu maior super-herói.

O que deveria ser um trabalho simples de início seguro e promissor, estabelecendo um personagem já tão trabalhado em diversas mídias, acabou se tornando uma das piores origens que este autor que lhes escreve já acompanhou do Superman. Teremos spoilers abaixo, já que se tornaria difícil explicar tantos defeitos observados sem mencioná-los diretamente.

Para os fãs de longa data do super-herói, o começo da história parece, de fato, um tanto quanto promissor – cenários bem alegres e coloridos, um Clark Kent sorridente e de bem com a vida, completamente preocupado com o bem estar da humanidade, bem diferente, por exemplo, do Superman um tanto quanto despreocupado apresentado inicialmente nos Novos 52.

Ao contrário de origens anteriores, esta prefere pular as partes conhecidas do passado de Clark, se focando nos primeiros dias do herói, já adulto, descobrindo seus poderes e ajudando a sociedade com eles. Martha e Jonathan Kent, obviamente, estão diretamente envolvidos com este crescimento do personagem, sendo os responsáveis pelo velho dilema de se ele deve se esconder ou não da humanidade.

O grande problema aqui, é que ao contrário de outras situações, como o filme O Homem de Aço por exemplo, os pais de Clark apresentam diálogos extremamente rasos, não criando nenhum elo emocional com o espectador e, consequentemente, não impondo nenhuma carga dramática à iminente escolha do herói.

O desleixo com Martha e Jonathan é tão grande, que as escolhas do Superman acabam sendo tomadas embasadas em seus aprendizados com o Caçador de Marte, que também estava recluso na Terra, e se torna um dos personagens mais interessantes da obra pelos seus diálogos sobre a xenofobia da raça humana – assunto importante e que acaba sendo o grande plano de fundo, mas que se torna extremamente repetitivo, mencionado exatamente da mesma maneira em várias cenas posteriores.

Falando ainda em temas atuais com os quais a animação trabalha com cuidado, mas acaba desgastando o assunto tamanha repetição, está o feminismo representado na figura de Lois Lane. A ideia é cheia de boas intenções, mas peca na execução. A personagem tem uma grande importância no desenvolvimento pessoal de Clark, se mostra como uma mulher forte e determinada, mas se torna quase uma paródia com o decorrer da história, não só pelas suas repetitivas frases de superioridade, mas também por que essa importância fica só na promessa: sua presença é praticamente irrelevante em diversas cenas. 

Por este lado, no entanto, não podemos negar que O Homem do Amanhã ao menos tenta trazer uma origem diferente das tantas outras do Superman, já que desta vez o herói tem a ajuda de outros personagens importantes para tomar as decisões que acha ou não corretas sobre como deve agir no dia-a-dia com a humanidade.

Mas os principais defeitos começam, de fato, quando a primeira ameaça, o Lobo, chega na Terra, deflagrando uma história completamente sem sentido que parece se perder ainda mais a medida em que a trama se desenrola. O – a princípio – antagonista tem a missão de caçar o Superman por ser o último kryptoniano no universo, mas a batalha acaba gerando uma série de consequências que se desenrolam em acontecimentos extremamente forçados de forma a se conectarem.

Vale a abertura de um parêntese, no entanto, para ressaltar que o czarniano é, de longe, o melhor personagem do filme, encarnando com fidelidade toda sua arrogância, humor ácido e personalidade durona dos quadrinhos, fazendo um bom paralelo à figura inocente e bem intencionada do Superman.

Uma arma com uma substância orgânica usada por Lobo acaba transformando um funcionário da Star Labs na maior ameaça do filme, o Parasita, que consome a energia de absolutamente tudo que ele toca. Mas se o czarniano sabia do poder dessa substância sobre outros seres, por que utilizá-la contra o Superman e correr o risco de deixá-lo ainda mais poderoso? E por que o herói levaria a luta para um local repleto de pessoas, podendo causar consequências graves?

Misteriosamente, após o surgimento do Parasita, o Lobo simplesmente deixa de lado sua missão de capturar o Superman e se torna quase um amigo do super-herói, resolvendo ajudar a Terra por motivo nenhum. Ambos fazem uma aliança ainda mais improvável com Lex Luthor, que estava preso, e Clark simplesmente decide deixar nas mãos daquele louco recém conhecido o único objeto que seria capaz de lhe enfraquecer: um anel de kryptonita. Sério, Clark?

No fim das contas, a improvável trindade sequer consegue derrotar de fato o principal vilão, em uma batalha final completamente anticlimática que só termina após um discurso (mais um, e dessa vez interrompendo o clímax da ação) sobre amor e xenofobia, com nosso super-herói “salvando” o dia através de suas palavras, e não de seus punhos e poderes.

Se analisarmos apenas a forma como o personagem e o universo ao seu redor são estabelecidos, Superman: O Homem do Amanhã funciona como uma boa origem para o super-herói e para o futuro desta saga de animações da DC. A trama consegue apresentar novidades aos primeiros dias da jornada de Clark Kent – uma história já contada inúmeras vezes – e o insere em um contexto atual e importante usando temas recorrentes em nossos dias, como preconceito, como plano de fundo.

No entanto, a obra falha miseravelmente ao analisarmos sua trama como um todo, com inúmeros defeitos nas escolhas para o roteiro, história mal escrita e personagens mal trabalhados. Pontos definitivamente importantes que acabam transformando a animação, no geral, em algo esquecível, manchando a construção de um novo e bom Superman. Pelo menos as cenas de ação são boas.

Nota 6


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