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Antes de mais nada, vale fazer um recap aqui: Cobra Kai é uma produção originalmente feita pelo YouTube Premium, mas que foi adquirida pela Netflix com as 3 temporadas já gravadas. Entretanto, a Netflix decidiu soltar apenas as 2 primeiras temporadas e guardar a terceira para ter tempo hábil de produzir a quarta, já que estamos ainda em um período de pandemia. E no que isso importa? Em bastante coisa, explico: as 2 primeiras temporadas foram apresentadas para um público bem menor, bem mais restrito, quando a série não era a febre mundial que se tornou. Assim, eles se basearam nas reações daquele público para criar a terceira temporada, que traz bastante diferenças em relação às duas primeiras.

Não me leve a mal, não penso em convencer ninguém de que isso é um ponto totalmente negativo, mas apenas não reflete o que o público da Netflix mais gostou. A segunda temporada acabou de uma forma bastante interessante, abrindo diversas possibilidades para a série, entretanto, há uma clara mudança na forma como as coisas caminham na terceira.

Enquanto existem arcos muito bem escritos e que mantém o ritmo das duas primeiras temporadas, um exemplo disso é a viagem de Daniel LaRusso ao Japão – que traz retorno de personagens e também trabalha bem o passado e o presente, há também uma verdadeira ‘barriga’ para outros arcos que são mais importantes, como é o caso da rivalidade entre os dois dojôs. Além disso, arcos mais importantes e com mais potencial receberam um tratamento bem menos caprichado (Robby e Miguel, estou olhando para vocês).

A nova temporada traz também adições bem interessantes para a mitologia de Karatê Kid, John Kreese ganha seu próprio background, que é bem legal e até bem no clima dos filmes dos anos 80, só que muito mais sombrio do que qualquer filme da franquia do Sr. Miyagi. A história também serve para preparar terreno para o retorno de Terry Silver, que foi o grande vilão do péssimo Karatê Kid III. Momentos assim fazem com que a chama do interesse continue viva pela série.

Porém, vamos falar dos problemas: como o primeiro episódio da terceira temporada deixa claro, a ideia é lidar com as consequências da batalha que houve na escola e também com toda a tensão criada nas duas últimas temporadas. E aí temos as consequências físicas, mentais e jurídicas de tudo que foi feito. Entretanto, a forma como isso é tratado é inacreditável e irresponsável. Embora seja sempre legal ver cenas de ação em uma série que se trata de karatê, praticamente vemos a batalha da escola se repetir várias e várias vezes, quebrando patrimônio privado e destroçando as próprias crianças e adolescentes.

Há uma cena em particular que praticamente é uma recriação do que vemos em ‘Clube da Luta’, embora o alvo não seja um pequeno Jared Leto. Outro jovem tem o braço quebrado, enquanto há um pequeno que é jogado de uma janela. Em uma cidade em que o próprio torneio está ameaçado por causa da violência e a escola estaria em alerta, fica difícil acreditar que os pais dessas crianças não tomaram medidas judiciais ou, ao menos, mais duras em relação às suas crias. De mesmo modo, boa parte dos problemas seriam resolvidos se qualquer um deles usasse o telefone para chamar a polícia, afinal, temos uma casa inteira sendo destruída por um bando de adolescentes. Se na segunda temporada tivemos uma festa pausada pela polícia, qual o motivo de ninguém aparecer para acabar com uma briga quase mortal numa residência de bairro nobre? Não busco verossimilhança na série, mas acho que tais decisões foram incoerentes com a proposta da temporada. E isso não se aplica apenas aos atores mais jovens: há uma luta em uma oficina que basicamente não tem nenhuma razão de existir, além do fanservice (eu sou fã, mas quero service de qualidade), contando até com um chefão no modelo Streets of Rage.

Também podemos notar uma forte redução nos momentos ‘slice of life’ dos personagens, além das cenas de humor (que ficaram praticamente limitadas à experiência de Johnny Lawrence com o Facebook). Talvez seja mais uma decisão relacionada com o feedback do público do YouTube Premium. Há o retorno de personagens da primeira temporada, que ganham outras camadas aqui, alguns ganham até um novo background, como é o caso de Kyler, que se tornou um exímio praticante de luta greco-romana e, mais tarde, recruta de Johnny Kreese.

Dito isto, Cobra Kai ainda traz muita nostalgia e se empenha bastante em expandir o universo de Karatê Kid enquanto liga personagens dos filmes antigos e cria situações para seus reencontros (um dos mais esperados acontece nos últimos episódios). A terceira temporada é mais recheada de ação e possui um tom muito mais sombrio e violento do que as duas primeiras, mas isso certamente agradará os fãs dos filmes de ação oitentistas, além dos que curtem as pancadarias coletivas que acontecem ao longo da temporada. Ela mantém a magia que conquistou tantos telespectadores, mas possui uma grande diferença de ritmo e desenvolvimento de personagens. A quarta temporada promete ser bem interessante, visto que teremos um possível final para o desafio proposto na terceira, além de uma aliança que todos já esperavam que acontecesse.

E você? O que achou? Deixa aí nos comentários!

Positivo
  • Background de John Kreese
  • Resgate de tudo de Karatê Kid II
  • Retorno de mais personagens clássicos
Negativo
  • Arcos de personagens principais foram pouco desenvolvidos
  • Faltou coerência nas consequências da temporada 2
Nota 8
Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.


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