A cultura-pop é bem ampla quando o assunto é “inteligência artificial”. Coloco o termo entre aspas pois, mesmo que essa seja a nomenclatura padrão, o debate vai muito além da existência (ou não) da inteligência em si. A presença da sempre mítica “alma”, da consciência e, principalmente, da incansável vontade de viver, seria capaz de tornar esses seres dignos do que consideramos “pessoas”?
Escrita por Tom King e ilustrada por Gabriel Hernandez Walta, “Visão” foi publicada pela Marvel em 2015, sendo finalizada em 12 edições. Aqui no Brasil, a responsável pela publicação foi a editora Panini, que compilou a obra em dois encadernados. Você pode encontrá-los com desconto clicando aqui.

Abordando os aspectos que anteriormente citei, Tom King consegue ir mais além no espectro da vida artificial: qual comportamento humano faz dos humanos… humanos? Bom, para Visão, a resposta foi simples. O sintozóide decide formar uma família! Criando uma esposa e dois filhos adolescentes, o Vingador se muda para o subúrbio e lá passa a viver a “pacata” (entre muitas aspas, como veremos a seguir) vida de uma pessoa normal. Sua esposa, Virgínia, exerce o papel de mãe e dona de casa; seus filhos gêmeos, Viv e Vin são adolescentes que, como todos os jovens desta idade, devem frequentar o ensino médio. A forma como as decisões acabam sendo tomadas pela família é, pelo perdão do trocadilho, robótica. O desejo de se enquadrar em uma sociedade de seres humanos acaba suprimindo qualquer anseio desviante do considerado “normal” para uma família.

Na escola, Viv e Vin chegam voando; além da aparência que entrega facilmente sua origem, os jovens também exibem um comportamento diferente – afinal, é a primeira vez que têm contato com outras pessoas, principalmente da sua idade. Sem amigos, os irmãos passam os intervalos juntos, e sentimos o desconforto tanto dos outros alunos (bem como o medo do desconhecido) como também dos sintozóides que, mesmo tentando “ser normais”, como Visão os orientou, encontram uma barreira no próprio comportamento humano.

Visão havia explicado a eles que obviamente podiam memorizar as palavras e imagens adquiridas pelos livros. No entanto, Visão justamente observou que a capacidade de combinar estes números em retórica, em esforço criativo, isso tinha que ser aprendido. Fatos sem contexto são como indivíduos sem sociedade.
Mesmo sem a necessidade de dormir para recuperar energia, os Visões se desligavam à noite para que pudessem processar as informações diárias da melhor forma possível e eliminar aquilo que não era essencial. Numa noite, porém, mesmo sendo incapaz de sonhar, Visão se surpreende ao acordar inesperadamente de madrugada. Na sua mente, é repassado constantemente o momento em que sua esposa abriu os olhos pela primeira vez. Achando que havia algum erro em seu sistema, Visão se lembra da mulher de quem usou as ondas cerebrais para formar sua esposa: a Feiticeira Escarlate. “Esta é minha esposa, devo amá-la”, repete o sintozóide enquanto observava Virgínia “dormir”.

No entanto, a harmonia da família é terrivelmente abalada quando, na ausência do Visão, o Ceifador ataca a casa, ferindo Viv gravemente com sua lâmina. Completamente enraivecido, o vilão afirma que eles jamais serão uma família real, não passando de meras cópias. Cabe lembrar que Ultron, ao criar o Visão, usou as ondas cerebrais de Magnum, irmão do Ceifador. Na tentativa de salvar seus filhos, Virgínia golpeia o Ceifador até a morte com uma assadeira; ao perceber o que havia feito, a sintozóide apenas pede a Vin que não conte nada a seu pai.

A partir desse trágico acontecimento, a antes não conturbada vida da família Visão se torna uma mistura de investigação policial com um ótimo debate filosófico e existencial. Minha intenção com esse texto não é narrar parte por parte a trama da HQ. Meu objetivo, a partir dos fatos já postos, é justamente falar sobre como o nosso próprio conceito de humanidade é, por muitas vezes, vago.
Em diversas obras temos a dualidade humano x máquina, e em boa parte delas a questão “alma” é um fator decisivo para as atitudes dos personagens. No filme A.I. – Inteligência Artificial, temos uma criança robô que, desesperadamente, tenta “merecer” o amor de seus pais humanos, não entendendo porque é tão diminuído e menosprezado. No clássico Blade Runner, vemos os “replicantes”: androides usados em atividades perigosas para seres humanos que são duramente perseguidos quando tentam se rebelar e prolongar suas curtas vidas. Em Eu, Robô, filme baseado no livro homônimo de Isaac Asimov, somos apresentados às três leis da robótica, princípios cujo objetivo é permitir o controle e limitar os comportamentos dos robôs (inclusive, Asimov foi o responsável pela criação do termo “robótica”).

A.I. – Inteligência Artificial 
Uma replicante em Blade Runner 
Eu, Robô
A questão que nós, humanos, encaramos quando vemos tais obras é, justamente, a nossa própria definição de vida. A artificialidade dos robôs, replicantes e sintozóides nos é posta como uma barreira instransponível para seu reconhecimento como nossos iguais, nossos semelhantes. Sua composição corporal e a forma como foram criados nos diz, mesmo que inconscientemente, que estes não devem (e não podem), fazer parte da nossa sociedade como membros efetivos e verdadeiramente pertencentes.
Os Visões, por mais que empenhassem esforços no constante mapeamento das características intrínsecas dos seres humanos, ainda não eram considerados por estes como mais do que uma vida artificial. E é curioso, inclusive, o emprego da palavra “vida” seguida da nomenclatura de artificialidade; o desejo de desfrutar daquilo que só as pessoas são capazes de sentir, fazer, aprender e viver é que motiva a busca por uma existência reconhecida como “real”, como válida e merecedora de compaixão e afeto.
No momento em que Virgínia defende seus filhos nos é clara a sua intenção: impedir que o Ceifador destrua sua família. Aonde está a artificialidade nisso? Quando Visão está em seu laboratório com Viv, após revivê-la, ambos se abraçam; nosso maior erro é achar que é necessariamente essencial ser um humano para amar e sentir.

A busca pela felicidade é, para muitos, uma fórmula matemática; é concreta, estática e imutável. Desde que nascemos somos apresentados a um arquétipo de vida, a uma representação do que somos e do que devemos ser com o passar dos anos. Envolto nesse conceito, Visão, assim como todos nós, quer ser feliz; para ele, a felicidade envolve ser o mais próximo possível daquilo que ele julga como necessário para o desenrolar das consequências: ter uma esposa, filhos e até mesmo um cachorro. A aceitação dos demais também é de extrema importância para que se viva de forma plena e sem constantes conflitos internos.
Mais do que uma história, “Visão” é uma bela metáfora da própria humanidade. Abordando a vida pelos olhos de um sintozóide, vemos as nossas próprias falhas, as nossas próprias fraquezas e até mesmo os nossos desejos. Mesmo que não possam sonhar, Visão, Virgínia, Viv e Vin almejam, como todos nós, viver – e não há nada mais real que isso.









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