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A TV e o Streaming estão vivendo a era das histórias subversivas de super-heróis. Programas como Invencível e The Boys da Amazon ou O Legado de Júpiter da Netflix falam de super-heróis sombrios que tramam como os vilões que eles deveriam derrotar. Com o Universo Cinematográfico da Marvel dominando as telonas, é na TV que o público encontra seres poderosos com falhas como nós: ciumentos, perigosos e até imprudentes.

Mas uma série de super-heróis se afasta desse grupo, e não é porque seu super-herói seja ainda mais sombrio ou mais complicado do que os outros. Em vez disso, ele reorienta o gênero de volta às suas raízes tradicionais, reforçando que grandes poderes não vem apenas com grande responsabilidades, eles EXIGEM isso.

Os episódios de Superman & Lois estão sendo transmitidos agora no HBO Max, e muita gente começou a prestar atenção na pequena pérola que está sendo construída ali. E hoje, vamos tentar te convencer a assisti-la.

Sim, eu sei. Tá difícil confiar na CW, e até complicado indicar algo da DC produzido pelo canal ultimamente, principalmente depois da batalha de sabres de luz em The Flash e do meme do aniversário do Juninho. O Arrowverse desceu ladeira abaixo.

Para ser sincero, quase não faz sentido que a série Superman & Lois seja tão boa. Afinal, tecnicamente é uma série do Arrowverse. Esta versão dos personagens, interpretada por Tyler Hoechlin e Elizabeth Tulloch, foi de fato introduzida em Supergirl anos atrás, e apareceu em alguns crossovers desde então.

Mas Superman & Lois é uma série que não está separada do resto do Arrowverse apenas em termos de uma completa falta de crossovers até agora; na verdade parece um universo totalmente diferente. O roteiro e o enredo são melhores, e o valor da produção é dramaticamente mais elevado, abandonando aquele esquema de baixo orçamento com locações internas específicas que freqüentemente atormenta as outras séries.

O segredo? Metade de Superman & Lois pertence ao HBO Max, sendo parcialmente financiado pelo serviço de streaming, e parece ser uma espécie de programa de “transição” para um nível superior de DC TV. Em suma, o antigo Arrowverse está sendo deixado para trás, e a Warner percebe que precisa começar a gastar muito dinheiro para competir com o novo ataque ininterrupto de séries da Marvel.

Em uma mudança em relação às séries anteriores do Superman como Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman e Smallville, esta iteração segue um Superman maduro e casado (Tyler Hoechlin) tendo que encarar uma novo desafio: a paternidade.

Junto com sua esposa, a jornalista Lois Lane (Elizabeth Tulloch), os dois voltam para Smallville para criar seus filhos, o atleta Jonathan (Jordan Elsass) e o antissocial Jordan (Alex Garfin), que são tanto os personagens principais do programa quanto seus pais. Mas sua vida idílica é interrompida quando um dos filhos começa a desenvolver poderes – e um estranho com uma armadura chega na cidade tentando matar o Superman.

Para os fãs da subversão do gênero, como The Boys e Invencível, uma série do Superman o mostrando como um pai de família pode soar conservadora, antiquada e até ingênua. O conceito do Superman – “Verdade, Justiça e o Modo Americano” – parece igualmente retrógrado.

Mas a verdade, é que é isso que faz o Superman. Desde sua primeira aparição em 1938 na Action Comics #1, Superman era um justiceiro social piegas que impossivelmente resolvia todos os problemas da Era da Depressão – proprietários gananciosos, espancadores de esposas e gângsters – com um soco muito bem colocado. Seu traje, que evocava os fisiculturistas circenses, sempre foi bobo. No entanto, ele é fundamental para tudo que os super-heróis são hoje. Você simplesmente não pode falar sobre Watchmen ou sucessos de bilheteria modernos como Vingadores: Ultimato sem primeiro reconhecer como essas histórias vieram das estradas que o Superman pavimentou inicialmente.

É por isso que Superman & Lois ainda é uma série tão atraente em 2021. Enquanto a mídia de super-heróis ziguezagueia em todas as direções tonais, Superman & Lois se compromete com os mesmos ideais que há muito definiram o Homem de Aço.

E o mais engraçado é que esse “conflito tonal” entre os super-heróis subversivos e violentos, com a pureza que o Superman evoca dos quadrinhos clássicos dos anos 40 – que vemos tão claramente representado hoje nas telas – já foi debatido nos quadrinhos anos atrás. Em O Reino do Amanhã, por exemplo, escrito por Mark Waid e desenhado por Alex Ross, os ícones do Universo DC, agora mais velhos, entram em conflito com a próxima geração de super-heróis. A obra, publicada em 1996, foi uma reflexão a respeito da indústria de quadrinhos em uma época em que os leitores se voltaram para personagens violentos e “sombrios”. Na trama, Superman sai de sua auto-imposta aposentadoria para mostrar ao mundo que eles ainda precisam do jeito clássico de resolver as coisas.

Em um dos diálogos mais interessantes da HQ, Batman diz ao Superman: “As pessoas comuns decidiram que você e eu éramos muito gentis e antiquados para enfrentar os desafios do século 21. Eles queriam seus heróis mais fortes e cruéis“. Mark Waid escreveu isso muito antes de personagens como Omni-Man e Capitão Pátria sequer existirem.

Superman & Lois não ultrapassa os limites temáticos da mesma forma que seus contemporâneos fazem, e isso porque Superman simplesmente não precisa fazer isso. E nem deve. Ele é o Superman. Embora o público sempre vá suspeitar de um alienígena com poderes suficientes para governá-los sem oposição, a verdadeira questão não é “Quando o Superman vai se corromper?” Mas sim, “Por que ele não vai?”.

Tyler Hoechlin, aliás, está muito confortável no papel. O carisma do ator canadense faz dele o Superman que sempre imaginamos em nossas cabeças, mas não víamos desde Christopher Reeve. Embora vários atores tenham interpretado o Superman nos últimos 40 anos, Hoechlin parece realmente ser, pela primeira vez, um verdadeiro sucessor de Reeve. Temos um Superman puro, que sorri ao contar para uma criança que foi sua mãe que costurou o seu traje.

Superman & Lois não é uma série perfeita, claro. Existem escolhas narrativas ruins em alguns papéis (Lana em particular), e nem todo episódio traz as sensações que descrevi aqui – alguns são bem qualquer coisa. Mas este é um olhar multidimensional do Superman que não vimos realmente explorado nas telas desde… bom, nós nunca vimos, pelo menos não em live-action. O Superman de Hoechlin quase parece uma resposta direta à versão melancólica e sombria de Zack Snyder. Este Superman é gentil, não economiza nos sorrisos, e parece uma versão mais tradicional do herói.



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