Se tem uma coisa que J. Michael Straczynski sabe escrever, são pessoas e relacionamentos. E se um pouco disso já havia sido mostrado no primeiro volume do encadernado que cobre sua passagem pela revista do deus do trovão, Thor: O Renascer dos Deuses, no segundo volume isso definitivamente foi mais evidenciado, com o autor trabalhando de várias formas diferentes a relação mais complexa existente: pais e filhos. Porque é exatamente disso que se trata Thor: Em Nome do Pai, relançamento desse mês da Panini, que dá continuidade ao run de JMS.
Se antes tivemos praticamente todo o arco se tratando do retorno de Thor e de como ele resgatou os deuses de dentro de corpos mortais para residirem na imponente Asgard mais uma vez – agora na Terra, sobre um terreno em Oklahoma – agora a trama começa sobre como o deus do trovão se sente sendo o soberano de seu reino, pois Thor se dá conta que um único asgardiano não retornou de sua última convocação que trouxe todos de volta: seu pai, Odin. Esse ponto da história passa muito bem uma sensação de legado e de destino, trazendo um diálogo sensacional entre Thor e seu pai. Isso porque o deus do trovão consegue encontrar Odin, cuja alma está presa em uma dimensão entre a vida e a morte, onde precisa passar os seus dias lutando eternamente contra Surtur. Todos os dias ambos morrem. E todos os dias renascem para lutar novamente.
A história que Odin contra para seu filho, a respeito de seu próprio relacionamento conturbado com seu pai, Bor, dá uma dimensionalidade enorme para o personagem. Percebemos que pai e filho não são assim tão diferentes, ao mesmo tempo que vamos aprendendo mais sobre o passado de Odin, suas decisões e medos. Não lembro de ter visto o relacionamento de Thor com seu pai ser tão bem trabalhado antes, e se o destino de Odin apresentado aqui fosse realmente definitivo (infelizmente nos quadrinhos nada é), seria um final honroso, digno e justo para com o personagem. Ainda que um tanto quanto agridoce.

Ainda dentro do tema de paternidade – que dá nome ao encadernado e dita a narrativa da história durante todas as quase 200 páginas – Straczynski utiliza de um retcon para aprofundar a história de outro personagem muito importante na mitologia de Thor, e poucas vezes bem trabalhado: Balder. Tentando encontrar um propósito para sua nova vida pós-Ragnarok, o asgardiano acaba se deixando levar pelas manipulações de Loki (falo nele já já) e aos poucos vai criando dúvidas quanto as decisões do deus do trovão. Uma trama coroada pelo momento em que Balder descobre ser na verdade filho bastardo de Odin, e portanto príncipe de direto de Asgard.
Apesar de nem sempre retcons serem bem recebidos e na maioria das vezes desnecessários (e o próprio Straczynski sentiu isso na pele quando resolveu macular Gwen Stacy em sua passagem pelo Homem-Aranha), aqui é tudo muito bem construído e crível, funcionando realmente como um acréscimo à mitologia desses personagens, e sendo uma ferramente útil dentro da história que está sendo construída. Porque, sim, o desenvolvimento é notório no roteiro de JMS, e é prazerosa a leitura onde percebemos que a narrativa evolui consistentemente para algum lugar. É inevitável torcer e ficar curioso pelo ápice do que está sendo construído.
Apesar de Thor ser o protagonista, o personagem que mais se destaca (pelo menos nesse volume) pela sua complexidade e espírito dissimulado e manipulador, é sem sombra de dúvidas o deus da trapaça, Loki (o que cá entre nós, ocorre até mesmo no cinema). Chega a dar raiva, o quanto os asgardianos ainda conseguem cair nas maquinações do “regenerado” Loki, simplesmente porque ele está em um corpo feminino e se diz mudado. No entanto, o modo como o autor constrói sua personalidade faz com que essa aceitação entre os seus – mesmo após seus atos regressos – seja plausível. Loki inclusive tem um capítulo dedicado a si, onde descobrimos a verdadeira dona do corpo que ele vem usando, bem como um plot twist na trama que é simplesmente sensacional envolvendo o passado de Odin e o destino de Bor, anteriormente citado. Além de, é claro, ele também ter um momento que evoca toda a questão de paternidade presente na história, em uma revisita de Straczynski à sua conturbada origem. Aqui aprendemos porque Loki é um dos personagens mais legais da Marvel, além de um vilão complexo e interessante.

Mas afinal, a passagem de JMS pelo título do Thor só tem construção de tramas e desenvolvimento de personagens? Cadê a ação, a porradaria, a cabronice evocada pelos vikings? Pois bem, o último capítulo do volume fecha de maneira incrível, com Loki conseguindo efetuar a primeira etapa de seu plano, o que resulta em uma batalha de proporções épicas entre Thor e nada mais nada menos que o seu próprio avô, o renascido Bor. Uma conclusão genial para uma história onde o legado do deus do trovão atravessa gerações e se faz presente em cada página.
No final, com um tremendo gostinho de quero mais, vemos finalmente Loki dando o primeiro passo para a “fase 2” do seu plano. Algo construído lá no primeiro volume, e que envolve a Latvéria e seu monarca, Victor Von Doom. Resta agora aguardar que a Panini não demore muito para publicar o terceiro (e último) encadernado da série, que encerra a passagem de J. Michael Straczynski e finaliza essa trama tão bem construída e que figura como um dos melhores momentos do deus do trovão.





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