Os últimos anos não foram bons para Ridley Scott. Entre filmes totalmente dispensáveis como O Conselheiro do Crime, o lendário diretor tenta reviver o sucesso de Gladiador com épicos insípidos como Êxodo: Deuses e Reis ou então seu auge como mestre da ficção científica com Prometeu (e qualquer um com bom senso treme a cada menção de Blade Runner 2). Mas em Perdido em Marte, Scott consegue fazer uma abordagem completamente diferente com ótimos resultados.
Quando uma missão tripulada em Marte é forçada a evacuar imediatamente, o astronauta Mark Watney fica para trás e é tido como morto. Por um milagre, ele sobrevive e precisa achar uma forma de sobreviver, fazer contato e voltar para casa.
Nesse tipo de filme, não é incomum que tentem apresentar um protagonista facilmente relacionável, o que é completamente compreensivo, mas muitas vezes isso é confundido com um tabula rasa, uma figura sem graça com pouca personalidade para que o espectador possa se projetar. Felizmente, este está longe ser o caso:
Matt Damon estrela aqui em talvez seu papel mais carismático como Watney. Apesar de vulnerável, seu personagem tem um comentário sarcástico para cada situação, assiste Happy Days, manda seus superiores tomarem no c* e planta batatas em Marte tal qual o Robert Downey jr. testa as tecnologias do Homem de Ferro. O filme pode não ser tão tenso quanto esperado, mas também se assegura que gostemos mais de Watney que qualquer outro protagonista em um filme de sobrevivência e isolamento. Até certos artifícios de narrativa, como gravar vlogs diários (para ter uma razão para o personagem se comunicar com o espectador) funcionam bem graças ao seu carisma. E tudo sem depender de dramas pessoais forçados, como a infame filha morta de Gravidade.
O romance de Andy Weir foi elogiado por seu humor ácido e é justamente esse humor que dá o charme ao que poderia ser um filme facilmente esquecível. Ainda mais quando as risadas na ficção científica geralmente são relegadas à óperas espaciais e filmes que se aproximam mais da fantasia, não a seriedade verossímil da ficção científica hard. E é essa novidade que faz de Perdido em Marte tão refrescante.

Além de Damon, o filme também foca em outros núcleos, como a missão tripulada e os funcionários da NASA na Terra, revelando um elenco de apoio extremamente estrelado, que inclui, entre outros, Jessica Chastain, Chiwetel Ejiofor, Jeff Daniels, Sean Bean (que presencia uma inusitada piada sobre O Senhor dos Anéis), Michael Peña, Kate Mara, Sebastian Stan e Donald Glover. Entretanto, talvez fosse melhor o foco apenas em Watney, nos colocando mais na situação de isolamento e alienação (não é como se o filme já não fosse visto como um espécie de “Náufrago in space!“). Enquanto nem de longe tão ruins quanto poderiam ser, graças ao humor onipresente, as partes na Terra e subtramas chegam a arrastar um pouco. E tem mais de uma cena onde um personagem explica a trama e conceitos usando canetas e outros objetos.
Apesar de ser improvável que o filme receba tanta atenção quanto Gravidade (outro filme de sobrevivência no espaço) ou Interestelar (outro filme com Matt Damon astronauta exilado em um planeta inóspito), seu carisma deve conquistar espaço, fazendo com que eventualmente seja lembrado como um dos melhores, senão o melhor, entre a atual safra de ficções científicas espaciais, ainda que entre os menos pretensiosos. Não é nada que se compare com os melhores filmes da carreira do diretor, mas é uma ótima direção.
Perdido em Marte estreia 1 de Outubro no Brasil.





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