A Segunda Era é importantíssima no universo de O Senhor dos Anéis, a obra máxima de J.R.R. Tolkien. Afinal, é nela que temos eventos de extrema relevância como a ascensão de Sauron após a derrota de Morgoth que encerrou a Primeira Era, a queda de Númenor e, é claro, a forja dos Anéis do Poder, incluindo o Um Anel de Sauron. Ou seja, é a Era que pauta todos os eventos para o cenário que encontramos em O Senhor dos Anéis – que por sinal, se passa na Terceira Era.
No entanto, curiosamente, a Segunda Era é a que foi menos explorada por Tolkien em seu Legendarium. O Silmarilion, por exemplo, compreende em grande parte a Primeira Era, especialmente as guerras pelas Silmarils que dão título ao livro. Entregue esse contexto, fica fácil entender por que a Amazon escolheu esse período específico para servir de pano de fundo para sua nova série, O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder. Além de ser um período com eventos extremamente relevantes, é também o que abre mais espaço para… criação. Uma ideia que aparentemente incomodou alguns dos fãs mais fervorosos de Tolkien desde o anúncio da produção.
Muito devido à forma extremamente protecionista com que o herdeiro de Tolkien, seu filho Christopher, cuidou do legado do pai ao longo de sua vida, boa parte do fandom abraçou a ideia de que criar algo novo em cima do universo do escritor é um pecado mortal. E é claro que declarações no mínimo ousadas do showrunner e co-produtor da série, Christopher McKay, de que estavam criando “o romance que Tolkien não escreveu” só ajudaram a colocar mais lenha na fogueira. E convenhamos, talvez essa fosse exatamente a intenção dele. Polêmica vende.
E não faltou polêmica para essa série, verdade seja dita. Já no primeiro teaser, a reação negativa foi expressiva e barulhenta, com um número de dislikes na casa dos milhões. Os motivos? Bem, tem gente que alega uma suposta “falta de fidelidade com a obra de Tolkien”, mas o motivo parece ser mais simples, como a escalação do ator Ismael Cruz Córdova no papel do elfo Arondir, sendo primeira pessoa não-branca a interpretar um elfo nas histórias de Tolkien.

Mas afinal, toda essa “preocupação” tinha algum fundamento? Absolutamente não. Recentemente a Amazon Prime Video nos cedeu os primeiros episódios para review e pudemos constatar que O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder não apenas faz jus à obra de Tolkien, como tem um potencial muito grande de ser uma das melhores obras de fantasia da TV dos últimos anos. Tudo na produção é impecável, dos visuais espetaculares da Terra-Média, aos diálogos muito bem escritos, o roteiro coeso e as atuações que demonstram que todos os atores foram muito bem escalados.
A narrativa da série, dividida entre seus principais personagens, possui uma estrutura tão natural e bem realizada que mesmo que cada núcleo tenha a sua própria aventura e que sejam muitas tramas e personagens a serem apresentados, o senso de completude é constante, fazendo o espectador entender que cada peça daquele quebra-cabeça será crucial para a tapeçaria maior que vai sendo construída. O roteiro também não perde tempo enrolando o espectador, e já no primeiro episódio temos as principais características dos personagens e suas motivações bem definidas, acompanhando o ponto de partida de suas jornadas. Os principais plots, que são a ameaça de Sauron e a forja dos Anéis do Poder do título também pautam a história desde o início, demonstrando que a produção não tem interesse em brincar com a paciência do público.
O grande destaque, conforme já sugerido fortemente por todo o material promocional da série, fica com a Galadriel de Morfydd Clark. A atriz está muito confortável no papel, entregando uma personagem decidida que promete desde os primeiros minutos da série que será de crucial importância na trama. A maquiagem, o figurino e o jogo de câmeras também colaboram para fazer de Morfydd Clark a perfeita cópia de uma jovem Cate Blanchet, dando a Galadriel ainda um senso de continuidade impressionante para os fãs dos filmes de Peter Jackson.

E por falar em Jackson, acho que é consenso dizer que é impossível criar qualquer produção audiovisual baseada na obra de Tolkien sem replicar a estética criada pelo cineasta em suas duas trilogias, O Senhor dos Anéis e O Hobbit. Toda a estética cinematográfica da Terra-Média foi definida por esses longas, e seria completamente contraproducente apresentar algo visualmente diferente disso. A Amazon entende isso, e na verdade se aproveita desse aspecto para entregar um deslumbrante senso de retorno à Terra-Média. Visualmente, tudo na série grita O Senhor dos Anéis, pelo menos da forma como a obra ficou marcada no imaginário popular no que se refere a ambientação.
Para dar vida a locais épicos como Lindon, Khazad-dûm e Tirion, a pós-produção da série provavelmente precisou trabalhar pesado, e não fez feio. O CGI é possivelmente um dos mais belos que já vimos numa produção realizada para as telinhas, o que não é de se admirar, considerando o orçamento milionário da série. Afinal, estamos falando daquela que já é a série mais cara da história, com seus oito episódios e a aquisição dos direitos somando algo em torno de US$ 715 milhões. O investimento é responsável pelo tremendo espetáculo visual que encontramos em Os Anéis de Poder. A Terra-Média em si é praticamente um personagem na obra de Tolkien, e esse cuidado com o ambiente é justamente o que torna a imersão da série algo tão mágico.

O grande ponto positivo de Os Anéis do Poder mora justamente naquilo que, se mal executado, poderia ser o seu maior problema: a grandiosidade. Com muitos personagens em tramas paralelas que eventualmente se cruzarão, a série possui a necessidade de uma construção que não seja lenta, para não manter a narrativa tediosa, mas que também não seja rápida demais, de forma a evitar um senso de pressa que sacrifique o desenvolvimento. Felizmente, o ritmo é muito bem definido, fazendo com o que espectador sinta-se cada vez mais encorajado em investir naquele universo e, assim, retorne semanalmente. Ao que parece, a Amazon tem mais um grande sucesso em mãos.
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A série de O Senhor dos Anéis produzida na Amazon Studios traz para as telas pela primeira vez as heroicas lendas da Segunda Era da Terra-Média.
Esse drama épico é situado milhares de anos antes dos eventos das principais obras de J.R.R. Tolkien, O Hobbit e O Senhor dos Anéis, e vai levar o público para um período onde grandes poderes eram forjados, e reinos ascendiam para a glória e caiam em ruínas. Heróis improváveis serão testados, e a esperança ficará pendurada pelo mais fino dos fios, e o maior vilão já criado por Tolkien ameaçou cobrir todo o mundo na escuridão.






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