Comentários
grandes-astros-superman-600x917

Para nossa sociedade, a regra é descartar coisas que, algum dia, podem ter tido certa importância. Isso acontece para dar lugar a algo novo, pois o novo, frequentemente, é confundido com o melhor, enquanto o velho é visto como ineficaz, inútil, pior ou quebrado. Claro, certas vezes, algo novo é algo melhor. Mas nem sempre. Descartar o velho para dar lugar ao novo pode ser bem complicado, principalmente quando temos que achar algo que seja tão valioso ou tão eficaz quanto aquilo que tínhamos.

Nesta HQ, Grant Morrison, Frank Quitely e Jamie Grant se tornaram arqueólogos, eles escavaram, removeram a poeira e limparam cuidadosamente uma das maiores relíquias da DC: o Superman. Muito daquilo que existia na era de Ouro e Era de Prata dos quadrinhos foi mantido intacto. O resultado deste esforço é uma coleção atemporal de aventuras que, ainda que possua os conceitos mais bobos do Homem de Aço, funcionam de forma soberba. “Grandes Astros Superman” abraça e carrega com orgulho o trabalho de Jerry Siegel, Joe Shuster, Curt Swam e Mort Weisinger para contar a história definitiva do último filho de Krypton.

Depois do Superman salvar uma nave de ser engolida pelo sol (tudo por causa dos planos maquiavélicos de Lex Luthor), o Homem de Aço absorve uma quantidade letal da energia solar. Parece que, finalmente, Lex Luthor conseguiu vencer seu grande inimigo. Com tempo limitado na Terra, Superman tenta ajustar o mundo da melhor forma possível, começando com a sua relação com Lois Lane. Capítulo a capítulo, Morrison e Quitely apresentam a aventura final do Superman em uma série que traz o mais famoso elenco de personagens coadjuvantes e vilões. Em cada página, podemos ver a assinatura de Quitely e Morrison em um trabalho primoroso.

Morrison consegue encaixar tudo que existe na mitologia do Superman nas páginas do encadernado, há espaço para Jimmy Olsen, Lois Lane, Perry White, Steve Lombard e Cat Grant. Do mesmo jeito que ele consegue colocar Bizarro, Lex Luthor e Parasita. Nada fica solto aqui, pois tudo isso pertence ao universo do Superman, tudo isso, de certo modo, faz parte do herói. Assim como lugares como a Fortaleza da Solidão, o Mundo Bizarro, a cidade engarrafada de Kandor… Morrison e Quitely conseguem até trazer suas criações inspiradas nas eras de Ouro e Prata e fazer com que pareçam itens clássicos do herói.

Quitely incorpora o estilo moderno misturado com a sensibilidade dos anos 50 em “Grandes Astros Superman”. O que resulta em um dos trabalhos mais belos do artista, que é, sem dúvida, um dos mais talentosos da atualidade. O livro é feito com uma imaginação incrível: Superman voando perto da fúria escaldante do Sol é algo belo, Lois Lane sendo beijada de forma apaixonada pelo seu herói na superfície da lua é incrível, o Homem de Aço abraçado com a lápide do pai é emocionante. O trabalho de Quitely é preciso, é praticamente impecável. Ele se recusa a colocar detalhes desnecessários em seus painéis e, mesmo assim, seus painéis são altamente detalhados.

p_6_21

O uniforme clássico do Superman recebe algumas mudanças menores de Quitely. O herói veste praticamente uma bermuda por cima da calça (ao invés da cueca) e usa uma capa mais curta. O artista transforma o Parasita em uma criatura perturbadora que faz valer o nome, a aparência de Bizarro lembra mais um zumbi. Lex Luthor é fácil de ser reconhecido, ainda que o vilão tenha mais músculos do que os leitores estão acostumados a ver (principalmente quem conheceu o vilão através do mais recente filme). Lex, da forma como Morrison o adapta, se preocupa tanto com sua forma física quanto sua capacidade mental. Os melhores designs estão em Bar-El e Lilo, dois kryptonianos que querem transformar a Terra em uma nova versão de seu planeta natal. O homem e a esposa são cobertos por uniformes amarelos com detalhes roxos e cheios de dispositivos espalhados em seus corpos, desde a cabeça até os pés.

Jamie Grant consegue potencializar o trabalho de Quitely, adornando os personagens de forma magistral. A Fortaleza da Solidão, o Mundo Bizarro, Metropolis e vários locais de “Grandes Astros Superman” são alinhados com as cores de Grant. O seu trabalho mais notável está nos rostos dos personagens, pois suas cores conseguem dar expressão a cada personagem. Ele usa e abusa de cores vibrantes, dando ao livro o otimismo e esperança que o trabalho merece.

As histórias de Morrison são extraordinárias. O herói pula de aventura em aventura, cada uma tão fantástica quanto qualquer coisa que foi escrita nos anos 50. Morrison leva o trabalho a sério e isso nos permite aproveitar a jornada repleta de diversão, vemos como o Superman consegue resolver cada um dos desafios que aparecem em seu caminho. A história é balanceada pelo fato de que Superman está morrendo e ele precisa resolver tudo antes que seu tempo acabe. Usando suas duas identidades (Clark e Superman), o herói tenta reabilitar Lex Luthor. “Lex, eu sei que você não é totalmente mau”, diz Clark para o seu inimigo. Clark que sabe que Lex o sentenciou à morte, mas ainda assim, ele tem esperança de que Lex pode se redimir, expressando o amor ágape ao humano. Otimismo, confiança, amor incondicional… este é o Superman.

GalleryGraphicNovels_1900x900_AllStarSuperman_52af9dd1ba02e7.99277890

Ainda que este livro conte a morte do Superman, o livro não é sombrio. Morrison e Quitely dão um verdadeiro coração para o conto, especialmente em cenas que envolvem Lois Lane e Jonathan Kent. Lois e Superman se abraçam nos momentos finais do herói, ali, ele ainda precisa salvar a humanidade e a cena é de cortar o coração. Voltamos ao dia em que Jonathan morre e Clark mostra aquilo que define o núcleo do Superman.

O Clark de Morrison é bem parecido com aquele Superman de 1978, do filme de Richard Donner. Mas o escritor vai além, Clark consegue se disfarçar tão bem que é impossível pensar que ele é mesmo o herói. O personagem tropeça, gagueja e, raramente, consegue falar alguma coisa. Morrison e Quitely conseguem dar a certeza de que ninguém nunca acreditará que aquele homem é o Superman, não, aquela postura tímida? Aquele cabelo? Aquele nunca seria o Homem de Aço.  

Mas a verdadeira mágica de “Grandes Astros Superman” está na visão de Morrison do Homem de Aço. O herói faz tudo que pode para fazer o mundo mudar para melhor, como salvar um garoto que seria atropelado por um caminhão. Superman declara no primeiro capítulo: “Sempre há uma solução”. E este é o seu lema até a última página. Depois de tudo, Clark diz no funeral de seu pai: “Ele me ensinou que se mede alguém não pelo que diz, mas pelo que faz.” Este Superman é uma bússola inquebrável de moral. Um exemplo verdadeiro de herói.

Grandes Astros Superman é uma das maiores obras de Morrison e Quitely. Aqui eles conseguem trazer uma versão do Superman sem precisar trocá-lo, alterá-lo ou recriá-lo. Eles provaram que sempre há uma solução. E isto merece estar na prateleira, na cabeça e no coração de qualquer leitor de quadrinhos. Você pode adquirir a edição, clicando aqui. 

Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.


Comentários