Nem demorou tanto, e o segundo volume do Thor de Jason Aaron já chegou às bancas dando continuidade à trama do vilão Carniceiro dos Deuses, iniciado no volume anterior, de mesmo nome. Em Thor, o Deus do Trovão: Bomba Divina, Aaron e Ribic concluem o épico que envolve nada menos do que três Thors, em três continuidades diferentes, contra um novo vilão cujo objetivo é matar todas as divindades possíveis.
E se a edição anterior havia terminado com uma veloz sequência de acontecimentos e com um cliffhanger de tirar o fôlego, aqui Aaron opta por quebrar um pouco o ritmo trazendo um capítulo desenhado por Butch Guice que trata de contar aos leitores as origens de Gorr, o Carniceiro dos Deuses. Aprendemos que o alienígena veio de um planeta extremamente seco onde o sol castigava sem parar, com a inexistência da noite. Após perder sua família e amaldiçoar os deuses, Gorr presencia duas das divindades de seu planeta caindo ao seu lado, moribundos após uma batalha mortal, e cego pelo ódio acaba os matando, ao tomar posse da espada negra de um deles. A arma maleável feita de sombras que vemos o vilão utilizar desde sua primeira aparição.
Voltando então à trama principal, vemos Thor chegando ao futuro e conhecendo a versão mais velha de si mesmo, que finalmente vê a chance de derrotar o vilão, com a ajuda de seu eu mais jovem. Diferente da edição anterior, onde a história estava mais focada em preparar o pano de fundo, aqui as respostas a todas as perguntas começam a aparecer, e a trama começa a se destrinchar em algo maior. O plano de Gorr, de criar uma bomba cronal que matará todos os deuses em simplesmente todas as linhas temporais, apesar de simplório, faz todo o sentido dentro da trama construída por Aaron, e o plot é tão bem executado e entrega uma história tão gostosa de se ler, que até mesmo os furos do roteiro passam batidos e quase imperceptíveis. Digo isso porque mexer com viagens temporais é sempre algo complicado e passível de erros e explicações absurdas. Mas aqui a trama e a sequência de acontecimentos se sobrepõem, deixando os problemas de roteiro em segundo plano, e abrindo caminho para o quão sensacional é ver os três Thors que haviam sido trabalhados desde o primeiro volume do longo arco, lutando juntos como bons asgardianos.

Independente do seu gosto pessoal a respeito de quadrinhos, existe algo sobre mangás – principalmente os shonen – que é inegável… Eles sabem como fazer sequências lutas. Não é algo tão corriqueiro nos comics como é nos mangás, encontrar batalhas com tamanho nível de detalhamento, destruição e criatividade. Mas aqui, Aaron e Ribic nos presenteiam com uma verdadeiro épico onde os três Thors batalham ao mesmo tempo contra o Carniceiro dos Deuses em pleno espaço. É uma sequência de encher os olhos, inspirada, e guardada para o ápice da história, quando o clímax é alcançado em todo o seu esplendor. Na verdade, se pegarmos todo esse arco que perdura por exatas 11 edições e imaginá-lo como um filme, percebemos como a divisão dos atos é extremamente cinematográfica. É mais ou menos quando você vai no cinema e se sente como se estivesse assistindo um bom quadrinho saltando das páginas direto para a telona. Só que eu contrário.
“Será um mundo melhor sem deuses. Nada de medo da danação eterna ou de anseio por recompensa futura. Nada de ódio entre crentes de fés rivais. Sem a mentira da eternidade para servir de muleta, não teremos escolha senão finalmente prezar o pouco e precioso tempo que temos. E dedicar a fé a nós mesmos.”
O mais interessante da HQ, e que a torna um material muito maior do que apenas batalhas e fanservice, é que mesmo em meio aos acontecimentos que levam ao seu clímax, Aaron não deixa se perder o debate religioso que desde o início esteve implícito nas páginas do quadrinho. Mas não é algo implicante, militante ou partidário, e sim um debate reflexivo e filosófico, sobre o quanto nos privamos de alcançar todo o nosso potencial ou esperamos um milagre cair do céu quando deveríamos estar agindo. É um serviço de reflexão religioso em uma história em quadrinhos extremamente divertida onde temos três Thors lutando contra um alienígena carniceiro, e isso é algo sensacional. Aaron consegue se aprofundar na psique de Thor usando três versões diferentes do personagem, trabalha suas crenças em determinado momento deixando claro como até um deus pode ter dúvidas a respeito de religiosidade, apresenta um novo e interessantíssimo antagonista com convicções críveis que fogem dos clichês, e ainda constrói uma trama extremamente divertida de ação e aventura com batalhas épicas, tudo isso enquanto debate o papel da religião na sociedade.
Sem sombra de dúvidas, a fase de Jason Aaron, só por essas 11 primeiras edições, já pode figurar como uma das melhores do Deus do Trovão, e sem dúvidas é item essencial na coleção não apenas de fãs do personagem, mas de qualquer leitor de bons quadrinhos.






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