Comentários

Tempo estimado de leitura: 6 minutos

Na fase mais conturbada de sua carreira, Ridley Scott se apoia na imagem de Napoleão (2023) para fazer um filme sobre arrogância, que acaba se parecendo muito com uma carta de confissão involuntária.

Quem tem acompanhado a turnê de imprensa já sabe disso, mas é bom contextualizar para os desavisados que Ridley Scott tem disparado veneno para todos os lados, dizendo que tal filme não é nada demais, que seus filmes são melhores que outros, e até mesmo desmerecendo o clássico Napoleão (1927) de Abel Gance.

Importante lembrar que, Blade Runner (1982) e Alien (1979) nem sempre foram considerados clássicos e, Ridley Scott, inclusive, chegou a ser denominado por uma geração anterior como alguém que não fazia filmes de arte.

Crítica-Napoleão-Ridley-SCOT
Reprodução/Apple Studios

É triste perceber que um diretor que sofreu com esse tipo de arrogância, superou isso e construiu uma imagem gigante na indústria, tenha mergulhado em um mar de amarguras que o fazem soar como uma pessoa completamente insegura.

Isso ressoa na caracterização de Napoleão do Joaquin Phoenix, que em duas horas e trinta e oito minutos, não justifica a confiança que o exército francês tinha em sua figura.

O Napoleão de Ridley Scott é inseguro, medroso e passivo. Alguém que conta com a própria sorte para ascender ao poder e, que fica totalmente descoberto com a falta dela. Não é como se isso fosse algo involuntário, pois tais elementos são impressos em tela e verbalizados no roteiro, para que fique claro que aquela é uma figura de poder que se elevou ao acaso.

Não só nesse ponto, mas em diversas mudanças e ocultações da história, o roteiro de David Scarpa (Gladiador 2) se faz um tanto irresponsável.

É bem verdade que Napoleão (2023) não se trata de uma obra documental, portanto, tomar uma ou outra liberdade poética não seria nenhum pecado. A questão é que o filme é todo liberdade poética, e se vende como algo que de fato aconteceu. Isso não é nada menos que uma tremenda irresponsabilidade, não só do roteirista, mas de toda a equipe criativa e, claro, de parte do elenco.

Crítica-Napoleão-Ridley-SCOT
Reprodução/Apple Studios

Quando falo de parte do elenco, estou especificamente citando o trabalho desastroso de Joaquin Phoenix, que faz do Imperador da França um bobo da corte com sua interpretação fisicamente fora de tom.

Somado a todos esses problemas, há também uma montagem truncada, que faz o filme soar como algo longo, arrastado, beirando o insuportável.

Em meio às discussões de se filmes de mais de três horas deveriam virar séries ou não, Napoleão (2023) surge para deixar claro que a chave para uma história longa funcionar está na montagem. Neste caso, temos uma obra de duas horas e trinta e oito minutos que parece durar uma semana inteira.

Há uma versão de quatro horas prometida para o Apple TV+ que, honestamente, não tenho noção de como vai melhorar Napoleão (2023). A agora popular “DLC de filme” já era uma tradição para Ridley Scott, mas o anúncio prévio dela era especialidade de outro cara – esse não tão amado pela indústria de Hollywood.

Crítica-Napoleão-Ridley-SCOT
Reprodução/Apple Studios

Quando Scott foi a público anunciar a versão estendida, já dava sinais de um diretor inseguro com sua obra. O que é estranho, pois há bons valores no filme que, poderiam ser potencializados com algumas correções de rota.

Um exemplo? A relação de Napoleão e Josefina é um grande tema da obra, que por volta do seu segundo ato, passa a ser narrada a partir das cartas do Imperador para sua amada. O longa termina conectado à relação dos dois, mas começa desnecessariamente com a execução pública de Maria Antonieta.

A simples decisão de narrar o filme inteiro a partir das cartas do Imperador, tornaria a história bem mais amarrada, sem necessidade de cortes abruptos e transições bregas entre eras.

Tal decisão, valorizaria, inclusive, o excelente trabalho de Vanessa Kirby, que toma os holofotes de assalto quando aparece em tela.

Crítica-Napoleão-Ridley-SCOT
Reprodução/Apple Studios

As cenas das batalhas também são bons valores, pois não só estão lindas, como refletem perfeitamente a grandiosidade de seus marcos épicos.

Os bons valores de Napoleão (2023), evidenciam que seus problemas de montagem e caracterização são resolvíveis, e poderiam ser conhecidos em notas de exibições teste. Porém, houve interesse do diretor em aceitá-las?

Historicamente, a derrota na Batalha de Waterloo foi marcada pela arrogância de Napoleão. No filme, Ridley Scott aborda isso com um tom de falta de sorte. Mascarar arrogância com falta de sorte diz tanto sobre o diretor quanto sobre a figura histórica francesa. Como dito lá no início, isso faz Napoleão (2023) soar como uma carta de confissão involuntária.

Leia mais sobre Napoleão:

Nota 5


Comentários