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“Guerra Civil” confronta os maiores heróis do Universo Marvel com uma simples questão: As pessoas normais querem ser protegidas por vigilantes fantasiados que trabalham fora da lei? Afinal, ninguém deu uma licença para o Homem-Aranha proteger a cidade do Doutor Octopus, do Duende Verde ou de Kraven. Os Vingadores nunca consideraram abrir um processo antes de interferir em um dos planos dos vilões para dominar o mundo.

A questão é interessante e o roteirista Mark Millar nos faz acreditar facilmente que o público está cansado de heróis que parecem não responder a ninguém. O problema é que Guerra Civil acaba se tornando uma experiência bem triste. E não poderia ser diferente, não é? Afinal de contas, a obra traz os heróis do Universo Marvel em total desacordo sobre uma regulamentação que exige o registro de super-humanos. A nova legislação impõe um registro de todos os heróis na S.H.I.E.L.D. para se tornarem servidores públicos e fazendo com que o governo conhecesse suas identidades secretas. Porém, isso é triste para aqueles heróis que são maridos, esposas ou amigos de longa data. É um evento realmente muito triste para todos os heróis da Marvel. Mas não é triste para o leitor, que é agraciado com uma das melhores sagas já lançadas pela Marvel.

Ainda assim, Guerra Civil sofre um pouco por seu ritmo moroso e a falta de leveza. Uma das coisas que mais incomoda é a falta de uma explicação convincente daquilo que faz cada herói escolher, de forma tão fervorosa, um dos lados apresentados. Onde está a explicação do Homem de Ferro em apoiar a lei? Vemos que Tony Stark, Reed Richards e Hank Pym desenvolveram um plano a longo prazo para tornar o mundo mais seguro, mas por que isso acontece longe de nossa vista? Ambos os lados são explorados de forma superficial, uma maior densidade seria necessária para fazer com que os diálogos fossem mais atraentes do que este:

Homem de Ferro: “Nos tornarmos funcionários públicos faz todo sentido se isso ajudar as pessoas a dormirem mais tranquilas.”
Falcão: “Não acredito no que estou ouvindo. As máscaras são uma tradição. Não podemos simplesmente deixar que nos transformem em superpoliciais.”

Entenda, eu gosto muito de Guerra Civil (e espero ansiosamente pelo filme que estreará no dia 28 de abril), mas se os heróis irão batalhar contra seus melhores amigos, acredito que seria necessário explorar mais os motivos de cada um, principalmente antes de agirem de forma tão extrema. Em certo ponto da obra, quando o Homem de Ferro tenta explicar suas razões para o Capitão América, Steve o engana e faz com que seus companheiros o ataquem. Mas qual o motivo disso? Eu sei que isso deixa a leitura mais emocionante, mas será que Steve não poderia parar por 5 minutos para ouvir um de seus melhores amigos? Este seria o ponto perfeito para Millar criar uma cena que mostrasse claramente o que motiva cada personagem. Sem nenhuma compaixão, a tentativa de diálogo acaba resultando em uma tragédia.

Por falar em tragédia, é através de uma que tudo começa. No primeiro capítulo, um super time, chamado de Novos Guerreiros, causa a morte de mais de 900 pessoas enquanto filmava um reality show. O público se assusta, o medo causa a fúria e ela é direcionada contra a comunidade de super-heróis. O congresso se apressa em criar o ato de registro dos super-humanos e a diretora da S.H.I.E.L.D., Maria Hill, ordena que o Capitão capture aqueles heróis que desobedecerem a lei. Porém, o Capitão se rebela e isso dá origem a duas facções de heróis. Uma delas, é formada pelo Homem de Ferro, que se alinha com a lei e forma uma iniciativa que passa a treinar super-heróis.

Há reviravoltas ao longo do caminho, visto que heróis se revelam para o mundo e outros mudam de lado quando confrontados pelas duras realidades da ruptura existente no Universo Marvel. A melhor e mais autêntica subtrama existente em Guerra Civil reside nas tensões conjugais sentidas por Reed Richards e Sue Storm. Reed se deixa consumir pelo seu trabalho com a iniciativa. Mas Sue se envergonha das medidas que seu marido toma para vencer a batalha. Em uma sequência de duas páginas, Sue escreve uma carta para Reed e deixa claro que não aguenta mais aquilo. O artista Steve McNiven captura, de forma deslumbrante, o estado emocional conflituoso de Sue Storm. Conflito é uma palavra que define bem o conteúdo deste material, em vários momentos nos identificamos com o Homem-Aranha, o herói que acaba conhecendo os dois lados da moeda e também é um dos que mais sofre com as consequências da guerra. 

“Guerra Civil” consegue trazer um excelente trabalho através da arte de McNiven e cores de Morty Hollowell. Trabalhos como “Guerra Civil”, que trazem um enorme elenco de heróis, precisam de um artista como McNiven, que é capaz de desenhar cada personagem de forma detalhada. O artista também é um expert em traduzir o jeito “blockbuster” do roteiro de Millar para as páginas dos quadrinhos. A cena que traz o Capitão América fugindo dos Agentes da S.H.I.E.L.D. é uma das partes mais marcantes do trabalho de McNiven neste encadernado. Hollowell enriquece as ilustrações de McNiven com tons e sombras que trazem o tratamento apropriado para cada personagem.

A “ressurreição” de um herói que estava morto na época de “Guerra Civil” é um dos momentos mais deslocados da história. Tony, Reed e Hank clonaram um ex-aliado e, presumivelmente, um amigo, para ajudá-los em sua batalha contra o Capitão América e seus seguidores. Além de ser de puro mau gosto, é algo incrivelmente cruel de se fazer com a memória de um companheiro caído.  

Embora não seja frequente, Millar coloca um pouco de humor (que se torna necessário). Em certa cena, um piloto da S.H.I.E.L.D. é pego de surpresa pelo Capitão América. O piloto solta um palavrão e o Capitão responde: “Continue voando, filho… e cuidado com essa boca suja!”. Depois do Homem-Aranha se revelar para o mundo, vemos a mesa do Clarim Diário, onde o editor J. Jonah Jameson está caído. Millar tem um senso de humor espetacular e ele mostra que gosta de escrever histórias com esses personagens.

Millar criou uma história crível e fascinante em “Guerra Civil”. Porém, ela não é tão bem executada. No final, ficamos sem ninguém para defender (ao que parece, de acordo com as primeiras críticas, o filme conseguiu superar os quadrinhos e fez com que os dois heróis parecessem certos até o fim, apesar das divergências). Claro, as palavras “guerra” e “civil” sugerem que o evento não traria uma boa energia, mas isso não significa que o trabalho precisaria trazer ares de vilania a alguns de seus heróis. Se existe algo que os leitores da Marvel aprenderam com histórias de personagens como Homem-Aranha, Vespa, Coisa, Tocha-Humana e Mulher-Hulk é que sempre existe espaço para alguma ter alguma alegria enquanto os heróis ajudam o povo a atravessar os piores períodos. De todo modo, esta é uma saga que foi muito importante para o Universo Marvel e merece ser lida e adicionada à sua coleção de quadrinhos. 

O encadernado foi relançado pela Panini e pode ser encontrado na coleção Marvel Deluxe (confira aqui a lista completa).

Também está presente na coleção “Graphic Novels Marvel” da editora Salvat (confira aqui a lista completa).

Deixo aqui o vídeo do Jon que também traz uma interpretação bem efetiva da saga:

https://www.youtube.com/watch?v=P91C4xoSSQ4



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