Comentários

978844712462601070-500x500Poucos são aqueles que conhecem o quão rico é o panteão cósmico da Marvel. Isso porque, infelizmente, o material nunca foi muito bem recebido no Brasil, com sagas cósmicas excelentes como Aniquilação, Aniquilação: A Conquista e Guerra dos Reis tendo uma péssima receptividade no país, e consequentemente sepultando a possibilidade da chegada de outros materiais do tipo, como por exemplo a incrível fase dos Guardiões da Galáxia da dupla Dan Abnett e Andy Lanning, cujo ápice é justamente O Imperativo Thanos, HQ que falarei neste review.

Do ponto de vista mercadológico, é completamente compreensível a decisão da Panini então de não publicar essa fase no Brasil, afinal ninguém imaginaria que anos depois essa obscura equipe cósmica da Marvel teria um filme de extremo sucesso que de repente os alçaria ao topo do estrelato contando inclusive com uma revista mensal em terras brasileiras atualmente. No entanto, a fase Abnett/Lanning nunca passou do primeiro encadernado. O que é estranho, porque aproveitando uma carona no sucesso do filme, a editora chegou a publicar – novamente – a dita fase, enchendo os fãs de expectativas de que “agora vai“, mas infelizmente… não foi. O que nos faz chegar à publicação da editora Salvat, que faz parte da coleção de graphic novels Marvel, trazendo justamente O Imperativo Thanos, saga que trouxe uma conclusão à fase dos Guardiões da Galáxia da dupla Abnett/Lanning, e que fechou tramas iniciadas lá em Aniquilação, quando a Tropa Nova havia sido destruída e Thanos havia sido finalmente morto pelas mãos de Drax, o Destruidor.

É preciso citar esses acontecimentos anteriores para contextualizar o leitor, já que é possível acontecer de muita gente acaba não curtindo o quadrinho – que é excelente, por sinal – simplesmente pela falta de conhecimento prévio a respeito do que aconteceu até ali. Assim como outros volumes da coleção, a HQ conta com um recordatório na primeira página, mas mesmo tal artifício acaba sendo quase inútil, visto que é praticamente impossível resumir anos de quadrinhos em apenas uma página. 

1719512-1243580_prv5265_pg5
A trama da HQ já se inicia com o ressurgimento de Thanos, trazido de volta à vida pela Igreja da Verdade Universal (sério), e que não está nem um pouco feliz de ter sido retirado dos braços de sua grande amada, a Morte. Capturado pelos Guardiões da Galáxia, o Titã Louco se vê entrando em um acordo para ajudá-los a enfrentar um mal maior. Magus, a persona maligna do outrora herói Warlock, acaba rompendo uma fenda cósmica entre universos – chamada de A Falha – e liberando passagem para um dimensão conhecida como Cancerverso, um local onde a morte foi destruída e que apresenta versões malignas e deturpadas dos heróis do universo regular. Liderados por uma doentia e perversa versão do Capitão Marvel, os vilões pretendem destruir a Morte também em nosso universo, mas para isso precisam enfrentar seu avatar, que como já devem imaginar, trata-se do próprio Thanos. Um detalhe interessante é que o nome Cancerverso faz analogia justamente à doença a qual o Capitão Marvel maligno – ao contrário de sua versão regular – conseguiu resistir destruindo a Morte em processo chamado de necropsia: o câncer.

Apesar de contar com um desenvolvimento e uma execução muito bons, O Imperativo Thanos acaba pecando pela repetição de ideias e de ameaças. É impossível alguém que já tenha lido Aniquilação e até mesmo Aniquilação: A Conquista não perceber algumas situações que se repetem e lembram em muito as duas sagas anteriores. O que muda talvez seja a escala, que aqui é muito maior, colocando verdadeiros pesos pesados como Galactus e outros dos seres conhecidos como Abstratos, em uma batalha espacial que coloca em risco o próprio tecido dimensional. O nível é tão alto que a força de ataque contra a investida do Capitão Marvel é composta de gente como Quasar, Bill Raio-Beta, Gladiador, Nova, Surfista Prateado e Ronan.

1344457-zthanosimp_3_2nd

Mesmo que a repetição de ideias deixe a saga com cara de comida requentada, o ponto forte da HQ é a consistência e a coesão de Dan Abnett e Andy Lanning, algo que é característica marcante dos roteiros da dupla. A trama flui em uma ótima crescente até o seu clímax, que apesar de simples, entrega algo extremamente condizente com o que a história vinha apresentando até aquele ponto, respeitando não apenas a narrativa apresentada, quanto os personagens. “Apenas Jim Starlin sabe escrever Thanos” torna-se uma frase sem sentido após esse quadrinho, que traz uma excelente abordagem acerca do Titã Louco. 

A ousadia e a coragem de trazer um ícone como o Capitão Marvel como o grande vilão da saga – mesmo que seja um versão distorcida de um universo paralelo – acaba sendo muito acertada. Deturpar o momento de maior santidade do personagem, que é justamente a cena de sua morte rodeado de heróis, é algo brilhantemente bem executado, e que define seu tom e personalidade sem precisar adentrar de forma mais contundente dentro da psique do personagem. Essa única cena inclusive já é mais do que  suficiente para demonstrar toda a obsessão do corrompido herói kree com a morte, e sua busca incansável pela destruição de seu avatar. O final do vilão, inclusive, acaba sendo bastante poético se observado sob essa ótica. 

O único problema da história, como já citado anteriormente, é a quantidade de material necessário para um total entendimento da saga, e a falta desse material em nosso país. Quem sabe um dia a Panini decida finalmente sair do primeiro encadernado de Guardiões da Galáxia, completando a fase Abnett/Lanning, que é constituída por apenas 4 encadernados. Ou quem sabe, alguma coleção como a da Salvat surja para preencher essa lacuna. Afinal, quem diria que um dia teríamos a oportunidade de comprar um encadernado de O Imperativo Thanos no Brasil?  

A edição faz parte da coleção de Graphic Novels da Marvel/Salvat. Confira a lista completa, clicando aqui!

.
.

Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.


Comentários