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Seja atrelado a fé ou a memória, o simbolismo é um elemento importante no cotidiano humano e, quando o assunto é cinema, é fundamental para compor esta arte audiovisual. A equipe criativa de Planeta dos Macacos: O Reinado (2024) assume essa ideia e cria uma narrativa a partir de um conceito muito interessante. O conteúdo dessa nova história, no entanto, foge de um aprofundamento maior e não consegue ser forte ou preciso na hora de passar sua mensagem.
Não é segredo para ninguém que esta franquia está sendo retomada nos cinemas por pura estratégia comercial da Disney, por isso, é preciso reconhecer o esforço do diretor Wes Ball (Maze Runner) e do roteirista Josh Friedman (Guerra dos Mundos) em entregar algo com um conteúdo interessante.

Ao lado de de Wes, Friedman, cujas credenciais o estabelecem como um bom criador de mundos, faz um trabalho de ambientação tão interessante quanto o que fez em Avatar: O Caminho da Água (2022), mostrando o quanto o mundo dos macacos mudou desde a morte de César.
No novo mundo da franquia, onde a palavra de César não é tão difundida quanto se imaginava, os macacos estão separados por clãs. Enquanto uns querem apenas viver em harmonia com a natureza e com suas próprias crenças e costumes, outros estão contaminados pela doença da tecnologia e querem possuir o mundo com o mesmo ímpeto brutal dos humanos.
Grande vilão da história, Proximus César (Kevin Duran) é motivado não apenas por um temor de que os humanos voltem a colocar os macacos em jaulas, como também por acreditar estar seguindo a palavra de César, uma vez que ele e seus seguidores interpretam os ensinamentos do protagonista da trilogia anterior de forma completamente equivocada.
A abordagem da equipe criativa para o vilão é, de longe, a ideia mais interessante do filme, pois, levanta uma discussão ainda cotidiana da forma como escrituras consideradas sagradas podem ser manipuladas ou interpretadas de forma errada, gerando um impacto significativo e às vezes até mortal na sociedade.

Os elementos desse impacto são muito claros no filme desde o momento em que o clã de Noah (Owen Teague) é atacado por um grupo de inquisição, até o que mostra os sobreviventes do ataque sendo escravizados sob a motivação de um propósito maior.
O Reinado (2024), como dito antes, aborda todos esses conceitos se escorando em símbolos, seja uma manta, um colar, uma águia, uma arma de fogo. Tudo tem significado e é importante não apenas para os personagens, como também para o público conseguir se prender à história.
Acontece que, se envolver com a história deste filme não é uma missão muito fácil, uma vez que, embora seu conceito seja interessante, o desenvolvimento soa bastante bobo.
A grande impulsão da jornada de Noah, que é a destruição de seu clã, é apressada. Nenhum dos personagens atingidos ali realmente tiveram tempo para criar alguma relação com o público, que tende a ficar indiferente com aquela tragédia.

Há muitas outras batidas emocionais, mas nenhuma consegue gerar o impacto que a equipe criativa planejou, pois existe um distanciamento dos sentimentos dos personagens com o que se deveria ter como público.
Não dá para dizer que esse distanciamento seja causado por falta expressão, pois esse não é caso. Diria que o que falta é clareza sobre o que aqueles personagens sentem e acreditam.
A relação de Noah com a personagem humana interpretada por Freya Allan, por exemplo, nunca fica realmente clara. Vai e volta entre indiferença e completa compaixão, sem que haja uma boa justificativa para isso.
Além desse distanciamento de sentimentos, há também um apelo à suspensão de descrença que abusa em sua intensidade.

Veja, Proximus César tinha servos dedicados, um humano como conselheiro e centenas de escravos, mesmo assim sequer passou pela cabeça dele, ou de qualquer outro, analisar o perímetro e descobrir uma forma alternativa de entrar em um galpão, sem que seja pela porta da frente.
Aliás, a dimensão do reinado de Proximus César não é convincente e você duvida do real controle que ele e uma dezena de capangas armados com tasers têm sobre aquela região.
A falta de clareza no sentimento dos personagens não é o único problema de O Reinado (2024), que faz de Mae (Freya Allan) um símbolo do futuro da franquia, em um claro plano para contar uma nova história com múltiplos filmes, sem responder quase nada sobre a natureza da humana.
No meio de tanta ideia interessante, a sensação que fica é que, assim como os blockbusters de super-heróis da década passada, este filme está mais preocupado em preparar algo para o futuro do que em causar impacto no presente.

Sobre o grande elefante lilás na sala, a comparação com os filmes de Rupert Wyatt e Matt Reeves é inevitável, mesmo que o filme tente fugir disso ao buscar uma autenticidade temática.
Embora a ação seja bem menos impressionante, o filme não deve nada visualmente para os anteriores, e os temas são tão bons quanto. No entanto, quando o assunto é profundidade, a obra de Wes Ball e Josh Friedman fica devendo bastante.
Em síntese, o decente Planeta dos Macacos: O Reinado (2024) acerta o tom quando escolhe discutir o legado de César ao invés de segui-lo, e entrega um fator novo interessante para a franquia. Em contrapartida, torna essa discussão tão superficial que muito do seu valor se perde nas 2 horas e 25 minutos de duração.
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