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Quando Heartstopper se propôs a abordar temas mais maduros e sensíveis dentro desta realidade “acolhedora” criada por Alice Oseman, alguns temeram que a série poderia se perder em sua essência. Uma afirmação completamente equivocada.

Com duas temporadas de sucesso, a autora e escritora da série, não hesitou em explorar as feridas por trás de Charlie Spring, oferecendo a Joe Locke mais uma oportunidade para se provar como o candidato ideal para um personagem cheio de camadas e sensibilidades que se julgam necessárias de ganharem sua devida visibilidade. 

Lutando contra distúrbios alimentares, Charlie definitivamente não torna a 3ª temporada da série fácil de digerir, fazendo com que o ambiente na maioria das vezes, extrovertido, adicione uma camada de “quebra de realidade”, ao abordar tais inseguranças para além de sua superfície, diferente dos anos anteriores da série. 

Joe Locke na 3ª temporada de Heartstopper
Reprodução/Netflix

A luta contra esses demônios, consequentemente, afeta o núcleo romântico entre Charlie e Nick Nelson, pondo o co-protagonista de Kit Connor em uma posição complexa demais para um adolescente de apenas 16 anos, como bem diria Hayley Atwell em sua participação, mas que ao abraçar sua maturidade, consegue dar andamento à trama que necessita do ponto de vista desses dois personagens.

Adicionar complexidades nesta bolha de ficção adorada pelos fãs, foi uma decisão corajosa por parte da escritora e de toda a  equipe envolvida no programa, e que embora tais assuntos já estivessem inseridos nas obras originais, mais uma vez, a produção os adapta de maneiras tocantes, e sem diminuir sua galeria de personalidades à uma constatação apenas. 

A construção envolvendo a condição de Charlie e os desafios para manter uma vida pessoal e romântica saudável, acaba por ofuscar algumas tramas secundárias, como os dilemas por trás de personagens como Isaac e Darcy/Darce, que ainda merecem seu devido espaço. 

A terceira temporada, no entanto, já é autoexplicativa por si só desde seus primeiros minutos, e não têm a intenção de romper as expectativas dos telespectadores, fazendo com que detalhes como esse, se tornem “reajustáveis” para um futuro próximo, ao invés de um grande problema. 

Reprodução/Netflix

Outras amizades e núcleos familiares, por sua vez, como a relação crescente entre irmãos de Charlie e Tori Spring, ou a amizade entre Nick e Tara, ganham mais força, oferecendo momentos de alívio e completa admiração, no meio das inúmeras complexidades por trás desses jovens. 

Tori Spring, enquanto primeira personagem de Oseman, finalmente recebe jus nesta temporada, que graças à atuação de Jenny Walser, transforma a irmã de Charlie em uma personagem digna de ser lembrada, explorando as nuances por trás de uma jovem incompreendida, mas que cativa o público a partir de seus princípios. 

A inserção de novos personagens e destaque para “frentes” não imaginadas na continuidade, também refrescam o 3º ano (Jane Spring, que o diga). O tempo de tela da mãe de Charlie, mesmo que por apenas poucos minutos adicionais, oferece à Georgina Rich a oportunidade de abandonar a representação de uma figura maternal indiferente, conduzindo à uma evolução encantadora, e que de certa forma, preenchem a infeliz ausência de Olivia Colman como a adorável Sarah Nelson.

Mas a ausência é o que definitivamente, não deve ser dito para o trabalho de design e efeitos especiais da série, que mesmo com o amadurecimento natural desses personagens e de suas sequentes tramas, se mantiveram em tela como a marca registrada do universo de Heartstopper. Conceito este que é proposto e falho em muitas outras produções do gênero, que utilizam de tais artimanhas apenas como uma tentativa de autenticidade barata, abandonando-as rapidamente.

Reprodução/Netflix

A permanência visual da série, no entanto, parece ter custado a continuidade de sua trilha sonora. A música, que se apresentou como uma grande composição nas cenas das temporadas anteriores e que conversavam com estes personagens, não se estende para esta como um elemento tão marcante, embora esteja lá, mas apenas em escala reduzida.

Apesar do enorme peso contido no “tom” de continuidade da série, os oito episódios inéditos de Heartstopper se desenrolam rapidamente, constatando pelo menos nesta temporada, que seria sensato que a Netflix considerasse desenvolver a nova trama em, talvez, mais dois capítulos. Isso ofereceria uma abertura mais clara para um novo ano provavelmente, já planejado, ao invés de apenas uma resolução em um importante dilema romântico na jornada de Nick e Charlie. 

Diante de temas que podem cair em armadilhas clichês dentro de uma produção adolescente, a adaptação da Netflix sabe como entreter e abordar assuntos sensíveis a partir de uma narrativa amorosa, acolhedora e inteligente, enquanto renova todo o espectro criado em torno desses personagens como uma lição de casa para títulos do gênero. 

Heartstopper ainda sabe como se sobressair em meio a tantos lançamentos, e não perde seu charme original, apenas elevando sua proposta, personagens e escala, provando ser ainda tão relevante quanto em sua estreia inicial, com tramas atrativas que despertam sentimentos agridoces em diferentes tipos de públicos.

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Nota 8


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