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Em 2024, fomos presenteados com grandes filmes. Agora que o ano se encerra, podemos finalmente elaborar listas com os melhores títulos. Tendo como destaque obras como Duna: Parte 2 (2024) e Ainda Estou Aqui (2024), listei os 10 melhores lançamentos comerciais, além de incluir menções honrosas e citações sobre longas exibidos exclusivamente em festivais.
Esta lista, vale ressaltar, não considera os filmes da corrida do Oscar do ano passado e é baseada na minha opinião. Portanto, sinta-se a vontade para compartilhar a sua versão nos comentários.
10º Mais Pesado é o Céu

O Brasil é um país de muitas faces, e dentre elas há uma que é geralmente negligenciada: a dos sobreviventes. Em Mais Pesado É o Céu (2024), Petrus Cariry volta suas lentes potentes para esse povo, pintando um retrato brutal com as variações das cores primárias de um cenário sofrido do Ceará, mas de uma beleza sem igual.
No filme, acompanhamos Antônio (Matheus Nachtergaele) e Teresa (Ana Luiza Rios), duas pessoas perdidas na vida que tentam se encontrar quando uma criança abandonada entre em cena. Juntos, eles fazem o que é preciso para sobreviver em um mundo onde a gentileza está escassa.
Mais Pesado É o Céu (2024) tem uma mixagem de som incrível e uma das fotografias mais bonitas que eu já vi em um filme nacional em muito tempo.
No momento, o filme está disponível no catálogo do Claro TV+.
9º Assassino por Acaso

Gary Johnson (Glen Powell) trabalha para a polícia e finge ser um assassino de aluguel para prender aqueles que o contratam. Um dia ele quebra o protocolo para salvar uma mulher desesperada que tenta fugir de um namorado abusivo. A partir daí, qualquer controle que ele já teve sobre suas identidades secretas vai para o espaço.
Sensual e divertido, Assassino por Acaso (2024) eleva seu já bom texto irônico com o carisma e a química inflamante entre Adria Arjona e Glen Powell.
Richard Linklater volta a falar sobre identidade e relacionamento, mas de um modo extremamente divertido. O filme, apesar de ser previsível, é muito gostoso de assistir.
Na data da publicação desta matéria, Assassino por Acaso (2024) está disponível no catálogo do Prime Video.
8º Duna: Parte 2

Duna: Parte 2 (2024) chegou aos cinemas em um momento pertinente, quando o messianismo atrelado ao populismo constitui, mais uma vez, uma ameaça em escala global, transbordando a esfera religiosa. Como uma trágica história de vingança, centrada em um personagem igualmente trágico, o filme se consolida como uma das mais importantes obras de ficção científica do cinema contemporâneo, ao debater com profundidade o poder destrutivo do egoísmo humano.
7º Queer

Na Cidade do México de 1950, William Lee (Daniel Craig), um expatriado americano solitário, vive à margem, limitado a encontros ocasionais com sua pequena comunidade. Tudo muda com a chegada de Eugene (Drew Starkey), um ex-soldado. Juntos, eles exploram a chance de uma conexão íntima, que desafia o isolamento e as cicatrizes do passado.
Melhor trabalho da carreira de Daniel Craig, Queer (2024) é um espetáculo visual e sonoro sobre como o desejo pode ser, ao mesmo tempo, algo divino e maldito. Esse é o tipo de coisa que somente a parceria entre Luca Guadagnino e os músicos Trent Reznor & Atticus Ross poderia entregar. O filme é também uma prova da versatilidade do diretor italiano, que no mesmo ano que consegue entregar algo tão intimista e experimental, atinge o grande público com o bastante comercial e ótimo Rivais (2024).
O projeto de Queer (2024) é um caso de amor para Luca Guadagnino e isso fica claro em tela. Talvez sua veia experimental mais puxada para Suspiria (2018) cause estranheza para os fãs de Rivais (2024). No entanto, é como estar diante de um comida diferente, você nunca vai saber o sabor se não provar.
No momento só é possível assistir ao filme nos cinemas. Quero dizer, em alguns raros cinemas. Não sei de quem é a culpa, se são das redes de cinema ou da Paris Filmes, mas é vergonhoso que um lançamento desse nível esteja limitado a apenas algumas capitais brasileiras. Digo por mim, foi uma verdadeira odisseia conseguir assistir a Queer (2024).
6º Jurado Nº 2

“A certeza é o principal recurso dos ignorantes” foi uma das frases que mais ouvi durante minha formação. De lá para cá, poucas obras aprofundaram tanto o significado dela quanto o excelente Jurado Nº 2 (2024).
O ignorante é quem costuma sempre ter certeza. É impossível ter sempre certeza sobre as coisas à medida que se aprofunda em um assunto que envolve pessoas, pois a condição humana é muito complexa. Como diz Hegel, a verdade está no todo.
Já disponível na Max, Jurado Nº2 (2024) é um thriller jurídico profundo e complexo sobre a moral humana e a verdadeira função da justiça.
Em seu novo filme, Clint Eastwood descontrói a figura do “cidadão de bem” que estabeleceu ao longo da carreira, se questionando sobre os limites da parcialidade da análise moral dos indivíduos.
5º Furiosa: Uma Saga Mad Max

Apesar de ser um filme sobre vingança, repleto de cenas intensas e com uma mensagem de desesperança, Furiosa: Uma Saga Mad Max (2024) apresenta ao público uma beleza visual impressionante que transcende a mera fotografia vívida da morte. Para narrar sua história, praticamente literal, sobre o cultivo do ódio, George Miller oferece uma ode ao cinema de gênero, capaz de comover profundamente os fãs desse tipo de arte.
Furiosa (2024) é, acima de tudo, o bom e velho cinema de gênero em grande estilo, respirando a plenos pulmões sob a jovem e saudável visão artística de um senhor de 79 anos. Ante a realidade atual de Hollywood, o que poderia ser mais lindo que isso?
4º Ainda Estou Aqui

Adaptando o livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva sobre sua mãe, Eunice Paiva, Ainda Estou Aqui (2024) se passa no Brasil, na década de 1970. Na trama, Eunice (Fernanda Torres) precisa mudar completamente a sua vida para dar estrutura à sua família, após seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva (Selton Mello), ser sequestrado e assassinado pelos agentes da ditadura militar.
Trabalho mais maduro da carreira de Walter Salles, o filme transmuta entre faces solares e sombrias do Brasil, usando a esplêndida atuação de Fernanda Torres como combustível.
Ainda Estou Aqui (2024) é um filme necessário, não apenas para lembrar ao povo o que foi a ditadura, mas também para acabar com o discurso de que fazemos filmes demais sobre o assunto. A verdade é que precisamos fazer ainda mais.
No momento, só é possível assistir ao filme nos cinemas. Em breve, também será possível assisti-lo no Globoplay.
3º Rivais

Tashi (Zendaya), uma tenista prodígio que se tornou treinadora cedo devido um grave problema físico, transformou o marido, Art (Mike Faist), em um campeão mundialmente famoso. Ele, no entanto, está passando por um momento difícil, o que causa uma turbulência na relação do casal. Tashi, então, toma uma decisão inesperada: ela inscreve o marido em um torneio “Challenger” — o nível mais baixo do circuito profissional — com o intuito de ajudá-lo a recuperar a confiança. O que nenhum dos dois esperava é que Patrick (Josh O’Connor), ex-namorado de Tashi e ex-melhor amigo de Art, também estaria na competição. O encontro dos três reacende velhas rivalidades dentro e fora da quadra.
Rivais (2024) é um excelente exemplar do poder do cinema sensorial de Luca Guadagnino, que, associado ao trabalho de transpiração pura da trilha sonora de Trent Reznor & Atticus Ross, captura o público tal qual uma teia de aranha faz com uma mosca. Realmente lamento por quem não conseguiu ter essa experiência tão envolvente e poderosa em uma sala de cinema.
No momento da publicação desta matéria, é possível assistir a Rivais (2024) no Prime Video, sem custo adicional.
2º O Mal Não Existe

O Mal Não Existe (2024) acompanha Takumi e sua filha, que moram na vila de Mizubiki, em Tóquio. Apesar da vida pacata, um dia os moradores de lá descobrem a existência de um plano para construir um acampamento próximo à casa de Takumi. Isso afeta diretamente a vida do homem e de sua filha.
A obra mais recente do mestre japonês Ryûsuke Hamaguchi (Drive My Car) aborda de forma dilacerante, mas visualmente belíssima, a relação complexa entre o homem e a natureza. O filme, feito para ser digerido com calma, não é uma simples panfletagem, mas algo repleto de perguntas e com conteúdo forte.
Existe uma entidade superior ou cósmica que personifica o mal, ou este conceito está mais relacionado a causa e efeito? Seria tudo uma questão simples de equilíbrio? Você pode ser confrontado com estas questões ao assistir O Mal Não Existe (2024) na MUBI.
1º A Substância

Filmes de body horror geralmente estão associados à perda de controle sobre o próprio corpo, mas A Substância (2024) propõe uma nova abordagem: e se o monstro aterrorizante surgisse de alguém que jamais tivesse tido esse controle? Assim, a ousada Coralie Fargeat se propõe a fazer uma fábula agoniante da objetificação feminina.
A história é construída por pessoas que não têm medo de pensar e fazer diferente, e Coralie Fargeat faz isso em A Substância (2024). Não tenho dúvida de que este filme é o melhor lançamento comercial de 2024.
No momento da publicação desta matéria, é possível assistir ao filme na MUBI.
Vale ficar de olho
Aqui estão alguns filmes que, se tivessem sido lançados comercialmente neste ano, certamente estariam entre os melhores. Apesar de não terem tido um lançamento comercial, vale guardar seus títulos e acompanhar suas futuras exibições.
Desconhecidos (Strange Darling)

Desconhecidos (2024) é um suspense corajoso e lindamente fotografado, que distorce e manipula as expectativas do público de forma muito interessante. Há também uma abordagem à presunção inocência que caminha por terrenos delicados, mas funciona para reforçar a estrutura disruptiva do filme.
A estreia no Brasil acontece apenas em 13 de março de 2025. Se tivesse participado do circuito comercial deste ano, Desconhecidos (2024) seria o 2º colocado desta lista. O filme é realmente provocativo e acredite em mim, você não vai querer saber nada sobre ele antes de assistir, além de que envolve serial killers e remete muito à filmografia de Quentin Tarantino.
A Semente do Fruto Sagrado

Em A Semente do Fruto Sagrado (2024), acompanhamos a vida de um investigador e sua família. Quando sua arma desaparece, ele suspeita de sua esposa e suas filhas, impondo medidas severas que desgastam os laços familiares.
No filme, Mohammad Rasoulof explora os impactos do regime totalitário do Irã, utilizando a metáfora do título para representar a corrupção e a destruição causadas por esse tipo de poder.
A história é também uma denúncia cinematográfica das consequências da fé transformada em ideologia política, mostrando como a paranoia religiosa pode ser utilizada para justificar a opressão. Seu final, embora pouco fundamentado, é extremamente tenso e envolvente. Me lembra alguns dos momentos mais intensos de O Iluminado (1980). No entanto, antes de se tornar um terror kubrickiano, A Semente do Fruto Sagrado (2024) é, em grande parte, um filme lento e politicamente pesado, que precisa ser digerido com calma.
Marcado pelas denúncias que faz contra o regime iraniano, Mohammad Rasoulof vive exilado na Alemanha. O cineasta fugiu clandestinamente do Irã neste ano, após ter sido condenado a oito anos de prisão e à pena de chibatadas em decorrência de sua carreira cinematográfica.
A Semente do Fruto Sagrado (2024) chegará aos cinemas brasileiros em 9 de janeiro de 2025.
Conclave

Em Conclave (2024), Edward Berger (Nada de Novo no Front) consegue transformar o processo da eleição do papa em um tenso thriller político de espionagem, que aborda a dúvida como combustível da fé.
O filme acompanha o Cardeal Lawrence (Ralph Fiennes), um religioso em conflito com sua própria fé, que questiona o papel da Igreja Católica na vida dos fiéis. No entanto, surpreendentemente, é ele quem o Papa escolhe, antes de falecer, para liderar o conclave. Sem compreender os motivos dessa escolha, Lawrence se vê envolvido em uma conspiração e descobre segredos que abalam os alicerces da Igreja.
A atmosfera tensa só não é mais destaque do que a atuação digna de indicação ao Oscar de Ralph Fiennes. O roteiro, minuciosamente trabalhado para apontar o quanto a certeza é uma inimiga da tolerância, merece ser muito bem reconhecido.
Conclave (2024) foi um dos destaques do Festival do Rio. Sua estreia comercial só vai acontecer nos cinemas brasileiros em 23 de janeiro.
Anora

Também destaque do Festival do Rio, Anora (2024) é uma comédia caótica, impulsionada pela atuação exuberante de Mikey Madison. Apesar da torcida por Fernanda Torres ser compreensível, uma premiação da jovem atriz no Oscar seria mais do que justificada.
A história é simples: Uma stripper do Brooklyn se casa impulsivamente com o filho de um oligarca russo. No entanto, o seu conto de fadas é ameaçado quando a família dele quer anular o casamento.
Embora não ache Anora (2024) um dos 5 filmes mais impressionantes do ano, me diverti bastante com como Sean Baker transformou seu Uma Linda Mulher (1990) em uma versão engraçada de Bom Comportamento (2017).
No Brasil, a estreia comercial vai acontecer em 23 de janeiro, mesma data de Conclave (2024).
Menções honrosas
Nas menções honrosas, escrevo sobre alguns filmes que ficaram de fora da lista por fazerem parte da Corrida do Oscar de 2024, além de um que adorei, atendia aos critérios, mas não consegui encaixar entre os 10 melhores.
Zona de Interesse

Zona de Interesse (2023) acompanha a vida de uma família alemã que mora ao lado do campo de concentração de Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial. Para a esposa, o luxo de sua residência é inegociável; para o marido, comandante daquele campo, as mortes são uma meta para ascender na vida.
O filme é difícil em vários aspectos, mas sua principal característica é a sutileza de sua brutalidade, que banaliza o mal. Todos naquela residência sabem o que acontece do outro lado do muro, mas se mantêm indiferentes. O filme também não nos mostra diretamente o que ocorre no campo, pois o foco está em que vejamos apenas o que aquela família escolhe ver.
No entanto, os gritos por piedade, os tiros, os cães e o fogo ardente, perceptíveis pelo som, criam um contraste aterrorizante com as imagens, proporcionando uma experiência angustiante.
Zona de Interesse (2023) só não figura na lista principal por causa do critério de não considerar os filmes da corrida do Oscar 2024, mas dentre os que foram exibidos nos festivais do ano passado, considero o melhor com bastante folga.
Na data da publicação desta matéria, você consegue assistir ao filme no Prime Video.
Ferrari

Em 1957, um Enzo Ferrari, que já não é mais piloto, está em luto pela perda de um filho, enquanto amarga a angústia de não poder registrar o outro, cuja existência é ocultada de sua esposa, Laura. Se isso não bastasse, sua empresa, a Ferrari está à beira da falência e apenas uma fusão com uma montadora rival pode salvá-la.
Para conseguir a fusão, a escuderia não tem uma missão fácil: Precisa vencer a edição da Mille Miglia daquele ano.
Ferrari (2023) é uma epopeia sobre um homem muito mais interessado em manter vivo um mito do que em consertar a si próprio. A história encontra seu valor na desconstrução desse mito, e na interpretação de Laura, por Penélope Cruz.
Como filme de corrida, Ferrari (2023) ainda está repleto de cenas tensas e empolgantes. Seu final é de partir o coração.
Na data da publicação desta matéria, você consegue assistir ao mais recente filme de Michael Mann no Prime Video.
Guerra Civil

Independente das motivações, qualquer embate que dure muito mais do que deveria pode acabar se tornando mais sobre sobrevivência do que sobre idealismo.
Guerra Civil (2024), de Alex Garland, segue essa premissa para focar no “agora” de uma guerra distópica entre norte-americanos, e, enquanto finge que não toma partido, claramente escolhe o autoritarismo como vilão, ao mostrar que, mesmo esta sendo uma forma de governo autodestrutiva, não cai antes de deixar um enorme rastro de sangue ao seu redor.
Através de uma roadtrip, o filme pega na mão do público e o leva consigo para testemunhar os horrores da guerra sob a lente fria do jornalismo, que, embora beire o caricato, é coerente com sua proposta e eficaz em criar tensão.
A escolha estética para aproximar a fotografia à de um documentário, faz com que som e imagem beirem o realismo de forma assustadora!
O perigo é iminente e ninguém está realmente a salvo, mas embora o pessimismo esteja presente em grande parte da viagem, Guerra Civil (2024) se estabelece como um filme surpreendentemente otimista, ao voltar seu foco narrativo para uma relação mentora-aprendiz, que — assim como diz Belchior em “Como Nossos Pais” — reforça que “o novo sempre vem“, e com ele a esperança de que as coisas podem ser, talvez não muito melhores, mas diferentes.
Em termos políticos, este filme é um alerta aos riscos da polarização e da falta de diálogo, que pode ser expandido para outra coisa, a depender da subjetividade de quem estiver assistindo.
No entanto, a política não é o grande destaque de Guerra Civil (2024), mas sim o desenvolvimento humano de seus personagens, especialmente de Lee (Kirsten Dunst), cuja frieza dá lugar a um senso de propósito que, particularmente, fica mais complexo a cada vez que paro para pensar no filme.
Eu adoro Guerra Civil (2024). Infelizmente não consegui encaixar entre os 10 melhores do ano, mas vale a menção honrosa.
Na data da publicação desta matéria, você consegue assistir ao longa na Max.





