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Quase ninguém dá bola e há muita dúvida do potencial de Cara-de-Barro (2026). Não julgo, não é a primeira vez que um estúdio tenta fazer um filme de um personagem secundário dos quadrinhos. A lista de fracassos é grande e inclui os traumáticos Aço (1997), Morbius (2022), Madame Teia (2024) e Kraven, o Caçador (2024). O filme da DC Studios, no entanto, não segue o mesmo caminho desses desastres. Há um potencial de revolução, e eu já explico.
Dentro da lógica do cinema de super-heróis e quadrinhos, não há qualquer razão comercial para se fazer um filme do Cara-de-Barro. A coisa já começa a ficar interessante daí, pois é uma produção motivada por uma ideia, e não pela lógica de seu mercado.

Fã da série animada do Batman dos anos 90, o experiente roteirista e diretor Mike Flanagan (A Maldição da Residência Hill) desenvolveu uma história de paixão que cativou James Gunn e Peter Safran: o vilão do Batman está no centro de um body horror que remete ao tom de A Mosca (1986). Não é algo do famigerado padrão ‘filme de quadrinhos’, mas um terror puro que usa personagens da DC e pode ser apreciado até por quem não tem nenhuma familiaridade com eles. Algo similar a como funciona a série Pinguim, que é um thriller de máfia com personagens das HQs.
“Eu não planejava fazer um filme do Cara-de-Barro. Mike [Flanagan] chegou e apresentou essa ideia maravilhosa. Eu pensei: ‘Cara, não acredito que você me fez querer fazer um filme do Cara-de-Barro’,” explicou Gunn ao Gizmodo. “Essa filme é um body horror muito real, psicológico e nojento. É definitivamente para maiores.“, disse o chefe da DC para Variety.
Gunn começou a carreira fazendo filmes de terror trash. Safran ajudou a criar algumas das franquias de terror mais lucrativas da história, como Invocação do Mal, Annabelle e A Freira. Juntos, os chefes da DC até produziram Dia de Trabalho Mortal (2016). Eles sabem fazer filmes de terror, e conhecem o potencial financeiro desse mercado.

Conforme relatado pelo Deadline, os 5 filmes mais lucrativos de 2024 foram do gênero terror, e nenhum deles precisou de um bilheteria maior que US$ 262 milhões para isso.
- Um Lugar Silencioso: Dia Um (Paramount) – Custo de US$ 191,4 milhões com produção, marketing e impostos, para lucro líquido de US$ 83,6 milhões;
- Nosferatu (Focus Features) – Custo de US$ 167 milhões com produção, marketing e impostos, para lucro líquido de US$ 70 milhões;
- Sorria 2 (Paramount) – Custo de US$ 116,6 milhões com produção, marketing e impostos, para lucro líquido de US$ 55,4 milhões;
- Não Fale o Mal (Universal) – Custo de US$ 89 milhões com produção, marketing e impostos, para lucro líquido de US$ 50 milhões;
- Longlegs (Neon) – Custo de US$ 40 milhões com produção, marketing e impostos, para lucro líquido de US$ 48 milhões.
Observando esses dados, vemos que o filme do Cara-de-Barro ganha uma forte razão comercial para ser produzido quando removido da bolha do cinema de quadrinhos e super-heróis. Não por acaso, Gunn e Safran limitaram seu orçamento de produção a US$ 40 milhões e contrataram James Watkins, diretor de Não Fale o Mal (2024), para comandar as filmagens.
O plano da DC Studios é funcionar como um estúdio pleno, sem seguir fórmulas, sendo um lar para diferentes tipos de produção. Não pense que todos os filmes terão o mesmo tom de Superman (2025), mesmo os que fazem parte do mesmo universo.
Com Cara-de-Barro (2026), Gunn e Safran vão atrás do público do terror. O fato do filme ser situado no DCU só torna as coisas mais interessantes, pois, sendo um sucesso, acaba convidando essa demografia a conhecer as outras obras do estúdio.
Por fazer parte do universo dos quadrinhos de super-heróis, o filme do vilão do Batman ainda é encarado como uma aposta. No entanto, se for um sucesso, a tendência é que outros estúdios com propriedades de quadrinhos sigam a mesma ideia.
Veja, a Marvel está há 6 anos fracassando em fazer um filme novo do Blade, pois simplesmente não consegue encaixar o personagem dentro de sua lógica de universo compartilhado. Qual a dificuldade? Que tal tratar o filme do Blade como um filme, e não um episódio de uma série de filmes?

Blade é um meio-vampiro que caça vampiros usando uma grande espada e pilota uma moto potente. Para fazer um bom filme do personagem, você não precisa mais do que dar alguns vampiros para ele cortar por 1h30. Nem são necessárias muitas locações. Dá para fazer o filme inteiro ambientado dentro de um prédio, uma casa ou um shopping, usando metade do orçamento de Cara-de-Barro (2026). Repito: qual a dificuldade?

Morbius (2022) custou US$ 80 milhões, Madame Teia (2024) passou dos US$ 100 milhões e Kraven, O Caçador (2024) chegou aos US$ 110 milhões, todos com múltiplas rodadas de refilmagens. Olhar para o quanto esses filmes custaram e ver o quanto entregaram gera a sensação de que a Hollywood dos super-heróis e quadrinhos, presa em uma lógica de mercado de espetáculo, desaprendeu o básico.
Se Cara-de-Barro (2026), idealizado como um terror puro e produzido por especialistas no gênero, for um sucesso, talvez os outros estúdios percebam o óbvio. Assim, um filme que os fãs da DC não estão dando tanto crédito pode revolucionar o cinema de super-heróis, mostrando que os personagens dos quadrinhos são ricos o suficiente para alimentarem bons filmes de diferentes gêneros.
Vem de um bom lugar, mas ainda é um filme de estúdio

É importante fazer uma observação sobre a natureza de Cara-de-Barro (2026). Embora James Gunn diga que é uma obra de terror autoral, ainda é um filme de estúdio.
O idealizador do projeto, Mike Flanagan, não faz mais parte da produção e nem é o responsável pela versão final do roteiro. Hossein Amini (Drive) foi contratado para fazer modificações.
Flanagan estava contratado para dirigir o filme, mas precisava entregar a série de Carrie, a Estranha e o reboot de O Exercista antes. Isso faria a produção ser adiada para o final de 2026 ou começo de 2027. Com uma versão pronta do roteiro em mãos, e pressionados para preencher o calendário da DC em 2026, James Gunn e Peter Safran decidiram não esperar pelo criador da história.
Contratado pela experiência com filmes de terror, James Watkins fez suas modificações. Gunn, no entanto, garante que as ideias de Flanagan serão preservadas.
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A história de Cara-de-Barro (2026) será focada em um ator de Hollywood que utiliza uma substância para crescer na carreira, posteriormente descobrindo que pode remodelar seu rosto e forma. O que ele não espera, no entanto, é que a situação vai sair do controle, fazendo com que ele se transforme em uma criatura grotesca com aparência de barro.
Tom Rhys Harries (White Lines) interpreta o vilão, que chegará aos cinemas em 11 de setembro de 2026. A produção vai começar em setembro e deve ser concluída já em outubro.
Além de James Gunn e Peter Safran, o diretor de Batman (2022), Matt Reeves, atua diretamente como produtor do longa.






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