Estimated reading time: 5 minutos
Saí da sessão de Coração de Lutador: The Smashing Machine (2025) com uma sensação desconcertante. Havia algo que parecia faltar no filme, mas eu não conseguia identificar o quê. Foi apenas mais tarde que a ficha caiu: essa sensação de vazio ou ausência não era um defeito; era, na verdade, o grande truque do diretor Benny Safdie.
O cineasta molda seu novo longa sob um tom documental metamorfo e incômodo, potencializado por um estilo visual que abusa de movimentações de câmera bruscas, lentes específicas e até do uso de câmeras em VHS. O efeito é a sensação constante de que o filme está forçando para ser uma obra de bastidores, tentando flagrar momentos crus e não encenados.

A direção, que junto à montagem parece nunca se encontrar, utiliza a ausência para amplificar o peso da jornada do ex-lutador de MMA Mark Kerr. O mais instigante, contudo, é quão semelhante essa jornada parece ser, seja de propósito ou por acidente, à própria trajetória de Dwayne Johnson — o astro que, após anos sendo o “arrasa-quarteirões” das bilheterias, vive uma grande baixa catabolizada pelo fracasso moral e financeiro de Adão Negro (2022).
O trabalho delicado de Dwayne Johnson impressiona, principalmente porque nunca o vimos tão vulnerável antes. Talvez seja esse o grande trunfo do filme para tornar Mark Kerr um personagem tão intrigante. Também jamais havíamos visto o “Smashing Machine” tão vulnerável, e esse paralelo faz com que você compre a atuação de Johnson, que luta contra os próprios sentimentos para não demonstrar fragilidade, nem mesmo para aqueles que ama.
Não apenas Johnson, como também Emily Blunt — que também está incrível — é impulsionada pela forma interessante com que Benny Safdie debate pressão e o conceito de vitória. Não há uma ideia fixa do que é o ideal para o preenchimento do vazio, porque o próprio filme sequer ambiciona se preencher.

O longa, na verdade, ambiciona evocar a complexidade de se viver em sintonia com o próximo, enquanto questiona a própria ideia de sucesso. A vitória, frequentemente, atua como a fagulha do processo de autodestruição de múltiplos personagens.
No filme, o sucesso é como um entorpecente ou estimulante químico. Se alguém usufrui dele uma vez, de forma controlada, terá danos colaterais mínimos. Mas se essa pessoa criar uma relação de dependência, se tornará refém dele, e isso pode consumi-la. E isso não tem a ver apenas com o sucesso esportivo ou com grandes vitórias, mas até com as pequenas, como ajudar alguém que ama a se recuperar de uma grande crise.

A linha mais importante de todo o filme é a de Kerr dizendo, logo no começo, que sempre vence porque prefere ser raio laser a lanterna. Essa clara alusão ao foco sintetiza Coração de Lutador (2025) em todos os sentidos: sensorialmente, narrativamente e visualmente.
Se para Kerr o alívio só chega no final, com a aceitação de que não precisa ser intenso como um raio laser o tempo todo, o filme, como um todo, exige que o público seja lanterna desde os primeiros minutos.

Em suma, Coração de Lutador (2025) força o espectador a visualizar o macro pelo sentimento de vazio, o que o torna uma obra que só será devidamente absorvida algum tempo após a sessão. Embora a ideia de Benny Safdie seja autêntica, a atuação de Dwayne Johnson seja sensível e sincera e o charme visual do final dos anos 90 seja inegável, ainda é difícil afirmar categoricamente que o filme “funciona” no sentido tradicional. Essa estranheza inerente, contudo, é o que o torna único.
Leia mais sobre Coração de Lutador:
- Siga o O Vício no Google e não perca nada sobre Cultura Pop!
- Dwayne Johnson se pronuncia sobre fracasso de bilheteria de Coração de Lutador
- Coração de Lutador quebra recorde negativo na carreira de Dwayne Johnson






Comentários