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É 2026; há guerra no Oriente Médio e uma tensão latente de invasão territorial na América do Sul, continente do qual fazemos parte. Digamos que o exército norte-americano não vive seu momento de maior prestígio. Bem, ao longo dos últimos anos, o debate sobre as ocupações territoriais dos EUA evoluiu bastante, mas há uma dificuldade clara de entender o arquétipo do soldado. Ainda há um humano ali ou, quanto maior a patente, mais próximo ele está de uma Máquina de Guerra?
Existe uma resposta simples, cujo ponto de vista não é tão aceito: um soldado é um cumpridor de ordens. Não é o tipo de profissional que é pago para dar opiniões, e todo o treinamento se baseia em tirar dele o “eu” para preenchê-lo com uma doutrina mecanizadora, que explora o máximo de seu equilíbrio mental e físico em prol de homens engravatados que não pisam no campo de batalha.

Máquina de Guerra (2026), da Lionsgate com a Netflix, arma o jogo para discutir sobre esse assunto tão delicado, mas, quando chega na cara do gol, se nega a chutar e dá um passe para o lado. O diretor e roteirista Patrick Hughes não sabe dosar o drama real com a ação gráfica, e acaba provocando um jogo brusco com o caricato.
Não me entenda mal. Não é que um filme de guerra precise ser panfletário para se valer como algo útil. Filmes são apenas filmes, no fim das contas. Mas Hughes também não precisava levantar esse debate se não tinha planos de ir a fundo. De qualquer forma, a experiência do projeto, em si, não é consistente.

Começando pelos grandes méritos: o diretor acerta ao sobrepor a falta de expressão de Alan Ritchson com a fisicalidade. Isso é algo que Reacher faz muito bem. A construção atmosférica por marcadores visuais também é muito efetiva; são boas as escolhas de usar bússolas com interferência magnética e cordas tensionadas para criar estímulos visuais. O grafismo da violência também funciona — é um toque de impacto a mais para a ação.
O impacto, no entanto, é diminuído pela dificuldade de relação com os personagens. Ora, ali há homens e mulheres que compraram o sonho americano de defender o país por algum motivo. Tirando o personagem principal, todos são tratados com unilateralidade nesse quesito. O resultado: o filme se importa mais com aqueles cadáveres do que quem o assiste.
Mas os coadjuvantes precisavam ter profundidade para o filme funcionar? Como disse anteriormente: não; mas se fosse para apenas o protagonista importar, não haveria necessidade de adicionar marcadores dramáticos nos descartes das buchas de canhão.
Há ainda toda uma atmosfera melosa provocada por uma montagem caconírica irregular, além de uma trilha sonora tão genérica que parece ter sido retirada da biblioteca gratuita do YouTube. Essa combinação joga muito contra a tentativa de Hughes de emular perigo. O alvo é o épico, mas o cineasta acerta em algo próximo à paródia.

Máquina de Guerra (2026) imprime bravura, mas é um filme covarde. Divertido? Tem seus momentos; tem o Alan Ritchson parecendo um muro de concreto contra um robô alienígena que é um pastiche do Predador. Não tem como isso ser totalmente desinteressante. Dado o gancho final e o sucesso de audiência na estreia do streaming, deve ganhar uma sequência. Nela, Patrick Hughes terá a chance de abraçar a substância ou se afastar dela de vez, em vez de ficar no meio de um caminho confuso como o deste primeiro filme.
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