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Lançado em 2015 pela editora JBC, Zero Eterno – ou Ein no Zero, em japonês – é um mangá cujo tema principal é a vida dos pilotos Kamikaze da Segunda Guerra Mundial. Com autoria de Souichi Sumoto, obra é baseada no livro homônimo de Naoki Hyakuta, que fez sucesso no seu ano de lançamento em 2006 e vendeu mais de quatro milhões de cópias. A obra busca, com certo sucesso, humanizar a figura do piloto Kamikaze, que pilotava o caça Mitsubishi A6M Zero durante a guerra, ao mesmo tempo em que conta uma história de superação com um apelo bastante nacionalista, mas que não chega a fazer apologia aos confrontos militares.
A trama é contada a partir dos olhos de Kentaro Saeki, um jovem desmotivado no Japão contemporâneo que está passando por problemas em relação aos seus estudos e trabalho, sem conseguir reunir foco e força de vontade para tocar a própria vida. Devido a promessa de dinheiro fácil, ele aceita participar de um projeto de sua irmã jornalista e começar a fazer pesquisas e levantamentos sobre a vida de seu avô Kyuzo Miyabe, que teria sido um piloto durante a guerra e morrido durante um ataque kamikaze. A trama então, intercala o presente com o passado, mostrando Kentaro entrevistando veteranos de guerra que vão do louvor ao ódio por Miyabe e transferindo a narrativa para o passado conforme os personagens narram suas vidas. No início de suas pesquisas, Kentaro passa a acreditar que o avô era um covarde que fugia dos confrontos e se preocupava apenas com a própria segurança, mas pouco a pouco sua visão sobre o parente – e também sobre si mesmo – vão se modificando.

O mangá possui uma história interessante e que é contada de forma satisfatória. Apesar de não ser o mais importante para a trama, as sequencias passadas no presente servem para que a narrativa seja fluida e a obra possa tratar dos momentos mais relevantes da vida de Kyuzo Miyabe. No entanto, a história do próprio Kentaro não é tão empolgante e ele não possui muito carisma. Muito mais relevantes são os veteranos de guerra que o jovem entrevista, cada um deles apresentando uma visão diferente sobre a guerra, o Japão e também sobre a figura fictícia de Kyuzo Miyabe. Ainda assim, toda essa proposta do neto que procura descobrir quem é o avô funciona muito bem, e as diferentes visões sobre a mesma figura, Miyabe, fazem com que ele seja um personagem crível e bem desenvolvido.
Ao mostrar os segmentos do passado, o mangá apresenta vários eventos históricos sob o ponto de vista do piloto Miyabe. Eles não são de todo bem desenvolvidos, mas servem apenas para trazer um ar de realidade e importância para a história do personagem. Com isso o autor consegue mostrar bem os temores e as esperanças dos pilotos – seja Miyabe ou a coletânea de personagens que narra a sua história para o protagonista dos tempos presentes –, sempre colocando os pilotos como pessoas comuns, vítimas dos poderosos que fazem a guerra, da situação em que estão envolvidos e da brutal hierarquia militar, que os utiliza de forma quase descartável.

Mesmo assim, alguns dos personagens podem ter uma personalidade um tanto quanto exagerada, demonstrando algum nível pouco crível de egoísmo ou uma agressividade beirando a sociopatia. Podem ser estereótipos um tanto comuns na cultura japonesa, mas para um leitor brasileiro, a forma como são tratados pode parecer um exagero desnecessário. Não há dúvidas de que o autor não se importa em pecar com os coadjuvantes para humanizar e caracterizar Miyabe. Isso não é de todo ruim, mas pode passar a impressão de que o piloto é a única pessoa sensata que existe ali. Essa sensação pode ser ainda maior em quem não tem tanto conhecimento sobre a literatura de guerra ou sobre a cultura japonesa, onde traços reais, mas exagerados, podem parecer completos absurdos. No entanto, dentro da lógica japonesa, os homens dispostos a se sacrificar por nada, ou quase nada, fazem sentido se levar em consideração todo o fundamento confuciano que influenciou a sociedade japonesa. Ainda assim, separar o que tem de idealizado e o que tem de real nesses comportamentos pode ser difícil para brasileiros, mesmo os que conhecem a fundo a sociedade japonesa e a história da guerra.
O que é indiscutível na obra, no entanto, são as ilustrações dos aviões e dos momentos de combate. A narrativa nem tanto, em muitos momentos é um pouco difícil perceber a sequencia de eventos ou manobras realizadas pelos pilotos. Mas é sempre muito bonito ver os aviões contra o céu, saindo de nuvens e disparando contra seus rivais. Zero Eterno é principalmente sobre os pilotos de caça, e as famosas dogfights não certamente não poderiam ficar de fora dessa história.

O romance original de Zero Eterno e sua adaptação para as telonas levantaram algumas controvérsias. Hayao Miyazaki – famoso diretor e co-fundador do Studio Ghibli – acusou a obra de passar uma imagem glorificada da guerra e se basear em mitos sobre os kamikaze ao invés da verdade. Takashi Yamazaki – diretor do adaptação para o cinema – rejeitou o comentário, afirmando que não o entendia e que a obra apresentava a guerra como uma tragédia. A obra, de fato, deixa bem claro uma visão onde a guerra é algo terrível, mas ao mesmo tempo, muitos dos pilotos são apresentados como voluntariamente participando de missões de kamikaze e não obrigados, como hoje em dia se acredita que acontecia. A realidade história deve ter sido um pouco mais complicada do que essa ligeira dicotomia, mas com seus erros e acertos, Zero Eterno é um mangá interessante e que vale a leitura.




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