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Ruídos, risadas, flashes e muito forró soavam na agradável noite de 15 de abril em Cabaceiras, na nossa Paraíba, pouco antes de as luzes dos refletores do palco se apagarem para a projeção finalmente brilhar mais forte. De repente, um clima de silêncio e ansiedade tomou conta do lugar. Sob um céu estrelado e com uma temperatura agradável, a 2ª temporada de Cangaço Novo, que estreia oficialmente em 24 de abril no Prime Video, recebia a sua première ao ar livre, remetendo às feiras e circos itinerantes onde os curtas-metragens dos irmãos Lumière (os pais do cinema) eram exibidos no início do século 20. Naquele instante, todos os presentes — incluindo os realizadores da série — vivenciaram um momento em comunidade que pouquíssimas pessoas terão o privilégio de experimentar na vida.
Pela lógica do mercado da atenção, as premières são executadas em ambientes cada vez mais controlados. Há embargos e uma quantidade muito maior de influenciadores do que de jornalistas; e mesmo os jornalistas presentes são aqueles que possuem uma veia mais voltada ao “estilo influenciador”. Bem, é o que é — e, convenhamos, é justo, pois os estúdios precisam vender seu peixe.

O resultado disso, muitas vezes, é um ambiente artificial de reações exageradas, tanto para cima quanto para baixo. É difícil medir a recepção verdadeira de algo nesse contexto, cuja atmosfera geralmente é fria e enclausurada, tendo em vista que ocorre, em sua maioria, em shoppings de grandes centros. O Prime Video, no entanto, permitiu-se correr alguns riscos para fazer da première da nova temporada da série uma experiência real.
Cerca de três mil pessoas compareceram ao Bode Rei Hall. Cabaceiras tem pouco mais de cinco mil habitantes. Essa cidade — onde foi gravado O Auto da Compadecida (1999) e muitas outras produções, incluindo Cangaço Novo — tornou-se cinematográfica por sua condição climática, que a faz receber pouquíssima chuva.
A tarde que antecedeu o evento, no entanto, estava nublada, com nuvens pesadas; e quando chove por lá, chove para valer — já tive essa experiência no passado. Não há como negar que a possibilidade de tudo ir por água abaixo gerou alguma ansiedade, mas, no fim, o céu limpou e revelou estrelas tímidas acima da tela.

Correu tudo bem com a exibição. O público teve a atenção completamente roubada; ninguém desviava o olhar. Por duas horas, o local transformou-se em um cinema a céu aberto, com três mil pessoas compartilhando uma experiência genuína sobre a produção. O que saísse dali seria real. As pessoas não poupariam críticas se não gostassem e, mesmo que houvesse embargo, o que fora exibido se tornaria, inevitavelmente, o assunto da cidade.
Lembro-me da minha chegada no meio da tarde. Era uma quarta-feira pacata, mas com uma aparente ansiedade nas ruas. As pessoas observavam dos bancos das praças, das lojas e das janelas de suas casas o movimento; algumas chegavam a me fitar para tentar descobrir se eu era alguém famoso — afinal, muita gente popular já estava na cidade para divulgar o evento.
O pós-evento, entretanto, era quando as reações poderiam ser medidas. Sentado em uma mesa solitária em um bar na praça do centro, poucos momentos após o encerramento, pude testemunhar conversas sobre a première. Havia uma empolgação aparente na voz das pessoas; alguns destacavam o que era engraçado, outros o que era tenso, mas, em essência, havia ali algo palpável.

Quando é você e sua televisão no escuro, o máximo que se pode fazer é conversar com quem está ao lado ou recorrer à internet para procurar algum local de comentários. Ali, no entanto, havia algo especial e humano, que há muito se perdeu entre as noites digitais.
Você nunca sabe realmente quando está vivenciando um momento histórico, pois, no fim das contas, ele ainda se trata apenas de um momento; algo concreto no presente. É aquilo que você, de fato, possui, mas cujo tom especial só nota quando o deixa de ter. Se cabe aos registros a classificação, escrevo a tempo de ser alguém que já não o habita mais, e que tem plena ciência de que a noite de 15 de abril foi histórica para o audiovisual brasileiro.
O mesmo espírito, mas muito mais agressiva

Os dois primeiros episódios da 2ª temporada de Cangaço Novo estão em grande forma. A série volta como uma panela de pressão cheia até a boca, fervendo em fogo alto. Parece que vai explodir a qualquer momento. A cinematografia é muito superior à da 1ª temporada. A ação é coisa de quem sabe o que está fazendo.
Parte disso se deve ao fato de a evolução técnica ter chegado sem alterar o espírito da 1ª temporada. Em conversa conosco, a intérprete de Dinorah, Alice Carvalho, foi enfática: “Voltar para o Cangaço é, inevitavelmente, voltar para casa, voltar para os meus irmãos; mas é sempre o mesmo espírito da 1ª temporada: eu não tenho nada a perder.“, declarou.
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Cangaço Novo é um thriller potente, cru e impiedoso. É Meu Ódio Será Sua Herança (1969) em canção agalopada. Aqui, os fracos também não têm vez, e você não vai querer deixar essa série passar batida.






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