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O que é o ser humano? Uma evolução de um ser unicelular formado a partir do big bang? A criação mais perfeita de uma divindade? Não sabemos com exatidão o que somos ou de onde viemos, mas sabemos quem somos. Somos humanos. Uma espécie incrivelmente evoluída dentre as que conhecemos, seres inteligentes, com sentimentos, mas ao mesmo tempo ignorantes e egoístas em relação à vastidão de nosso universo cósmico e à vastidão de nosso universo interior – a forma como pensamos, sentimos e agimos.

Estamos sendo tudo o que deveríamos ser conosco, com o próximo, e com o universo, no curto tempo de nossas vidas?

“Se visse sua vida toda, do começo ao fim… você mudaria alguma coisa?”

Maior trabalho do aclamado diretor Denis Villeneuve até então, A Chegada (Arrival) estreou nos cinemas em novembro do ano passado (2016), estrelado por Amy Adams e Jeremy Renner, sendo extremamente elogiado pela crítica e pelo público, além de receber 8 indicações ao Oscar e faturar a estatueta na categoria de Melhor Edição de Som.

A história, aparentemente apenas mais uma entre várias já vistas em filmes sobre alienígenas, se mostra como algo único desde os primeiros diálogos, onde percebemos o foco da trama em uma reflexão sobre o que é ser humano: amor, dor, perda, perseverança… valores e sentimentos que nos tornam únicos neste vasto universo, mas que ao mesmo tempo não são aplicados da melhor forma em nosso dia dia, e fazem de nós uma raça medíocre e ignorante diante de grandes problemas e da incerteza de nosso futuro; tudo isso ancorado à percepção humana sobre o tempo e como o enxergamos, algo que molda a forma como existimos e vivemos.

Quando doze naves alienígenas aterrissam em diferentes pontos da Terra, a existência da humanidade é colocada em risco, afinal, nenhuma tecnologia conhecida por nós seria capaz de nos permitir lutar contra objetos de 500 metros de altura que desafiavam as leis da natureza.

Lutar ou resistir seria inútil, dada a disparidade tecnológica – apesar disso alguns líderes mundiais com grande poder bélico e temperamento curto, tentariam em algum momento. Por definição, “o ser humano distingue-se dos outros animais por agir com racionalidade.” Mas a história mostra que somos animais irracionais diante de grande poder e de grandes problemas.

A única possibilidade de sobrevivência seria tentando se comunicar com estes seres. Então, a Dra. Louise Banks – uma renomada linguista, solitária, e que sofre pela perda de sua filha – e o físico Ian Donnelly são chamados pelo governo para tentar estabelecer contato com os extraterrestres.

No entanto, os primeiros contatos fracassados e o silêncio dos seres alienígenas torturam a humanidade que busca por respostas e não tolera o não conhecer, fazendo com que o medo da iminência de extinção deflagre o instinto egoísta de sobrevivência de nossa espécie, que vai aos poucos se deteriorando, caminhando à beira do colapso e se tornando a própria responsável por sua destruição. Não seríamos nós nossos próprios vilões?

Os seres desconhecidos parecem aguardar pacientemente pelo contato com a raça humana, como se o tempo para eles fosse muito diferente – e é – disso que, para nós, é o que determina nossa curta existência.

“Estamos tão presos pelo tempo.

Pela sua ordem.”

A medida em que o tempo passa e Louise começa a decifrar a estranha iconografia dos alienígenas, baseada em símbolos circulares com tinta preta, a plasticidade neurológica do cérebro humano à permite, aos poucos, com o aprendizado da nova linguagem, entender o tempo da maneira como os alienígenas entendiam. Isto é explicado pela hipótese Sapir-Whorf, também conhecida como relativismo linguístico, que pressupõe que a língua determina como você pensa, e molda seu entendimento sobre tudo.

Este era o motivo da vinda dos alienígenas à Terra. “Um jogo de soma não zero”. O oferecimento do conhecimento sobre tempo de uma forma além da menosprezível compreensão humana, em troca de nossa ajuda no futuro. Mas como saber o que aconteceria daqui há 3000 anos? O conhecimento sobre o tempo dos alienígenas os permitiam isso, e foi o que vieram oferecer. Oferecer, gratuitamente, uma aliança entre raças, uma ajuda à humanidade, demonstrando generosidade e, principalmente, ilustrando para o espectador a mediocridade de nossos comportamentos egoístas.

Presente, passado e futuro se alternam em loops na tela, e se durante quase todo o filme somos levados a acreditar que o “relacionamento” dos alienígenas com Louise teria, de alguma forma, uma conexão com a perda de sua filha, percebemos que sim, existe a conexão, mas não da maneira como havíamos compreendido, pois o nosso simples compreendimento sobre o tempo não nos permitira enxergar da maneira certa a não linearidade dos acontecimentos. Os “flashbacks” de Louise da perda de sua filha não eram lembranças, mas sim, vislumbres de seu futuro.

Tal descoberta nos coloca frente a frente à todos os nossos medos sobre a vida, a morte, sobre o amor, às perdas, à incerteza de nosso destino. Uma descoberta perturbadora que nos faz refletir sobre nosso propósito na vida, sobre as escolhas que fazemos no cosmicamente curto tempo de nossa existência. Uma descoberta que nos faz confrontar sobre nossas atitudes em nosso dia a dia para com o próximo e para com nós mesmos. Agiríamos de maneira melhor e diferente se conhecêssemos nosso futuro? Por que não agir da melhor maneira agora para moldarmos nosso destino da forma como pretendemos e para termos sido realmente humanos na essência do ser enquanto vivemos, ao invés de esperar – com medo – o que o tempo guarda para nós?

“Se visse sua vida toda, do começo ao fim… você mudaria alguma coisa?

Talvez eu… dissesse o que sinto mais vezes. Não sei.”



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