He-Man não é apenas um ícone oitentista, mas também um ícone da cultura pop em geral. E sua história de criação é na verdade bem interessante.
Em 1982, as lojas de brinquedos começaram a receber estoque de uma linha peculiar de action figures. Atarracado e com uma estrutura hiper-muscular, He-Man era algo radical em comparação com os heróis longos e magros de G.I. Joe, que estavam na moda na época.
He-Man ganhou respeitáveis US$ 38 milhões para a Mattel em seu primeiro ano. Em 1984, havia ganhado mais de um bilhão. Embora a He-Mania não tenha sido projetada para durar, continua sendo uma das maiores histórias de sucesso de brinquedos de todos os tempos. Mas afinal, como isso começou?
He-Man foi resultado da Mattel ter esnobado Star Wars
Quando a space-opera de George Lucas, Star Wars, foi à procura de parceiros de licenciamento, a Mattel foi uma das várias empresas que simplesmente recusou os direitos de fazer bonecos da franquia. A indústria então assistiu a Kenner transformar Star Wars em um sucesso meteórico nos brinquedos, deixando a Mattel chorando o leite derramado e desesperada para desenvolver seu próprio sucesso. E eles começaram imediatamente a correr com isso.
O designer principal da Mattel, Roger Sweet, e o ilustrador Mark Taylor, tinham ideias sobre um guerreiro saradão que empunhava espadas nos moldes das artes de Frank Frazetta para o Conan. Enquanto os esboços de Taylor (alguns dos quais datados de sua infância) eram baseados em algo mais fantástico, Sweet imaginou um personagem que poderia ser colocado em qualquer série de época. Para uma apresentação aos executivos da Mattel, Sweet aplicou músculos de argila a uma linha já existente de action-figues.

Cada um representava o personagem, que ele chamou de He-Man, em cenários militares, de fantasia e espaciais. Apesar das possibilidades da história de um herói que viaja no tempo, a pesquisa de marketing da Mattel com crianças apontou para o cara com o pião na cabeça. Com os esboços e ideias de Taylor para personagens secundários, um bárbaro nasceu.
Os Quadrinhos e o surgimento da série animada
Baseado em esboços de Mark Taylor, o escultor Tony Guerrero inicialmente moldou He-Man como um indivíduo de aparência severa. Mas sua expressão carrancuda e capacete com chifres foram considerados muito ameaçadores: ele parecia muito zangado para uma criança brincar. Antes de ser suavizado com um corte de cabelo loiro, o protótipo foi usado em testes de pesquisa de mercado, e um garoto ficou tão apaixonado pelo brutamontes que tentou enfiá-lo em seu casaco. O pretenso ladrão foi pego, mas não antes que a Mattel percebesse que eles estavam no caminho certo.
Confiante em sua linha de He-Man, o diretor de marketing da Mattel, Mark Ellis, mostrou seu conceito aos compradores da Toys ‘R’ Us. Para ajudar a desenvolver a história de fundo e esclarecer quem era bom e quem era mau, a Mattel encomendou uma série em quadrinhos para inserir na embalagem do produto. Mas os executivos da Toys não gostaram da ideia, argumentando que as crianças pequenas poderiam não saber ler. Improvisando, Ellis mentiu, dizendo que eles tinham um desenho animado em desenvolvimento. Afinal, quão difícil poderia ser fazer um?
Depois da Hanna-Barbera rejeitar o desenho, a Mattel procurou uma empresa que havia produzido um comercial de animação para eles: a Filmation. O presidente da Filmation, Lou Scheimer, sugeriu que produzissem uma primeira temporada de 65 episódios que poderiam exibir durante cinco dias da semana. O modelo fez tanto sucesso que, no auge de sua popularidade em 1984, He-Man e os Mestres do Universo foi visto por mais de nove milhões de telespectadores todas as tardes.
Embora ele existisse na arte de esboço de Mark Taylor, o alter ego de He-Man, o Príncipe Adam, não foi introduzido no cânone até que o escritor Michael Halperin trouxe o conceito para a série animada. Antes disso, os quadrinhos da DC retratavam o personagem mais como um guerreiro tribal, sem a necessidade de uma identidade secreta.
Com o sucesso avassalador de He-Man, a Mattel e a Filmation começaram a notar um fenômeno inesperado: as pesquisas de audiência apontavam que as meninas representavam cerca de 30% do público do desenho animado. Percebendo o enorme potencial para expandir a franquia e abocanhar o mercado de “action figures” voltadas para o público feminino, a Mattel decidiu criar uma contraparte que tivesse a mesma força e apelo do herói de Eternia, mas com uma narrativa com a qual as garotas pudessem se identificar mais diretamente.
A missão de dar vida à nova heroína caiu novamente nas mãos da Filmation. Roteiristas como Larry DiTillio e J. Michael Straczynski ajudaram a moldar a história de fundo da personagem, batizando-a de She-Ra. Para conectar as duas propriedades de forma orgânica e imediata, foi estabelecido que ela era a irmã gêmea do Príncipe Adam, sequestrada ainda bebê pelo vilão Hordak e criada no planeta Etheria.
A estreia oficial da personagem aconteceu em 1985 com o longa-metragem de animação O Segredo da Espada Mágica, que serviu como ponto de partida perfeito para a sua própria série animada, She-Ra: A Princesa do Poder, garantindo à Mattel mais um sucesso estrondoso nas prateleiras.
O filme de 1987
A série animada original Mestres do Universo e a linha de brinquedos terminaram em 1985, embora She-Ra: A Princesa Guerreira tenha durado mais dois anos. O fato é que o que sepultou Mestres do Universo foi o fracasso do filme live-action.
O filme de 1987, Mestres do Universo, foi parcialmente financiado pela Mattel depois que eles perceberam que poderiam co-financiar um filme com apenas uma parte de seu orçamento de publicidade. Os produtores acabaram optando pelo ator Dolph Lundgren para o papel de He-Man após o sucesso de Rocky IV, onde viveu Ivan Drago. O ator era fisicamente imponente, mas seu forte sotaque sueco tornava suas falas difíceis de entender. Antes da decisão de colocar alguém para dublá-lo, o contrato de Lundgren especificava que ele poderia tentar regravar até três vezes. Mas não teve como; a forma como ele falava tornava suas cenas ininteligíveis.
Além disso, limitações de orçamento fizeram com o que o filme se passasse majoritariamente na Terra, com He-Man e seus amigos seminus andando para lá e para cá entre carros e prédios. O filme foi um fracasso com a crítica e com o público.
O legado e o retorno aos cinemas
Apesar do fim abrupto da linha original nos anos 80, a franquia provou ter uma força duradoura, ganhando novas sobrevidas ao longo das décadas. Em 2002, a série animada exibida pelo Cartoon Network conseguiu revitalizar a marca ao expandir a mitologia de Etérnia, aprofundando o passado dos personagens e atualizando os visuais para uma nova geração. Mais recentemente, a Netflix também manteve esse universo em evidência, lançando animações de sucesso que reimaginaram tanto He-Man quanto She-Ra.
O curioso é que, mesmo com o tropeço de 1987, Hollywood nunca abandonou a ideia de levar o herói de volta à tela grande. Após anos de projetos engavetados, trocas de diretores e mudanças de estúdio, a redenção de Mestres do Universo finalmente chegou aos cinemas. O recente filme live-action assumiu a missão de entregar a adaptação épica que a audiência sempre esperou, buscando apagar as falhas do passado e honrando de vez o legado que começou naquelas prateleiras de brinquedos.