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Após duas séries de Digimon, uma sendo sequência da outra, a franquia resolveu seguir por um caminho diferente… mudando tudo! Digimon Tamers mudou as regras do jogo, aproveitando muito do que funcionou nas séries anteriores e consertando o que não havia dado tão certo assim.

Com uma história mais sombria e menos infantil, embora ainda claramente voltado para crianças, Digimon Tamers mostrou que um anime criado para ser apenas uma peça comercial pode sim oferecer uma trama envolvente e um excelente desenvolvimento de personagens. No vídeo de hoje, falamos um pouco sobre a história desse anime e como ele mudou o jogo.

Uma nova estrutura

Digimon Tamers era radicalmente diferente das duas séries anteriores de Digimon. Esse anime meio que contava com uma meta-narrativa, ocorrendo no mundo real, onde Digimon era uma popular franquia de mídia.

As séries anteriores também contavam com um elenco grande de crianças, mas Tamers opta por apenas três. O protagonista é Takato, que obviamente usa os óculos de proteção que marcam que você é um protagonista em Digimon.

Takato é um garoto normal, e a série o trata como um garoto normal. Ele fica com medo quando conhece Guilmon, um Digimon baseado em seu próprio desenho – afinal, é um monstro cuspidor de fogo. Guilmon é um Digimon bem diferente dos anteriores apresentados na série, porque ele não tem todo aquele conhecimento a respeito do Digimundo. Na verdade, ele não tem muito conhecimento sobre qualquer coisa. Takato é uma criança muito ansiosa, então lidar com o imprevisível e infantil Guilmon cria uma ótima química.

Lee é um garoto que prega a não-violência, então ele não gosta de fazer os Digimons lutarem no videogame. Terriermon é o parceiro de Lee, um Digimon empolgado que sempre quer entrar em uma luta. Sim, nós temos uma criança pacifista cujo Digimon evolui para Gargomon, que tem duas metralhadoras embutidas nos braços.

E então temos Ruki, que é basicamente a Rainha dos Digimons. Ele é extremamente boa no jogo, e por isso todo mundo a acha descolada e legal. Ao contrário de Lee, Ruki não se importa de apelar para a violência e meio que serve como a primeira antagonista da série. Ela está sempre procurando por uma luta. Renamon, a parceira de Ruki, quer ser a mais forte de todas, então no começo elas nem sequer tem uma amizada, mas sim uma relação de trabalho. Com o tempo, no entanto, as duas admitem que se preocupam uma com a outra.

Um dos benefícios de ter um elenco menor é que os Digimons são personagens com maior desenvolvimento, com sentimentos e perspectivas. Também há mais foco em personagens secundários. Conhecemos os amigos de Takato, os vilões, as famílias dos personagens e obtemos alguns arcos de personagens secundários que se tornam bem interessantes.

Outros personagens que mais tarde ganham mais importância incluem Calumon, um Digimon aparentemente inofensivo que detém o poder de ajudar outros Digimons a se transformarem. E Impmon, um Digimon rude e mesquinho que recusa parceiros.

Mecânicas inovadoras

O primeiro terço do anime de Digimon Tamers envolve a forma como os Digimons interagem no mundo real. No entanto, para tornar isso mais interessante, existe todo um novo foco no tratamento das criaturas. Eles são mais animalescos, está em sua programação querer lutar, e as emoções humanas agora são algo que eles aprendem, em vez de algo que os Digimons vem automaticamente equipados.

As crianças nunca tiveram muitos problemas em esconder os Digimons nas séries anteriores, porque eles sempre foram relativamente pequenos, mas Guilmon é um baita dinossauro gigante, então Takato tem problemas para escondê-lo. Muitos dos primeiros episódios são dedicados a encontrar um esconderijo para Guilmon – o que se torna ainda mais complicado devido ao desejo de Guilmon de explorar e brincar.

Obviamente, o conceito de digievolução também está presente novamente, mas um pouco diferente. Anteriormente, a digievolução acontecia bem cedo na série, e quando acontecia, os monstrinhos voltavam para sua forma base por uma questão de conveniência. Demora um bom tempo até Guilmon digivolver pela primeira vez, e depois que isso acontece ele simplesmente não consegue voltar ao normal.

O episódio seguinte traz Guilmon preso em uma forma ainda maior, com Takato tentando uma série de meios de fazê-lo voltar ao normal ou pelo menos escondê-lo. É um episódio engraçado, mas não vamos esquecer que Takato é uma criança com ansiedade, o que traz alguns momentos angustiantes, como ele tendo medo de perder Guilmon.

Obviamente, além dos desafios comuns de esconder seus Digimons, as crianças também precisam enfrentar alguns Digimons malignos que aparecem no mundo real. Takato e Lee seguem a lógica de que Digimons são criaturas vivas, mas Riku quer que Renamon mate todos eles e absorva seus dados para se tornar mais poderosa.

Um novo conceito do anime é que as crianças também podem usar as cartas do card game oficial para dar poderes extras aos seus Digimons – e convenhamos, é uma ideia genial quando lembramos que os animes de Digimon são peças comerciais para vender esse tipo de coisa.

Digimon Tamers conta uma história com início, meio e fim. Para se ter uma ideia, o episódio 12 da série original marcou o fim do primeiro arco, enquanto Tamers mal começou no episódio 12. A série parece estar começando um arco de fato quando Digimons baseados no zodíaco chinês invadem a cidade de Shinjuku. Cada episódio traz as crianças derrotando um dos 12 inimigos, então você acha que essa vai ser a fórmula até todos serem eliminados, mas então tudo muda de rumo quando Calumon é capturado e levado para o Digimundo.

Mesmo quando as crianças finalmente chegam ao Digimundo, é bem diferente de como era em Digimon Adventure. Em vez do mundo fantasioso estilo Nárnia, temos um deserto desolado cheio de fragmentos de dados tentando formar algo mais significativo.

Evolução de personagens (e não estou falando de digivolver)

A série é toda sobre perspectiva e mudança. Todos os personagens principais tem filosofias diferentes que os conduzem, mas eles crescem com o tempo. Toda vez que um novo vilão é apresentado, descobrimos que ele não é realmente o vilão. Um dos benefícios de ter um elenco de protagonistas menor, é o foco no desenvolvimento de personagens secundárias, especificamente Impmon e Jeri, cujas histórias meio que coincidem.

Uma grande mudança que é feita em Digimon Tamers é que as crianças não foram escolhidas para ser parceiras de seus Digimons como na primeira série. Aqui, o humano e o Digimon precisam concordar em ser parceiros. Há mais esforço para envolver as crianças na luta, e essa ideia de crianças e Digimons trabalhando juntos compensa com a bio-evolução, que une o humano e o Digimon em uma criatura mais poderosa.

No entanto, isso também torna possível que Digimons renunciem aos seus domadores e torna ainda mais brutalmente doloroso quando um Digimon morre. Impmon não pode digivolver porque abandonou seus domadores, dois pirralhos terríveis. Ele então faz um acordo com o maligno Zhuqiaomon, o que o ajudará a digivolver para… bem, destruir as crianças.

Impmon não é um daqueles vilões que são introduzidos do nada em Adventure. Ele é um personagem que vimos se desenvolver e ficar desesperado o suficiente para chegar a esse ponto. Também vemos Jeri querendo se tornar domadora de Leomon e o quanto a parceria significa para ela quando ele finalmente concorda. É por isso que é tão significante quando Impmon, agora evoluído em Beelzebumon, mata Leomon e absorve seus dados.

O arco de personagem de Impmon continua, quando mais tarde ele se reconecta com seus domadores e fica desesperado para ganhar o perdão de Jeri, levando a um dos momentos mais emocionantes de toda a franquia. Em um ato de desespero, Beelzebumon invoca os dados de Leomon e usa seu ataque mais característico.

O tom sombrio de Digimon Tamers realmente se expressa no terço final da série. Depois de Jeri perder Leomon, seu corpo é possuído por algo chamado D-Reaper, uma forma digital cujo propósito é purgar o Digimundo, e uma das cenas mais bizarras é quando ela ataca o seu próprio irmão.

Pois é, o vilão final de Digimon Tamers não é um Digimon. O D-Reaper era um programa criado para limpar arquivos corrompidos. Todo vilão é um herói sob sua própria perspectiva, mas o D-Reaper não tem qualquer filosofia. Ele apenas quer limpar a bagunça que por acaso é a vida. As formas que ele assume são perturbadoras, além de usar a voz de Jeri para se comunicar, o que também é assustadoramente incômodo.

O final de Digimon Tamers não abre muito espaço para celebração. É repentino e meio agridoce, mas deixa o público com um pequeno vislumbre de esperança de que as crianças possuam um dia ver seu Digimon novamente. Digimon Tamers é algo realmente único, criando algo que é genuinamente criativo a partir de uma franquia que se destina primariamente a vender jogos e brinquedos. É um anime que é tudo, menos uma peça meramente comercial, apresentando emoção, ensinamentos e uma história com mais riscos.

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Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.


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