https://www.youtube.com/watch?v=RLv05eD3A08
Quando a linha Ultimate da Marvel surgiu em 2001, seu conceito era simples: reimaginar os maiores heróis da editora, de forma simples para novos leitores, sem o peso de anos de cronologia. Porém, ao longo dos anos, o Universo Ultimate começou a acumular sua própria cronologia, e seu motivo primário de existência já não fazia tanto sentido. Dessa forma, a linha precisou evoluir para se tornar algo diferente: um laboratório de ideias.
Se inicialmente o Universo Ultimate era apenas uma versão mais moderna e descolada do universo regular, ele então passou a servir para que os roteiristas pudessem ousar e lançar mão de diversas ideias criativas (e até bizarras) que jamais seriam aceitas pelos editores (e obviamente, pelos fãs) na linha principal.
E foi por isso que, após 10 anos à frente do título Ultimate Spider-Man, o escritor Brian Michael Bendis resolveu fazer o impensável: matar o Homem-Aranha. Mas isso não significaria o fim do título na linha Ultimate, já que Bendis logo em seguida encaixou a segunda parte de sua experimentação: um novo Homem-Aranha.
Assim surgia Miles Morales, um garoto negro e hispânico, que por um acaso do destino também acabou sendo picado por uma aranha da Oscorp, da mesma forma que o Peter Parker daquele universo. Diferente de Peter, que tinha o gatilho emocional da tragédia envolvendo o Tio Ben para decidir agir como um super-herói, Miles era só um garoto de 13 anos, com medo das mudanças que estavam acontecendo com o seu corpo. Sua motivação para fazer o bem e agir como Homem-Aranha veio justamente da morte de Peter Parker, um cara que morreu dando tudo de si para salvar os outros. Peter era o “Tio Ben” de Miles.

A ideia de um Homem-Aranha negro já vinha sendo cozinhada na Marvel há algum tempo, desde 2008, quando Barack Obama se tornou o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Era algo que o então editor-chefe da Marvel, Axel Alonso, andava pensando por um bom tempo, até que surgiu a oportunidade com Bendis.
“Nós vimos a América ganhar seu primeiro Presidente negro e pensamos que talvez fosse a hora de darmos uma olhada em nossos ícones.”
O mais interessante em Miles, e que fez com que ele crescesse para se tornar um grande personagem, é que ele não era apenas um “Homem-Aranha negro”. Miles tinha seu próprio elenco de personagens coadjuvantes, uma personalidade e visão de mundo completamente diferentes das de Peter Parker, e até mesmo poderes originais que vão muito além do clássico combo escalar paredes + habilidades e força proporcionais às de uma aranha. Assim como certas espécies de aranhas, Miles possui a capacidade de se camuflar, tornando-se praticamente invisível, e é dotado também de uma espécie de descarga elétrica de baixa intensidade, que funciona quase como uma ferroada.
Seguindo a velha máxima de que “qualquer pessoa pode ser o Homem-Aranha”, Miles conquistou o público com sua trajetória. Era interessante ver como um jovem negro do Brooklyn (Parker era do Queens) lidava com o peso de ser um super-herói, munido apenas de seus poderes e de altruísmo. Ele não é um gênio como Peter e, portanto, não tinha nem mesmo como fabricar as clássicas teias que eram uma invenção particular do Homem-Aranha anterior. No entanto, Miles tinha o mais importante. O que define o Homem-Aranha: responsabilidade.
“O tema é o mesmo: Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Ele vai aprender isso e daí vai ter que entender o que este lema realmente significa.” – Brian Michael Bendis
Muito bem recebido pelos leitores, não demorou para Miles Morales fazer o salto dos quadrinhos para outras mídias, aparecendo na série animada Ultimate Spider-Man quando Peter Parker conhece outros Aranhas, e tornando-se parte do elenco regular de Marvel’s Spider-Man, animação do Disney XD que a sucedeu.
Mas foi sem dúvida entre 2017 e 2018 que o nome de Miles Morales tomou uma maior impulsão.
Tudo começou quando a Marvel decidiu acabar com a linha Ultimate e tornar sua linha editorial mais simples, com a saga Guerras Secretas, reestruturando seu universo em apenas uma terra primordial. Como Miles era interessante demais para ser perdido, ele logo foi agregado ao universo principal, o que possibilitou que ele aparecesse em vários dos títulos da editora, fazendo parte de equipes como os Campeões e até mesmo os Vingadores.
Não demorou para a Sony (desesperada em gerar lucro com a única propriedade Marvel que detém os direitos) perceber o potencial de Miles Morales e anunciar que o garoto seria o protagonista da animação Homem-Aranha no Aranhaverso (que se revelou um sucesso, mas falaremos disso posteriormente). E como se não bastasse, Miles também foi parte importante da narrativa do game exclusivo de PS4 lançado em 2018, Marvel’s Spider-Man, que contou com uma cena pós-créditos que já deixava bem claro o futuro do personagem também nessa mídia – afinal, ele vai estrelar o título de lançamento do PlayStation 5.
Em tempos em que Pantera Negra foi um verdadeiro sucesso crítico e comercial, marcando uma importante valorização da cultura afrodescendente, personagens como Miles Morales, que conversam diretamente com um público mais jovem, são essenciais. E é de extrema importância o fato de que, mesmo inserido desde 2017 em um universo que já tem o Peter Parker regular da década de 60, ele continua usando a alcunha de Homem-Aranha. É crucial que ele não seja o “Garoto-Aranha” ou que use qualquer outro codinome menor. Miles Morales é o Homem-Aranha. E cada vez mais, o mundo está abraçando isso.