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O Coringa é, sem sombra de dúvidas, o maior inimigo do Batman. E olha que o Homem-Morcego possui uma galeria de vilões para ninguém colocar defeito. E a grande diferença dele para outros vilões, que faz com que ele seja um verdadeiro nêmesis do Batman, está nos seus motivos. E afinal, quais são os motivos dele? Obviamente, o Coringa é louco, então seria irrelevante tentar apontar uma motivação ou um sentido em seus atos. Porém, existe uma constante: ele é obcecado pelo Batman. E tudo que ele faz, é pelo Batman.

O controverso sentimento que o Coringa tem pelo Batman, muitas vezes comparado com alguma espécie doentia de amor, já foi abordado várias vezes. “A Piada Mortal”, clássico de Alan  Moore e Brian Bolland, já havia estipulado anos atrás que o Coringa simplesmente não consegue viver sem chamar a atenção do Batman, enquanto que o Homem-Morcego parece ter alguma obsessão em perseguir o seu nêmesis, como se precisasse dele para ser quem é.

Em “A Morte da Família“, o roteirista Scott Snyder expandiu esse relacionamento retirando a cortina da sutileza e reproduzindo em palavras aquilo que até então era implícito. O amor do Coringa pelo Batman, em toda a sua estranheza, é foco constante e elemento crucial durante toda a narrativa da HQ, com o vilão não apenas declarando sua paixão e necessidade pelo herói, quanto com momentos onde Bruce Wayne admite que procura ignorar o fato de encontrar apenas um sentimento dentro daqueles olhos perversos e aparentemente sem emoção: amor. O Coringa ama o Batman, porque ele lhe dá sentido.

Primeiro é preciso entender essa obsessão, e para isso temos que voltar um pouco no tempo, mais precisamente em 1988, quando Alan Moore decidiu dar ao Coringa uma origem, usando como base aquela que foi apresentada em Detective Comics #168, de 1951, por Bill Finger e Bob Kane, envolvendo o Capuz Vermelho. “A Piada Mortal” é, até hoje, amplamente considerada A origem do Coringa. Uma origem onde a sua obsessão pelo Batman é justificada, afinal é ele o responsável por sua queda no tanque de elementos químicos que o transformam.

No entanto, existe uma sutileza nessa história que poucos percebem. Alan Moore, em toda sua genialidade, não deu uma origem ao Coringa, mas sim desacreditou a única origem conhecida até então do personagem, quando deixa claro no roteiro que ela pode não ser verdadeira.

Um dos trechos mais interessantes da HQ é quando o Palhaço do Crime explica que não tem certeza do que aconteceu com ele. Às vezes ele lembra de um jeito, às vezes de outro.

“Se é para ter um passado, eu prefiro que seja de múltipla escolha.”

Uma ideia que o cineasta Christopher Nolan levou para o seu “Cavaleiro das Trevas“, onde o Coringa interpretado por Heath Ledger conta sua “história de origem” em dois momentos no filme, em duas versões muito distintas.

No entanto, mesmo conhecendo apenas uma origem do Coringa, sabemos que o seu cérebro fragmentado formula origens onde o catalisador de seu estado é o Batman. Dessa forma, não seria exagero acreditar que em todas as suas possíveis origens, em todas as opções de múltipla escolha do personagem, de alguma forma, usar o Batman como causador é uma forma de direcionar a ele sua desgraça – ou a melhor coisa que aconteceu em sua vida. O fato é que o Coringa precisa do Batman para existir.

A maior prova disso talvez esteja em “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller, onde após o Batman se aposentar, o Coringa fica durante anos em estado catatônico, só voltando ao normal quando descobre que o Homem-Morcego voltou à ativa.

É por isso que o Batman de Tim Burton cria um conceito interessante. Ao dar ao Coringa a figura de Jack Napier, colocando-o como assassino dos Wayne, é criada uma irônica cadeia de acontecimentos onde, no fim, o Coringa é responsável pela criação do Batman, enquanto o Batman se torna responsável pela criação do Coringa. Particularmente não sou um grande fã desse filme e eu nem gosto da ideia do Coringa ter um nome e uma origem, mas é inegável que a ironia que tentaram criar aqui é muito interessante enquanto conceito.

É por isso também que a série de TV “Gotham“, mesmo já tendo inserido dois personagens que  são potencialmente o Coringa – os gêmeos Jerome e Jeremiah – nunca teve coragem de chamá-lo explicitamente de Coringa. Porque os produtores sabem o peso que seria criar o Coringa quando o Batman é apenas um garoto.

Outro fator interessante a respeito de “A Morte da Família“, do Scott Snyder, é que temos um interessante flashback de Bruce Wayne, onde ele lembra o dia em que visitou o Coringa no Asilo Arkham e praticamente revelou sua identidade ao inimigo – talvez para entender o que aconteceria, tamanha a sua curiosidade em compreender a mente doentia do vilão. No entanto, Wayne observa que só havia indiferença no Coringa. Ele simplesmente se recusou a absorver a informação, já que saber quem é o Batman acabaria com a diversão. Ele não quer saber quem é o homem por baixo da máscara. A sua obsessão é com a entidade Batman.

Em “Asilo Arkham” de Grant Morrison, por exemplo, quando Máscara Negra quer desmascarar o Batman e ver o seu verdadeiro rosto, o Coringa se irrita:

“Esse É o seu verdadeiro rosto.”

Ao mesmo tempo, como citado anteriormente, não temos apenas histórias que mostram a dependência do Coringa pelo Batman, mas também o contrário. Até mesmo em “Injustiça”, onde toda a trama envolvendo um Superman ditador começa com o assassinato do Coringa pelas mãos do Homem de Aço, temos a todo momento questionamentos do motivo pelo qual Batman nunca havia impedido o Coringa de uma forma definitiva – a até mesmo suposições de que, no fundo, alguma parte dele gostava do jogo de gato e rato com seu nêmesis.

O que esbarra naquela questão de que o Batman é tão louco quanto seus inimigos. Mas isso é assunto para um outro artigo.

Mas a obsessão do Batman, ao contrário da do Coringa, pode ser tranquilamente explicada. Como o roteirista Grant Morrison já deixou claro diversas vezes em várias histórias, o maior perigo do Coringa é a sua imprevisibilidade. Algo até mesmo a nível de personalidade, já que segundo o autor, ele pode acordar a cada dia como um pessoa diferente – até mesmo muito mais são em alguns desses dias. Essa é a forma que Morrison utiliza para justificar as diferentes versões do Coringa que já vimos ao longo dos anos. Ele pode ser bobo e inofensivo em algumas histórias, e completamente mortal e psicótico em outras.

Mas o fato é que o Coringa faz o Batman pensar e ser testado. Batman sabe que ele sempre precisa levar o Coringa a sério. O fato dos planos do Coringa poderem ir em qualquer direção a qualquer momento é o que faz dele um problema tão grande. Se o Coringa fosse removido permanentemente da galeria de vilões do Batman, o herói praticamente não teria mais como se testar. Com todos os seus planos de contingência, ele estaria preparado para qualquer nova ameaça.

Batman, no fundo, é um maníaco por controle. E o Coringa, em sua imprevisibilidade, está constantemente menosprezando e brincando com esse controle que o Homem-Morcego gosta de ter. Nenhum outro herói tem um nêmesis do mesmo nível do Coringa. O que não mata o Batman, o deixa mais forte. Ter o Coringa por perto definitivamente torna o Batman mais forte. Sem o Coringa, o Batman se tornaria mais brando e consequentemente mais fraco. Batman precisa do Coringa.

Em resumo, a grande ironia do Coringa é que ele despertar o melhor do Batman.


 
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