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A Netflix fechou um acordo para comprar a Warner por US$ 82,7 bilhões, e agora está se preparando para enfrentar as barreiras regulatórias necessárias para a conclusão do negócio. Mas, antes de resolver seus problemas com os reguladores, a gigante do streaming tem contas a prestar com a opinião pública — que, no momento, enxerga Ted Sarandos como uma espécie de vilão de James Bond.
É verdade que, no passado, o co-CEO da Netflix deu declarações lastimáveis sobre o futuro da indústria cinematográfica, e faz sentido que elas venham à tona agora e preocupem os amantes da sétima arte. No entanto, é importante entender que a gigante do streaming não está comprando uma bodega.
Não é como se Sarandos pudesse chegar ao complexo de estúdios da Warner em Burbank, bater no balcão e dizer: a partir de hoje, a DC Comics está fechada e a gente vai tacar fogo em todos os cinemas dos Estados Unidos para que nossos filmes só sejam exibidos no streaming.
A Warner é uma empresa muito tradicional de cinema e está no negócio da distribuição cinematográfica há décadas. Junto aos estúdios dela, a Netflix está adquirindo todo o know-how e a abertura que jamais teve nessa indústria. Não faz o menor sentido jogar isso fora, principalmente sob a ótica econômica; seria uma atitude contestada pelos próprios acionistas da Netflix. Eu sei que executivos, quase sempre, não são inteligentes, mas também não chegam a ser tão burros.
É óbvio que a Netflix vai se aproveitar das principais propriedades intelectuais da Warner para impulsionar a sua plataforma e nadar de braçada na indústria do entretenimento. Eles não estão concorrendo com a Paramount ou a Disney; a briga deles é com a Meta e o Google agora.
O cinema, no entanto, com todo o poder de propaganda que ainda tem, será mais uma ferramenta da Netflix nessa batalha — especialmente quando falamos de grandes franquias como DC e O Senhor dos Anéis.

Não dá para prever o que vai acontecer, pois a Netflix sequer tem garantias concretas de que será a dona da Warner daqui a dois anos; mas parece muito plausível que a distribuição das grandes franquias não seja alterada. Os filmes originais talvez tenham a janela de exclusividade nos cinemas reduzida — o que seria uma pena —, mas não estamos falando da morte do cinema, como se diz por aí.
Gosto sempre de lembrar que a situação só chegou a esse ponto porque David Ellison quis se mostrar perante o mercado e acabou batendo com a cara na parede, junto a todo o corpo executivo da Paramount.
A Netflix não tem a melhor das famas na indústria; ela produz em volume cavalar e muito do que é lançado acaba enterrado pelo próprio algoritmo. Além disso, vazamentos recentes — como a orientação para que roteiros de algumas obras sejam extremamente expositivos, para que quem assiste olhando para o celular não se perca — não ajudam em nada. Mas você jamais poderá dizer que a gigante do streaming não valoriza a arte de fazer filmes.
Que outro estúdio tradicional de Hollywood daria US$ 200 milhões para David Fincher fazer seus filmes sem cobrar retorno algum? Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (2025) jamais receberia sinal verde com seu orçamento de US$ 210 milhões em outro lugar que não na Netflix.

Por que você não pergunta a Martin Scorsese se ele acha que a Netflix é uma assassina do cinema? Ele mesmo já foi beneficiado pelo modelo de negócio do streaming para tirar O Irlandês (2019) do papel.
Estamos falando de uma empresa que sobrevive da própria imagem. Se ela tem algo como Um Filme Minecraft (2025) e Superman (2025) gerando agenda positiva nos cinemas, seria jogar contra o próprio dinheiro provocar qualquer mudança.
Do ponto de vista organizacional, para a Warner, o acordo é um sonho. A Netflix não está se fundindo com ela, mas se tornando sua dona. A Paramount entrou no páreo querendo absorver o estúdio gerido por David Zaslav, e é óbvio que isso resultaria em menos filmes nos cinemas e menos funcionários nos escritórios. Quando um estúdio absorve o outro, a produção nunca dobra. Aquela promessa de 30 lançamentos anuais nos cinemas beiraria o impossível sob uma fusão tradicional.
No caso da Netflix, a gigante do streaming simplesmente não possui os quadros necessários para operar a Warner. Por isso, sairia muito mais caro tentar uma fusão que exigisse um novo corpo de gestores do que cumprir o que está sendo prometido: manter todo mundo em suas exatas funções, fazendo o que já sabem fazer. É a eficiência pela continuidade.
A Paramount está em uma cruzada para reviver franquias cobertas de poeira, tentando atrair um público conservador que ninguém sabe ao certo se ainda frequenta os cinemas. David Ellison está preterindo obras originais para ir atrás de dinossauros de Hollywood com passados sombrios. Para mim, essa postura se parece muito mais com a de um vilão de James Bond.
Pode ser que eu esteja sendo otimista e ingênuo demais, e a Netflix, de fato, mate a indústria cinematográfica tradicional daqui a 15/20 anos. Mas quem morre de véspera é peru. O cinema continua vivo e tem a chance de se reinventar, caso esse acordo se concretize.
Atenção: Este texto é baseado inteiramente na opinião de seu autor e não necessariamente reflete a opinião do site.






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