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Kraven, o Caçador, um dos mais antigos vilões do Homem-Aranha não apenas vai ganhar um filme em outubro, como duas semanas depois estará tendo destaque no game Marvel’s Spider-Man 2, como um dos principais antagonistas.

É curioso que, embora seja um vilão extremamente reconhecível do Homem-Aranha, Kraven passou algumas décadas desaparecido dos quadrinhos, permanecendo morto após a clássica história “A Última Caçada de Kraven”, de J.M. Dematteis e Mike Zeck. Mas acontece que foi justamente essa história que elevou o patamar de Kraven e o tornou icônico, e é sobre ela que vamos falar no vídeo de hoje.

A Última Caçada de Kraven

A história começa com Kraven “enfrentando” animais empalhados, enquanto podemos ver um funcionário misteriosamente cavando uma cova. Em um momento de contemplação de sua vida, Kraven vai até um local oculto em sua mansão, onde encontra-se um caixão. Enquanto retira um traje do Homem-Aranha de dentro do caixão, ele derrama lágrimas e diz que vai morrer em breve. Mas ainda não.

Enquanto isso, talvez como um efeito sombrio do sentido de aranha, Peter Parker tem um pesadelo onde vê Kraven sendo soterrado por aranhas. O vilão então as afasta e começa a devorá-las, o que faz Peter acordar assustado e com medo. Para espairecer, ele decide fazer aquilo que faz de melhor: se balançar pelos prédios de Nova York. Porém, aquela era uma noite de caçada. Uma noite de Kraven finalmente colocar sua última caçada em ação.

Acertado por um dardo tranquilizante, os movimentos do Homem-Aranha começam a ficar erráticos e ele é facilmente derrotado por Kraven, que o captura com uma rede de caça e caminha tranquilamente em sua direção portando um rifle. O Aranha tenta argumentar que rifles não fazem o estilo de Kraven, mas o Caçador está concentrado, apenas repetindo que “a honra será restaurada”. Ele então atira no herói aracnídeo.

A cena corta e vemos então a mansão Kravinoff, onde o Homem-Aranha está no caixão, sendo velado por Kraven e pelos funcionários que estavam cavando nas páginas anteriores. A mando de Kraven, eles iniciam a descida do caixão até a cova, enquanto o próprio caçador joga as primeiras pás de terra no túmulo do seu outrora maior inimigo.

A cena seguinte nos dá um melhor vislumbre da instabilidade mental de Kraven e de seus planos ao tirar a vida do Homem-Aranha e enterrá-lo. O Caçador é visto em frente ao túmulo do herói aracnídeo, usando uma réplica do seu traje negro e rindo de forma doentia. Enquanto isso, vemos que em Nova York as coisas estão ficando cada vez mais perigosas para os cidadãos, devido a ameaça de Ratus, uma criatura que vive nos esgotos e que arrasta suas vítimas indefesas por tampas de bueiro.

Vemos novamente Kraven, que imerso em seus pensamentos, começa a explicar o que se passa em sua cabeça. Ele não está satisfeito apenas em ter caçado a sua maior presa. Ele decide que precisa se tornar o Homem-Aranha, vestir sua pele e agir em seu lugar, para provar que é superior. Decidido a “se tornar uma aranha”, Kraven ingere uma poção misteriosa feita com ervas e raízes, e tem a visão de uma aranha gigantesca que surge quando as menores se juntam.

Voltando ao Ratus, aprendemos que ele possui um medo mortal do Homem-Aranha, reconhecendo-o como um “homem mau” que já o machucou antes. Esse aspecto da psique da criatura vai ser importante mais tarde na história. Enquanto isso, acompanhamos Mary Jane, que embora acostumada com as longas ausências do Homem-Aranha, começa a se preocupar com o desaparecimento de seu marido e sai para procurá-lo. No entanto, ela é atacada por dois abusadores, que acabam sendo espancados por Kraven se passando pelo Homem-Aranha.

Mary Jane fica horrorizada com a extrema violência do Homem-Aranha, achando que ele é Peter. Por não reconhecê-la, Kraven simplesmente parte, mas isso faz Mary Jane ter a certeza de que aquele não é o seu marido. Nesse momento, a fome de Ratus se torna cada vez mais insuportável e ele decide superar seu medo do Homem-Aranha e sair dos esgotos, em busca de comida. Que nesse caso significa seres humanos, é claro.

Ao longo dos dias, Kraven continua agindo como Homem-Aranha. Um Homem-Aranha cada vez mais violento, brutal e cruel, matando criminosos e deixando a polícia sem entender o que aconteceu com o herói. Enquanto isso, a mente de Kraven vai se tornando cada vez mais fragmentada, com ele tendo dificuldades para entender se é o Homem-Aranha, a caça, ou se é Kraven, o Caçador. Nesse ínterim, a onda de assassinatos de Ratus continua, agora sem qualquer pudor, matando e devorando pessoas nos becos de Nova York.

Ciente do que está acontecendo, Kraven finalmente entende o que realmente precisa fazer para se tornar um Homem-Aranha melhor. Capturar a presa que o próprio Aranha nunca conseguiu: Ratus. Trajado como Homem-Aranha, ele vai até os esgotos atrás de Ratus e provoca a criatura, dizendo que já o derrotou antes. Os dois entram em um longo e terrível confronto, onde Kraven acaba levando a melhor. Ele derruba Ratus e passa a espancá-lo sem piedade, até a criatura finalmente ficar inconsciente.

Finalmente, vamos a Peter Parker, que está isolado em sua consciência, tendo estranhas visões. Ele é uma aranha, e tenta escapar de um túnel, mas é dilacerado por criaturas que surgem nas trevas. Das estranhas da aranha, ele surge, e as criaturas tem a aparência de Kraven. Enquanto revive a imagem de Kraven apontando o rifle em sua direção e disparando, Peter se agarra no amor que sente por Mary Jane e finalmente consegue se desenterrar, surgindo do túmulo como se fosse um morto-vivo em um filme de George Romero.

Se arrastando até a Mansão de Kraven, ele encontra jornais espalhados pelo chão, e descobre não apenas que o Caçador está se passando por ele, mas que ficou nada mais, nada menos, do que duas semanas enterrado vivo. Constantando que foi atingido com algum tranquilizante bizarro de Kraven, o Aranha fica furioso e parte em busca do Caçador. Enquanto isso, Ratus é mantido preso em uma gaiola eletrificada.

Antes de ir atrás de Kraven, obviamente, o Homem-Aranha vai até sua casa, onde tranquiliza Mary Jane. A cena, onde os dois não precisam falar nada, é facilmente uma das composições narrativas mais belas não apenas dessa história, mas dos quadrinhos de uma forma geral. Sério, peraí, isso é arte.

Peter finalmente parte atrás de Kraven, e o Homem-Aranha não consegue conter sua fúria por ter ficado duas semanas enterrado vivo, e começa então a espancar o Caçador. No entanto, Kraven diz que o Aranha pode bater nele o quanto quiser, que ele não irá resistir, afinal ele considera que venceu. Em suas palavras, ele “matou” o Homem-Aranha, o enterrou e ainda por cima tomou o seu lugar. Ele diz então que o único motivo de tê-lo deixado vivo foi para que ele soubesse que foi “morto”. Insano? Insano. Mas faz sentido, de uma forma distorcida.

Kraven então troca de roupa e pede que o Homem-Aranha o siga, levando-o até o local onde Ratus é mantido prisioneiro. Ele então liberta a criatura e a convence a atacar o Homem-Aranha, por tê-lo espancado e aprisionado. Ainda abalado pelo trauma de ter ficado enterrado por duas semanas, o Aranha perde a calma e começa a espancar Ratus, dizendo que ele não faz menor ideia do que ele passou. No entanto, ele percebe que era isso que Kraven queria, e se recusa a continuar agredindo Ratus, que vira o jogo e tenta matá-lo.

Kraven então impede Ratus e o manda fugir, em seguida erguendo o Homem-Aranha e mandando-o seguir a criatura para impedir sua matança. Satisfeito por ter supostamente provado o que queria para o Homem-Aranha e para si mesmo, Kraven garante ao aracnídeo que o Caçador nunca mais irá caçar novamente. Enquanto o Aranha parte atrás de Ratus, Kraven vai até os seus aposentos, coloca uma foto de sua família próxima ao caixão, pega o seu velho rifle e dá um fim à própria existência.

Mas a história não termina aqui. Ainda temos um capítulo final, no qual acompanhamos melhor o trauma do Homem-Aranha e como isso o está afetando ao precisar entrar nos esgotos (um lugar fechado) para procurar por Ratus.

Ele finalmente o encontra e os dois se confrontam, mas o Homem-Aranha consegue derrotá-lo ao fazê-lo subir para a luz. O que é simbólico também para o herói, que passou parte da história na escuridão. Por fim, ele entrega Ratus à polícia, e vemos que, ante de morrer, Kraven entregou uma confissão eximindo o Homem-Aranha dos atos que cometeu enquanto se passava pelo herói.

A história termina com o Homem-Aranha finalmente retornando para casa e para os braços de Mary Jane, enquanto Kraven é enterrado por seus funcionários. No texto final, o poema “O Tigre”, de William Blake. 

Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.