Comentários

Estimated reading time: 6 minutos

Se você é um leitor criterioso e realmente se importa com o rumo que os quadrinhos norte-americanos estão tomando, certamente lamenta o estado catatônico da Marvel, que agora, mais do que nunca, é liderada por executivos de carreira e produtores de cinema e TV. Aqueles gibis que tanto amamos viraram coadjuvantes do audiovisual, de modo que as histórias por lá são pensadas para estar o mais próximo possível do que é exibido nas telas — às vezes, funcionam até como teste para futuras adaptações. Enfim, a Marvel Comics virou o quintal do MCU, e isso já foi dito por aqui algumas vezes.

Não que aproximar os quadrinhos dos filmes e séries seja algo novo. Todas as editoras já fizeram isso e continuam fazendo, porque estamos falando de marcas e de obras que, queira ou não, inspiram criadores a fazer suas próprias versões das coisas. Veja, o espetacular Batman de Matt Fraction é inspirado pelo Superman de James Gunn, mas repare que essa inspiração não foi uma determinação editorial. O próprio Matt se sentiu atraído a imaginar essa abordagem mais leve do Homem-Morcego contrastando com uma Gotham fatalista. O ponto nessa questão da Marvel é que já faz muito tempo que esse processo de extração da alma criativa passou do limite do razoável e se tornou algo perigoso para a própria Marvel Studios.

Ao explorar a sanidade e a capacidade de julgamento do Batman, Matt Fraction apresenta novos vilões e dinâmicas que mostram como o fatalismo de Gotham também consegue funcionar perfeitamente longe da estética sombria. Uma abordagem única (Reprodução/DC Comics)

A DC vive a sua melhor fase neste século. Há quem diga que isso tem a ver com a saída de Dan DiDio, mas atribuo mais à forma como Jim Lee e seus pares incentivam os criadores a trazerem ideias ousadas e interessantes para a marca. Não por acaso, os melhores nomes da indústria estão trabalhando por lá hoje. Não há barreiras criativas forçadas por cinema, TV ou linha cronológica. Tem espaço para todo mundo desenvolver a própria história, desde que seja interessante, e o maior legado disso é o Universo Absolute, que está levando o mercado dos quadrinhos nas costas desde seu surgimento em 2024.

Na manhã desta quinta-feira (25), a DC Studios anunciou uma série animada de Absolute Batman, com o criador da franquia Absolute, Scott Snyder, como showrunner. Você, que acompanha o mercado, tem alguma dúvida de que essa série vai ser um fenômeno?

Absolute Batman será uma série animada totalmente em CG, com Nick Dragotta também envolvido como produtor (Divulgação/DC Studios)

Supergirl (2026) está aí nos cinemas — tendendo ao fracasso, é verdade —, mas é um projeto que só existe por causa de uma HQ publicada entre 2021 e 2022. A DC Comics está dando munição anualmente para a DC Studios produzir porque é tratada como prioridade. Claro, as adaptações podem dar certo ou errado (como no caso de Supergirl), mas a máquina da criação continua girando.

Reinado do Demônio foi fundamental para o surgimento da ótima série Demolidor: Renascido (Reprodução/Marvel Comics)

A partir do momento em que a Marvel transforma a sua fonte em represa, ela se limita às poucas histórias interessantes que já existiram. Qual foi a última grande novidade que surgiu na Marvel nos últimos cinco anos? Até tem uma coisa ou outra em títulos afastados dos grandes núcleos, mas, desde a Era Krakoa e o Reinado do Demônio, nada de grandioso e aproveitável apareceu. Em sua maioria, o que vimos foi uma quantidade absurda de conteúdo genérico que só consegue chamar atenção pelo choque.

A Casa das Ideias chegou perto de criar algo tão grandioso quanto Absolute Batman com o novo Universo Ultimate, mas ela mesma abriu mão disso com o tempo. Vamos ter aí o Universo Midnight, focado em abordagens inéditas dos personagens no terror, mas ele já nasce correndo atrás do prejuízo.

Midnight X-Men
Com X-Men vampiros, o Universo Midnight até é uma ideia interessante, mas ainda mostra a Marvel optando por seguir fórmulas em vez de permitir a criação livre (Reprodução/Marvel Comics)

Por enquanto, o estágio atual da Marvel é o mesmo de uma cobra Ouroboros, que come a própria cauda. Uma hora ela vai se esgotar, e essa é uma preocupação real para quem se importa com o que essa editora já foi um dia. Brad Winderbaum, chefe de streaming e animações da Marvel Studios, recebeu a tarefa de reerguer os quadrinhos da editora em maio. Fica a torcida para que ele consiga.

Enfim, o sucesso de Absolute Batman funciona como um tapa na cara da Marvel, uma chamada para a Casa das Ideias acordar para a vida. É uma lição sobre como uma empresa fundamentalmente de quadrinhos jamais deve tratar como prioridade algo que não sejam os próprios quadrinhos.

Atenção: Este texto é baseado inteiramente na opinião de seu autor e não necessariamente reflete a opinião do site.

Leia também sobre Absolute Batman e Marvel



Comentários