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Por Daniel Leite Costa

É diretor de arte e designer. Escreve reviews e análises para o programa Diversidade Games. Siga no Twitter.

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TURBOGAME thumb Afinal, videogames devem ser desafiantes?

Isso é um Turbo Game. Ainda terei um novamente.

Eu gostava muito de Jackie Chan’s Action Kung Fu, do NES. Não, eu não jogava num NES. Eu jogava numTurbo Game, um “Video Game de Alta Resolução” da CCE compatível com os cartuchos de Nintendo 8bits. E confesso também que só vim saber o nome correto do game anos depois, através da internet. Eu chamava de “O Jogo de Karatê”, e isso bastava. O jogo era um misto de beat’em up e plataforma, gêneros que praticamente definiram a terceira geração de videogames. Gráficos simples, mas bem estilizados, música viciante. Hoje, anos depois, fui tentar jogar novamente. E como esse jogo é difícil…

JACKIECHAN thumb Afinal, videogames devem ser desafiantes?

Jackie Chan’s Action Kung fu | Observem os gráficos em “Alta resolução”

E isso me faz refletir sobre como os jogos atuais são tão fáceis. Estamos sendo acostumados com checkpoints a cada 5 segundos, barras de energia autorecarregáveis, munição infinita. E esquecemos como era ter que repassar todo um longo estágio por um ‘pulo’ mal calculado. A imensa maioria dos jogos das últimas duas gerações praticamente não oferecem desafios ou dificuldades reais ao jogador durante a jornada. E tudo virou questão de conquistar uma “troféu” ou destravar uma “conquista”. Uma mera alegoria, vazia, sem valor sentimental. Isso não me instiga, não me satisfaz. É apenas um número. Não jogo por números.

Jackie Chan não é um exemplo isolado. Lembre-se de Mega Man, Contra, Ninja Gaiden e Battletoads.BlackThorne, Castlevania, Super Ghouls n’ Ghosts e Zelda. O primeiro Resident Evil, Vagrant Story. Existia um prazer extasiante em passar de estágio, encontrar uma caixa de munição pra a .12 era uma festa. Onde está o prazer de aprender? Parece ter se perdido num tempo distante o sentimento de desafio que os games despertavam. Aquele fascínio por ter chegado tão longe, sem se perguntar o quanto ainda falta… O prazer de se sentir desafiado. O Homem contra A Máquina. Até mesmo os modos mais difíceis de alguns jogos atuais não oferecem desafio a jogadores mais experientes e habilidosos. O que antes era um mérito – terminar um jogo – hoje é lugar comum.

É tudo mercadológico? Se antes os jogos em arcades e fliperamas eram extremamente difíceis para fazer você gastar mais e mais em fichas, hoje, são mais fáceis para fazer você consumir mais e mais, e em menos tempo. A quem diga que existe também o argumento da acessibilidade, em busca de atingir um público mais amplo. A quem diga que os jogos ficaram mais fáceis, porém, muito mais longos e argumentos, não faltam. Mas fica a pergunta.

Afinal, videogames devem ser desafiantes? Até que ponto? E de que forma?

DEMONS thumb Afinal, videogames devem ser desafiantes?

Demon’s Souls | Não tema, você morrerá.

Não tenho essa resposta. Falando por mim, sinto que faltam desafios, mesmo que opcionais, a quem gosta de dificuldade, de ‘sofrer’. De aprender pelo erro ou pela ousadia. Demon’s Souls e sua continuação espiritual,Dark Souls são provas que experiências desafiantes tem muito espaço e propiciam um sentimento único de conquista e realização a cada pequeno avanço. São propostas inovadoras, diferenciadas, únicas. Mas ainda é pouco, muito pouco. Ou talvez eu seja apenas mais um saudosista, escrevendo em vão. Haverá uma solução que satisfaça os mais exigentes em termos de desafio sem sacrificar a proposta de jogo? Seria o velho e bom “Nível de Dificuldade” a única solução?

Debata, questione, reflita. E me ajude a responder.

*Texto originalmente publicado no  Games Geral, mas cedido por Daniel Leite Costa



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