Há muitos anos existe uma espécie de tabu sobre Hollywood e suas adaptações de animes e mangás. Eles simplesmente não conseguem acertar.
Na maioria das vezes isso vem de uma forte barreira cultural, já que a maioria dos mangás japoneses são carregados de grande influência da cultura do país, que vai da forma como os personagens se comportam até a própria narrativa. Ao apresentar essas obras em live-action para o público americano, Hollywood tem então a tendência de “americanizar” o máximo possível, na tentativa de contextualizar locais e situações mais apropriadamente à sua realidade.
É óbvio que isso muitas vezes automaticamente destrói todo o atrativo do original, já que claramente o que eles estão tentando fazer não é adaptar uma obra de uma mídia para outra, e sim recriá-la como um produto americano. A maior prova disso é que o mercado cinematográfico norte-americano não tem grandes problemas em adaptar seus próprios personagens de quadrinhos ao cinema, por mais bobos, irreais e coloridos que eles sejam. Eles falham com as adaptações de mangás, não porque eles são “fantasiosos demais”, e sim porque os consideram “japoneses demais”.
Mesmo o live-action americano de Ghost in the Shell (2017), que tentou reproduzir fielmente sequências da aclamada animação de 1996 dirigida por Mamoru Oshii, falhou em tentar reproduzir um ambiente cyberpunk japonês, recheando-o de atores americanos caucasianos em uma trama que tentava pincelar asiáticos aqui e ali como que preenchendo alguma cota.
Com Alita: Anjo de Combate, parece que finalmente eles aprenderam alguma coisa. Com direção de Robert Rodriguez (Sin City), o filme adapta o mangá de Yukito Kishiro e é um projeto pessoal que o diretor James Cameron (Titanic, Avatar) prometia levar aos cinemas há anos – ele inclusive ia para o set de Avatar usando uma camisa de Alita, e aqui aparece como produtor.

Talvez a melhor palavra para definir Alita: Anjo de Combate seja “equilíbrio”. O filme é claramente uma adaptação de mangá, ao mesmo tempo em que é um produto tipicamente americano. Nomes foram adaptados, a narrativa foi simplificada para um padrão mastigado de blockbuster, mas o filme não teve medo de se encarar como um produto que surge de uma obra japonesa. E esse é o seu maior trunfo.
A inicialmente criticada decisão de criar Alita digitalmente com olhos enormes que remetem a uma das características mais marcantes dos mangás, parece ter sido o passo inicial para que os cineastas se vissem desligados de qualquer limitação artística que pudesse de alguma forma freia-los no processo criativo. Dado esse primeiro passo, fica mais simples se deixar levar pela estranheza do mundo de Alita e de tudo que vai acontecer dali em diante – fazendo com que o próprio espectador saiba que não há limites para o que ele pode encontrar naquela jornada e entregando um material o mais fiel possível ao original.
Porque sim, Alita é muito fiel ao mangá, mesmo quando toma certas liberdades no roteiro. Uma aula de adaptação, que consegue agradar qualquer tipo de público, e faz até mesmo o fã do mangá original se ver diante de algo que traz fidelidade ao mesmo tempo em que entrega algo novo.
São muitos os acertos que fazem de Alita: Anjo de Combate a melhor adaptação de mangá da história de Hollywood. E eu sei que alguns podem pensar que isso não era algo tão difícil afinal, mas acho que o mais importante aqui não é o fato de que Alita acerta… mas sim como acerta. O filme de Robert Rodriguez praticamente entrega uma fórmula do sucesso que pode (e deve) ser usada daqui em diante, abrindo um precedente que pode ser muito bom para os fãs de mangás e de bons filmes.
Isso significa que de agora em diante sempre veremos boas adaptações americanas de mangás? Óbvio que não. Hollywood sente prazer em errar e ainda seremos obrigados a presenciar várias outras pérolas como o Death Note da Netflix. Mas convenhamos, o futuro é mais promissor agora.
O mangá de Alita é publicado no Brasil pela editora JBC, e você pode conferir a lista dos volumes já lançados pela editora logo abaixo:
Além destes volumes, a JBC também está publicando a continuação da história através de Battle Angel Alita – Gunnm Last Order, onde podemos ver uma nova visão da história com mais explicações e detalhes do universo. Até agora, esses foram os volumes publicados: