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Constantine Final One Sheet Television PosterCercada de polêmicas, incertezas e dividindo a opinião dos fãs, a série Constantine da NBC chega ao seu prematuro final de temporada, trazendo ainda mais dúvidas e um futuro que ainda é uma grande interrogação. Mas afinal, o que tiramos dessa série? Valeu a pena? Merece mais uma chance?

Trazendo Matt Ryan no papel do famoso mago britânico dos quadrinhos, Constantine estreou em outubro do ano passado, e era com certeza uma das séries mais esperadas de toda essa safra atual onde heróis tem saído das páginas dos gibis para permear a telinha. Porém, a produção já começou com o pé esquerdo, tendo seu episódio piloto vazado ainda em agosto e uma chuva de críticas sobre o mesmo. O tom adolescente, a semelhança com Supernatural, a trama simplória e um John Constantine “limpo” e sem o hábito de fumar característico do personagem, causaram a fúria da internet (quem não conhece a fúria da internet?) fazendo com o que os produtores até mesmo modificassem várias cenas do episódio e demitissem a atriz Lucy Griffiths que deu vida à personagem Liv, antes mesmo da estreia.

Além dessas reclamações, havia ainda um sentimento coletivo de que a série estava utilizando como material de adaptação a versão mais recente e infanto-juvenil do personagem em sua roupagem pelo selo Novos 52; quando o que os fãs esperavam era algo mais próximo da revista Hellblazer, onde John Constantine surgiu e se consagrou.

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O problema começa porque até mesmo a mudança nos quadrinhos nunca foi bem recebida e aceita. Em Hellblazer, John é um mago trapaceiro e egoísta, que só usa a magia em momentos de extrema necessidade e que mesmo assim é trabalhada de forma sutil, nunca escancarada. Durante as 300 edições da revista, autores consagrados como Jamie Delano, Garth Ennis e Neil Gaiman trabalharam o personagem, pelo selo adulto Vertigo. Esse John está sempre solitário, convivendo com o peso de suas ações e sobrevivendo nesse mundo de magia e demônios, muito mais graças a sua esperteza do que ao uso da magia em si. Tanto é que a história mais famosa do personagem, Hábitos Perigosos, trata justamente dele descobrindo um câncer de pulmão terminal e enganando os três maiores demônios do inferno para continuar vivo.
Com o reboot da DC e o advento dos Novos 52, o selo Vertigo foi descontinuado, e John foi colocado no mesmo universo colorido dos super heróis. Com o nome da revista mudando de Hellblazer para Constantine, e roteiros muito mais fantasiosos, a magia – sempre tão sutil – se tornou um verdadeiro show de luzes.

Com a constatação de que a adaptação estava muito mais puxada para esse John Constantine Harry Potter, do que para o mago sarcástico de Hellblazer, os fãs foram abandonando a série, e consequentemente, a audiência foi caindo. Constantine_Illustrated_PosterTentando uma abordagem diferente, porém talvez um pouco tarde demais, os produtores resolveram trabalhar personagens já estipulados na mitologia de Hellblazer, além de adaptar de forma bem próxima aos quadrinhos alguns famosos arcos do mago inglês. Assim, tivemos participações maiores de Chas (Charles Halford), Zed (Angelica Celaya) e Papa Meia-Noite (Michael James Shaw ), além de boas adaptações dos quadrinhos com um clima cada vez mais sombrio e mais puxado para o terror. Foi quando a qualidade da série notoriamente começou a subir, se aproximando cada vez mais de Hellblazer e se distanciando da fraca versão dos Novos 52. Porém, o estrago aparentemente já estava feito. Com uma audiência muito baixa para os padrões do canal, a NBC anunciou que a primeira temporada de Constantine teria apenas 13 episódios, (quando o normal para séries de canal aberto são cerca de 20) além de ser uma grande incerteza se haveria renovação para um segunda temporada. E agora, com o final da série, fica ainda a dúvida de qual será o seu destino.

Na trama, John é um exorcista que se culpa pelo “incidente em Newcastle” um acontecimento onde ele falhou em salvar uma criança, cuja alma foi condenada eternamente ao inferno (a menina Astra, como nos quadrinhos). Ele é contatado pelo anjo Manny (Harold Perrineau), que lhe avisa que as trevas ascendentes estão surgindo com muito poder pelo mundo, e que ele é uma peça importante e fundamental para impedir isso.

O fato é que realmente houve um cuidado maior tanto dos atores quanto dos produtores da série em torná-la algo bem mais interessante. A produção parecia estar finalmente encontrando a pegada certa até o seu final abrupto, e Matt Ryan estava completamente confortável na pele de John Constantine, apesar de ainda ter muitos problemas no perfil do personagem, algo que falarei mais à frente. Seu John evoca a mesma sensação que o John dos quadrinhos, sendo aquele cara que você sabe que não é confiável, mas que mesmo assim não deixa de gostar e torcer a favor.tumblr_nf8g01CXDM1ql4hyno1_500
Apesar de ainda haver muita gente de má vontade criticando e batendo o pé de que a série não faz jus ao personagem, o que ela mostra é justamente o contrário. Com boas adaptações e John finalmente fumando na maioria das cenas (o cigarro foi um dos principais problemas que os fãs apontaram, por incrível que pareça), Constantine vem se tornando mais Hellblazer do que nunca.
Se seguir nesse caminho e posteriormente adaptar arcos como Newclastle (onde revela-se o passado de Constantine e o incidente com Astra) e Hábitos Perigosos (a mais famosa história do personagem), a série só tem a melhorar e conquistar cada vez mais fãs. Inclusive os puritanos, tão presos à seus gibis.
Sim, ainda existem alguns problemas, como a dependência de John por Chas e Zed que faz com que eles apareçam em praticamente todo episódio como se os três formassem uma espécie de liga do bem, e o esconderijo que funciona como sede para a “equipe”. Essa ideia de John ter um local fixo para planejar junto de seus amigos é algo que não me agrada e que ainda foge muito da essência do personagem.

Porém, é notório que houve uma diminuição na participação dos coadjuvantes nos últimos episódios, e deram uma resolução em outro ponto que me incomodava, que era o mapa deixado por Liv ainda no piloto da série. Esse mapa, que marcava locais que estavam sofrendo alguma incursão de demônios, causava uma sensação de “monstro da semana” na série, que limitava a trama, impedindo-a de ousar e deixando-a simplória e boba.

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Talvez o que Constantine precise é trabalhar mais o aspecto solitário de John, e apontar melhor as suas falhas morais que o tornam um adorável anti-herói. Esse é um dos problemas que ainda faz com que a série se torne monótona e “mais do mesmo”, apresentando uma fórmula fácil de se fazer e que não se permite ousar. A romantização e o heroísmo simplesmente e definitivamente não caem bem e não combinam com um personagem caótico como John Constantine, que preso à essa fórmula acaba apenas se tornando uma espécie de detetive sobrenatural marrento e com sotaque britânico carregado. É como se estivesse se perdendo a oportunidade de trabalhar um dos personagens com mais tons de cinza dos quadrinhos e que abre um leque de possibilidades de adaptação, em troca de um perfil genérico e simplório para agradar adolescentes.
O que é uma pena, pois o ator Matt Ryan cresce a cada episódio e demonstra que pode entregar um ótimo Constantine quando tem um bom roteiro e bom direcionamento.

Atualmente,o boato mais forte é de que a NBC irá passar a série para o canal Syfy, que faz parte de sua rede de canais fechados, mudando o nome para Hellblazer, e focando mais no terror. Se isso se concretizar, será o melhor caminho para a série, que já vinha timidamente tomando essa posição nos últimos episódios. Em um canal fechado, e com os roteiristas tendo mais liberdade na história, poderemos finalmente ver o John Constantine que precisamos e merecemos. Pois Matt Ryan já provou que tem potencial.

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Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.


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