O título dessa matéria é um tanto quanto tendencioso (por intenção), então sinto que preciso explica-lo antes de comentar sobre qualquer outra coisa.
Damian Wayne não é meu Robin predileto e definitivamente não é o melhor personagem a ter vestido esse manto. Gosto de como a DC se aprofundou na personalidade de Dick Grayson e o transformou num nome quase independente do Homem-Morcego, e gosto ainda de como a índole do subestimado Tim Drake reflete a de Batman ainda que ambos tenham origens completamente diferentes. Já Jason Todd detém um caso particular para ser descrito outro dia. O problema é que, em seus respetivos papeis de Robin, tanto Grayson quanto Drake carregaram problemas que a interação entre Batman e o(s) menino(s) prodígio(s) adquiriu ao longo das décadas, e que fizeram com que esse relacionamento parecesse… estranho… para as gerações mais recentes.
Eu explico: a ideia por trás do Robin surgiu inicialmente como uma maneira de fazer com que o público infantil imergisse mais nas histórias em quadrinhos do Cavaleiro das Trevas. Ter uma criança no meio dessas aventuras foi, comercialmente, uma sacada genial da DC. As vendas de quadrinhos explodiram na época e a presença de Robin, naquela época apenas Dick Grayson, deu um novo tom para as revistas de Batman, bem menos ‘noir‘ e mais amigáveis para as crianças.
Com esse amplo conhecimento do público em geral, as pessoas começaram a ligar os pontos e raciocinar sobre algumas coisas antes mesmo do lançamento da bem-sucedida série de TV de Batman estrelada por Adam West e Burt Ward em 1966, chegando a algumas teorias bastante… maldosas.
Na década de 50, o famoso psiquiatra Fredric Wertham lançou um livro chamado ‘A Sedução do Inocente‘, em que narrava sobre como as histórias em quadrinhos influenciavam os jovens a se tornarem rebeldes e delinquentes. Uma de suas teorias dizia que as histórias do personagem tinham conteúdo implicitamente homossexual (o que consequentemente faria de Batman um pedófilo), causando certa balbúrdia entre os pais porque algumas cenas expostas pelo escritor realmente indicavam ‘algo a mais’.
O livro causou impacto gigantesco na indústria, levando à realização de mudanças como a criação do Código dos Quadrinhos. Ainda que tenha sido descoberto que Wertham fraudava dados de seu estudo para fazer com que algumas coisas parecessem mais absurdas, suas afirmações ecoaram e, com o fim da época da inocência, mais questionamentos surgiram. Sempre esteve claro que Batman adotava as crianças para protegê-las de tudo o que o assolou quando era pequeno e que as treinava para se proteger, mas por que colocá-las em coloridas roupas colantes para lidar com missões fatalmente complexas?
Não parece paradoxal que Batman queira ser protetor e, ao mesmo tempo, cause em seus pupilos algumas das maiores desgraças de suas vidas? Com o amadurecimento de suas histórias e do seu público alvo, essa perspectiva foi diretamente abordada pela DC. Grayson sabe bem disso e abandonou seu mentor para se dedicar a uma carreira solo quando percebeu que alguns de seus métodos não faziam sentido e Jason Todd morreu nas garras do Coringa, fato que transformou toda a marca de Batman para sempre.
A DC tentou emplacar um substituto com Tim Drake e deu muito certo, mas não pelo prazo que se esperava. Fantástico personagem, Tim de muitas maneiras representa o que há de melhor em cada Robin, mas os roteiristas sempre tiveram muitos problemas em inová-lo, transformando-o no tal do ‘Robin Vermelho’ por falta de uma designação melhor. Ele permaneceu ativo nos quadrinhos, mas foi sendo esquecido até ser essa figura subestimada que conhecemos.
Eis que o psicodélico Grant Morrison decide inaugurar um conceito completamente diferente na década passada – e que, teoricamente, se tornaria a melhor representação do que pode ser o Robin da nova geração. Aliás, por causa de toda a sua quase prepotente inteligência, estou certo de que essa era a intenção de Morrison desde o princípio, já que o mesmo já demonstrou mais de uma ou duas vezes que é um profundo entendedor das tendências da indústria.
A lógica do escritor: por que o Robin precisa ser, necessariamente, um pupilo adotado de Bruce Wayne? Por que o Batman precisa sequer treiná-lo? Há de ser sempre uma criança inocente com tendências ao bom humor?
Recriado a partir de uma premissa surgida originalmente em Batman: O Filho do Demônio, de 1987, Damian Wayne é o filho de Bruce Wayne com Talia al Ghul, a filha do temível Ra’s al Ghul. Combinação entre o que há de mais radical entre essas duas famílias, Damian foi criado em meio à Liga dos Assassinos para ser uma máquina de matar e posteriormente, após uma situação desesperadora, entregue aos cuidados de Batman, que sequer sabia da existência do garoto.
Eficiente, a premissa que sustenta Damian cobre todas as perversas hipóteses que certos problematizadores propuseram e que, de certo modo, alteraram a realidade da interação entre Batman e Robin. É perfeitamente natural que um homem crescido seja muito íntimo de seu filho, bem como é totalmente compreensível que esse filho já tenha tendências ao vigilantismo (ultra-violento, mas enfim…). Além disso, o fato de Batman ter conhecido Damian após o garoto ter sido treinado por anos nos poupa de muitas explicações sobre a rapidez no treinamento de uma criança.
Aliás, Damian reflete muito da personalidade do pai e, por ser mais áspero, tende a atrair novos leitores, que se interessam cada vez mais por esquentadinhos do que por escoteiros. Batman sequer precisou recrutá-lo, já que Damian decidiu se tornar Robin por conta própria, o que também traz uma nova perspectiva sobre os métodos do Homem-Morcego quanto aos seus parceiros – enquanto Dick e os outros precisavam ser ensinados, Damian só precisou ser guiado. É até compreensível que faça escolhas terríveis de vez em quando, tendo em vista que foi criado por assassinos e terroristas para ser um vilão.
O problema é que, na prática, nem tudo sobre Damian funciona, e suponho que esta seja a parte que a maioria de vocês estava ansiosa para ouvir. Seu modo falastrão é, por vezes, irritante e maçante. Sua postura de líder não é a mais natural de todas e os caminhos seguidos pela DC quanto ao público que não é exatamente familiar ao cânone de seus quadrinhos também não são de grande ajuda, tendo em vista que as animações e o universo alternativo de Injustice parecem se esforçar para fazer com que cada vez mais pessoas o odeiem.
Mas aqui está uma dica: ele fica melhor quando é imaginado como uma paródia mirim do Batman. E essa é basicamente a resposta perfeita da DC às teorias do Sr. Fredric Wertham.