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Três amigos se juntaram para falar sobre quadrinhos no YouTube em 2009, sem imaginar que seriam donos de uma das editoras mais influentes do Brasil atualmente. Agora, o grupo Pipoca & Nanquim está se preparado para dar um novo passo: vão estrear no mercado audiovisual com Ogiva, adaptação da obra de Bruno Zago e Guilherme Petreca.

Zago é sócio-fundador da editora ao lado de Daniel Lopes e Alexandre Callari, e Ogiva marcou sua estreia como roteirista de quadrinhos. O mundo pós-apocalítico da obra vai para os cinemas em um filme que serve de prelúdio para a graphic novel, mostrando a protagonista da história, Pilar, em uma aventura inédita.

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Pilar do filme é interpretada por Sara Antunes (Reprodução/YouTube)

O filme só está sendo possível graças a parceria do Pipoca & Nanquim com a Monolito Produções. Em conjunto, as empresas conseguiram um incentivo financeiro da Lei Paulo Gustavo e realizaram duas campanhas de financiamento coletivo no Catarse, que, somadas, atingiram a arrecadação histórica de R$ 541.585.

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Mori Meirelles dá vida a Juarez na adaptação (Reprodução/YouTube)

Neste fim de semana, Bruno Zago gentilmente falou com o OVício sobre o feito, dizendo que acompanhar a produção em Indaiatuba, interior de São Paulo, “foi uma experiência emocionante, por se tratar de um trabalho que envolve muito mais pessoas“.

“Ver tantos profissionais qualificados e gente boa se empenhando em tornar realidade um filme de Ogiva foi algo incrível, difícil de colocar em palavras“, disse Zago. “O sentimento maior que ficou ao longo de toda essa trajetória foi o de gratidão.“

Cadu Ronsenfeld é o diretor do filme, que está em pós-produção e já tem teaser oficial divulgado. Assista:

Zago falou conosco sobre temas importantes da produção, e detalhou alguns desafios de fazer um filme de Ogiva em uma ainda instável indústria brasileira de cinema e TV. Confira:

Participação na produção

(Reprodução/Facebook)

Roteirista da obra original, Zago desta vez apenas colaborou para o argumento do filme junto a Cadu Ronsenfeld. Portanto, ele mesmo fez questão de explicar que a Monolito foi quem controlou todo o processo de produção.

“Eu não fiquei tão envolvido na produção, na verdade, pois, tirando a parte do argumento do filme, não participei em mais nada“, explicou o autor. “Tudo ficou sobre a responsabilidade dos profissionais incríveis da produtora Monolito e dos parceiros que eles selecionaram para o projeto.“

O autor, entretanto, acompanhou os bastidores e diz ter tido uma experiência enriquecedora vendo como funciona o ambiente de um set de filmagens.

Não que Zago não tivesse qualquer noção do que é fazer um filme, pois, ele é formado em Publicidade e Propaganda e produção audiovisual é algo abordado no curso.

“Acompanhar o trabalho deles me fez enxergar o árduo trabalho que existe por trás de todo filme,” refletiu Zago. “Algo que eu até já sabia que existia, claro, mas é diferente de ver tudo de perto.“

Regulamentação de cotas para cinema, TV e streaming

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Ogiva usou locações reais em Indaiatuba, interior de São Paulo (Reprodução/YouTube)

Em 15 de janeiro, o Presidente da República sancionou as leis 14.814/2024 e 14.815/2024, que regulamentam cotas de produções nacionais para cinema e TV por assinatura.

Descrevendo as leis de forma superficial e pouco detalhada, podemos dizer que elas obrigam empresas nacionais e estrangeiras a reservar um espaço para a exibição de produções brasileiras, mesmo diante da grande distribuição de obras internacionais.

Em outras palavras, cinemas e canais de TV paga não poderão mais exibir exclusivamente filmes estrangeiros e haverá uma maior rotatividade nas programações, evitando, entre várias coisas, a concentração de um mesmo filme em todas as salas de um cinema.

Diante do grande desafio econômico que é produzir audiovisual no Brasil, as leis dão algum fôlego para produtoras nacionais, e Bruno Zago acredita que elas funcionam como um importante primeiro passo para uma vindoura consolidação de uma indústria brasileira de TV e cinema.

“Acredito que essa lei será benéfica, com certeza“, disse Zago. “Fazer filmes demanda muito dinheiro, mas muito mesmo, e uma indústria como essa não se forma de uma hora para outra.“

Em 16 de abril, houve outro importante movimento para o desenvolvimento da indústria audiovisual nacional, quando a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou o Projeto de Lei nº 2.331/2022, que regulamenta uma cota de produções brasileiras nos catálogos dos serviços de streaming.

Para Zago, já era hora de o governo intervir para que as produtoras nacionais dispusessem de melhores condições para competir nesse mercado, que, assim como o do cinema e da TV, demonstra uma preferência acentuada por produções estrangeiras.

“As empresas de streaming querem entrar em nosso país, lucrar com nossas assinaturas, mas não querem se comprometer a ajudar a indústria local a crescer, não querem fomentar nossa cultura, pois isso custa muito, e é nisso que elas já investem em seus países“, continuou Zago. “Ter algo que obrigue os streamings a investirem, de fato, em nossa produção, é essencial. Que bom que o PL foi aprovado.“

De avaliador para avaliado

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Bruno Zago viralizou no passado com crítica enérgica sobre o Quarteto Fantástico de Josh Trank (Reprodução/YouTube)

Além de autor, editor e empresário, Zago é um influenciador importante na cultura pop, cuja opinião apaixonada pelas adaptações de quadrinhos é contemplada por muitos.

Os fãs do Pipoca & Nanquim já viram ele tanto muito empolgado com filmes e séries, quanto extremamente irritado com obras que não fizeram jus às suas propostas, como Quarteto Fantástico (2015) de Josh Trank.

Quando Ogiva foi publicado ele mudou de posição de avaliador para avaliado pela primeira vez, e, mesmo que não tenha uma participação grande na produção da adaptação cinematográfica, vai passar por essa troca novamente quando o filme ver a luz do dia.

É natural que esse tipo de situação assuste um pouco, mas Zago não é de se intimidar com o desafio e está preparado para descobrir o que as pessoas vão achar do filme.

“Em nenhum momento isso me assustou ou me assusta“, disse Zago. “Com Ogiva, o quadrinho, eu entreguei o meu melhor, e a pergunta que eu fazia não era ‘será que o público vai gostar?’. A pergunta era: ‘Eu estou gostando? Eu estou satisfeito com esse meu trabalho? De verdade?’, e eu não sossegava até que a resposta fosse sim.“

Zago tem plena consciência de que a obra pode não ser apreciada por todos e está paz com isso, uma vez que reconhece a forma criteriosa com que a Monolito está se dedicando à produção.

“Eu sempre pensei: ‘Se tem gente que não gosta de Chaves, Dragon Ball e O Senhor dos Anéis, é óbvio que vai ter gente que não vai gostar de Ogiva’ [risos]“, continuou Zago. “Com o filme, sei também que será a mesma coisa.“

O autor completou: “A Monolito está fazendo o máximo que pode com o filme, e eles estão satisfeitos com o produto; logo, certamente muitos também ficarão. Mas sei que vai ter gente que não vai gostar, é a mesma coisa que disse antes.“

Pipoca & Nanquim vai virar produtora de cinema?

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Da esquerda para a direita, os sócios da editora Alexandre Callari, Bruno Zago e Daniel Lopes, o artista da obra original Guilherme Petreca, e Cadu Ronsenfeld, diretor da adaptação (Reprodução/Facebook)

Quando a adaptação de Ogiva foi anunciada, membros do Pipoca & Nanquim sugeriram que a editora poderia criar um braço empresarial dedicado exclusivamente ao cinema, caso o filme desse certo. Essa situação, entretanto, não passa de um sonho.

Segundo Zago, criar um selo para o cinema nunca esteve nos planos da editora, que pretende continuar se dedicando exclusivamente aos quadrinhos.

“Nós nunca chegamos a falar isso [que iriam criar um selo para os cinemas]“, alertou Zago sorrindo. “O que falamos foi da vontade de tornar mais obras do nosso selo original Pipoca & Nanquim em produtos do audiovisual, mas isso é apenas um sonho, não significa que exista algum plano em curso se movimentando nessa direção. Nossa área de atuação é quadrinhos e sempre será quadrinhos; não temos pretensão alguma de desenvolver um selo para os cinemas.“

Zago, no entanto, não descarta que mais obras originais do Pipoca & Nanquim sejam adaptadas para os cinemas. Para que isso seja possível, basta o parceiro certo abordar os sócios da empresa com a proposta certa.

“Se mais produtoras nos procurarem com propostas similares [à da Monolito por Ogiva], podemos fechar mais parcerias nesse sentido. Mas é isso, precisamos de parceiros para fazer rolar, parceiros que já sejam desse mercado e tenham a devida experiência“, continuou o autor, antes de concluir dizendo: “Enquanto isso, a gente se mantém fazendo o que sabe, que é publicar quadrinhos e gerar conteúdo para o YouTube.“

Perguntas e respostas completas:

Reprodução/YouTube

Bruno, tem coisas que a gente só entende profundamente quando coloca em prática. Escrever ‘Ogiva’ para os quadrinhos certamente foi uma experiência enriquecedora, principalmente para alguém como você, que já estava na indústria dos quadrinhos há bastante tempo, publicando obras de outras pessoas. Agora, sua obra está sendo levada aos cinemas e, embora você não esteja no dia a dia do set de filmagens, acredito que esteja descobrindo algumas coisas novas. Estar envolvido com a produção de um filme mudou sua visão sobre o cinema?

Primeiramente, muito obrigado pelas perguntas e pelo reconhecimento ao meu trabalho. Escrever ‘Ogiva’ foi realmente uma experiência enriquecedora.

Quanto ao filme, foi até mais do que isso: uma experiência emocionante, por se tratar de um trabalho que envolve muito mais pessoas. Ver tantos profissionais qualificados e gente boa se empenhando em tornar realidade um filme de ‘Ogiva’ foi algo incrível, difícil de colocar em palavras. O sentimento maior que ficou ao longo de toda essa trajetória foi o de gratidão.

Eu não fiquei tão envolvido na produção, na verdade, pois, tirando a parte do argumento do filme, não participei em mais nada. Tudo ficou sobre a responsabilidade dos profissionais incríveis da produtora Monolito e dos parceiros que eles selecionaram para o projeto. Mas acompanhar o trabalho deles me fez enxergar o árduo trabalho que existe por trás de todo filme, algo que eu até já sabia que existia, claro, mas é diferente de ver tudo de perto.

O que essa experiência tem te dito sobre o quão desafiador é fazer filmes no Brasil? Você acredita que os efeitos das leis 14.814/2024 e 14.815/2024 (cotas para TV e cinema), além do PL 2.331/2022 (cotas para streaming), vão incentivar mais pessoas a apostar nesse mercado?

Acredito que essa lei será benéfica, com certeza. Fazer filmes demanda muito dinheiro, mas muito mesmo, e uma indústria como essa não se forma de uma hora para outra. As empresas de streaming querem entrar em nosso país, lucrar com nossas assinaturas, mas não querem se comprometer a ajudar a indústria local a crescer, não querem fomentar nossa cultura, pois isso custa muito, e é nisso que elas já investem em seus países. Portanto, ter algo que obrigue os streamings a investirem, de fato, em nossa produção, é essencial. Que bom que o PL foi aprovado.

Além de autor, editor e empresário, você é um influenciador importante na cultura pop, cuja opinião sobre obras é bastante contemplada. Você teve que encarar uma situação diferente quando lançou o quadrinho de ‘Ogiva’ e viu as pessoas avaliando sua obra. Agora, você vai passar por isso novamente com o filme. Essa troca de posição, de avaliador para avaliado, já te assustou em algum momento?

Não, em nenhum momento isso me assustou ou me assusta. Com ‘Ogiva’, o quadrinho, eu entreguei o meu melhor, e a pergunta que eu fazia não era “será que o público vai gostar?”. A pergunta era: “Eu estou gostando? Eu estou satisfeito com esse meu trabalho? De verdade?”, e eu não sossegava até que a resposta fosse sim.

Se eu estou satisfeito e feliz, e me divirto com minha própria obra, então isso certamente tem potencial para agradar mais pessoas. Mas fato é que nada vai ser capaz de agradar a todos, então já sei que faz parte da coisa ver pessoas consumindo minha HQ e não curtindo ela; é normal. Eu sempre pensei: “Se tem gente que não gosta de Chaves, Dragon Ball e O Senhor dos Anéis, é óbvio que vai ter gente que não vai gostar de ‘Ogiva'” [risos]. Normal. Com o filme, sei também que será a mesma coisa.

A Monolito está fazendo o máximo que pode com o filme, e eles estão satisfeitos com o produto; logo, certamente muitos também ficarão. Mas sei que vai ter gente que não vai gostar, é a mesma coisa que disse antes.

Quando vocês anunciaram o filme de ‘Ogiva’, citaram a ideia de criar um selo da editora para os cinemas. Isso ainda está em pauta? Já há planos para mais adaptações de originais do Pipoca & Nanquim?

Calma lá [risos]. Nós nunca chegamos a falar isso. O que falamos foi da vontade de tornar mais obras do nosso selo original Pipoca & Nanquim em produtos do audiovisual, mas isso é apenas um sonho, não significa que exista algum plano em curso se movimentando nessa direção. Nossa área de atuação é quadrinhos e sempre será quadrinhos; não temos pretensão alguma de desenvolver um selo para os cinemas.

Com ‘Ogiva’, isso só rolou por causa da parceria com a produtora Monolito; portanto, se mais produtoras nos procurarem com propostas similares, podemos fechar mais parcerias nesse sentido. Mas é isso, precisamos de parceiros para fazer rolar, parceiros que já sejam desse mercado e tenham a devida experiência. Enquanto isso, a gente se mantém fazendo o que sabe, que é publicar quadrinhos e gerar conteúdo para o YouTube.

Leia também sobre Ogiva:

Ogiva não será lançado imediatamente nos cinemas ou em qualquer serviço de streaming. As primeiras pessoas a assistirem o longa serão os apoiadores do Catarse. Após isso, o filme será exibido em festivais de cinema e oferecido para distribuidoras e demais empresas de entretenimento.

A ideia é vender a franquia para trabalhar em algo maior no futuro, seja um longa-metragem completo, ou até mesmo uma série de TV.

Ramon Vitor, Editor-Chefe do site, engenheiro civil convertido em jornalista, é um apaixonado por cinema, quadrinhos e pelo poder transformador da comunicação. Com um olhar analítico aprimorado por anos de estudo da indústria cinematográfica, ele mergulha em seus artigos para O Vício desde 2021, transformando sua paixão em conteúdo cativante. Descubra uma perspectiva única sobre o universo do cinema e da TV.


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