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Não faz muito tempo que o público se impressionou com a intensidade de Cangaço Novo, uma série que faz parte da nova onda de obras do estilo que ficou conhecido no começo do Século 20 como Nordestern. O sucesso da produção do Prime Video foi tão grande, que uma 2ª temporada está a caminho, e ela promete ser muito melhor que a 1ª.
No último domingo (26), compareci a uma coletiva de imprensa com o elenco e o diretor Fábio Mendonça no Imagineland On The Road, em Campina Grande, e ouvi deles detalhes empolgantes sobre a produção do segundo ano da série, que chega ao Prime Video no primeiro semestre de 2026.
Questionado sobre os desafios logísticos de produzir algo da escala de Cangaço Novo nos interiores da Paraíba e do Rio Grande do Norte, Fábio Mendonça disse não ter parâmetro para comparar as dificuldades com as dos grandes centros, pois jamais havia feito algo tão complexo e exigente em termos de ação antes. O cineasta, no entanto, prometeu que veremos uma temporada tecnicamente superior à primeira.
“Esse tipo de trabalho, de ação, desse tamanho, eu nunca tinha feito em outro lugar. Então, eu não tenho parâmetros para te dizer. Mas a gente aprendeu muito, de fato, na 1ª temporada. E o que eu posso dizer é que nessa 2ª temporada a gente partiu para essas cenas mais complexas de ação, que demoram mais tempo, que demandam mais preparação e tudo, muito mais fortes.”, disse Mendonça. “A gente sabia mais como fazer e como abordar os limites. A produção sabia como gastar o dinheiro para imprimir as cenas, para fazer a coisa acontecer, de fato. E a gente manteve a mesma estrutura de produção da 1ª temporada.“
A superioridade técnica será possível pela manutenção da equipe da 1ª temporada. A familiaridade do time com o projeto permitiu que as lições aprendidas fossem aplicadas imediatamente, abrindo espaço para inovações e a produção de sequências de ação ainda mais envolventes.
“Se trocássemos todos, teríamos que aprender de novo tudo que tínhamos aprendido na 1ª temporada. Então, essa 2ª, acho que foi uma evolução. E acho que essa evolução está na tela. Especificamente, a coisa técnica das cenas de ação, a gente subiu de nível.“
Os dilemas morais

Cangaço Novo é uma série com um tratamento moral tão complexo quanto obras aclamadas como Fogo contra Fogo (1995), Breaking Bad, A Qualquer Custo (2016) e a recente série Task. Ela, no entanto, adiciona um tempero brasileiro único ao entrelaçar essas discussões com a temática do cangaço histórico e o coronelismo político do interior do Nordeste.
A separação de quem é mocinho e vilão não é clara. O plano é contar uma história humana, com pessoas falhas que colocam o público no centro de fortes dilemas morais.
Para Fábio Mendonça, o grande desafio do segundo ano é não cair no perigo do maniqueísmo. A série continuará a explorar os limites morais, deixando que o público julgue os personagens.
“Acho que tem a ver com o desafio moral que a gente tem como povo histórico. É o perigo de ser maniqueísta. De falar que tem um bonzinho e um malvadão. Eu acho que a gente explora justamente esses limites. Quem, de fato, faz o julgamento sobre quem é o bandido, quem é o bonzinho, é quem está assistindo.“, declarou Mendonça. “Eu acho isso incrível. A gente coloca [a série] em um patamar mais profundo do que a maioria dos projetos de gênero, de ação. Então, a gente, de fato, mergulha nessa 2ª temporada com bastante profundidade no drama.“
Produções com moralidade complexa como Cangaço Novo não são incomuns; pelo contrário. No Brasil, contudo, elas frequentemente reacendem debates sobre a suposta “romantização do crime“, uma discussão que não atinge com a mesma intensidade obras norte-americanas, por estas se passarem em uma realidade culturalmente mais distante.
Para o ator Joálisson Cunha, essa diferença de tratamento precisa mudar, sendo fundamental que o público brasileiro compreenda o papel da ficção em explorar nuances morais.
“Eu acho que a primeira coisa que nós temos de lembrar é que é uma ficção, sempre“, disse o ator Joálisson. “Uma ficção tem essa liberdade de não ter um compromisso com a realidade. Às vezes tem, mas não seria o nosso papel determinar pensamentos, mas sim deixar que as pessoas o percebam através da história e da complexidade do ser humano, das relações sociais.“
As filmagens em Campina Grande

Boa parte da produção da 2ª temporada de Cangaço Novo aconteceu em Campina Grande. Há, inclusive, uma grande sequência de ação no episódio 6, cuja produção paralisou uma rodovia arterial que atravessa a cidade.
Intérprete de Dinorah, Alice Carvalho lembra com muito carinho da recepção da população, que não demonstrou irritação, mas sim foi às janelas dos prédios para acompanhar a produção com sorrisos.
“Me marcou muito porque eu lembro dos rostos das pessoas nas janelas assistindo“, revelou Alice. “Como a gente já tinha lançado a 1ª temporada. A população entendeu o que a gente estava fazendo ali. Mais do que uma irritação, tinha um acolhimento com a operação que a gente estava fazendo, o terror que a gente estava tocando no meio da cidade.“
Para Alice, no entanto, o mais emocionante foi gravar sequências no presídio de Campina Grande, onde pôde ter contato com os apenados e os serviços sociais ali prestados.
“Gravamos no presídio aqui em Campina Grande e isso foi muito marcante para mim. Em diversas instâncias“, disse Alice. “Acho que esse é um ponto também arterial da série. Vou evitar dar spoiler, mas não esqueço os dias que passei naquele lugar. Muito, muito especial.“
A Paraíba tem se destacado no cenário nacional como um modelo de ressocialização de pessoas privadas de liberdade. O estado executa políticas como o programa de Remição pela Leitura, no qual a cada obra lida e resumida, o apenado pode reduzir quatro dias de sua pena. Além disso, a Paraíba se destaca pela ampla oferta de trabalho e capacitação profissional aos apenados, que ultrapassa a média nacional.
Ao longo do período de cárcere, o estado oferece aos apenados a chance de se desenvolverem intelectualmente e financeiramente, com incentivos robustos ao estudo e ao trabalho. Tais iniciativas chamaram muito a atenção de Alice.
“A Paraíba, não sei se vocês sabem, é um exemplo nacional com relação à ressocialização. De alguma maneira, gravando nesse lugar, eu adentrei dentro desse universo e aprendi um pouco mais sobre esse mundo e também a importância da Paraíba como exemplo no Brasil.“
Alice também vivenciou alguns momentos muito divertidos na produção. Um dia inesquecível para ela foi quando participou de uma vaquejada ao lado do ator paraibano Lucas Veloso, que é uma das novidades do elenco da 2ª temporada de Cangaço Novo.
“Durante cinco dias, gravamos uma sequência específica no parque de vaquejada Maria da Luz, com a vaquejada real acontecendo. As nossas cenas eram gravadas no começo da diária, e passávamos o resto do dia soltos na vaquejada. Em dia, eu e Lucas Veloso descobrimos que não teríamos mais cenas e figurações, sentamos em uma birosca e bebemos de graça. Daqui a pouco, dá 13h30, e alguém fala: ‘Não, mudamos de ideia. Vocês precisam estar no fundo dessa cena’. Então, vocês vão ver ali eu e o Lucas Veloso com o olho bem baixo.”, brincou Alice.
Uma expansão

Na nova temporada, Cangaço Novo irá além da trama central dos irmãos vaqueiros. Será um ano de expansão em todos os sentidos, tanto na intensidade da ação quanto no aprofundamento e desenvolvimento dos personagens.
“A 2ª temporada foi uma temporada de expansão“, declarou Mendonça. “A gente tem na 1ª temporada uma coisa muito focada nos três irmãos e na relação deles com a política, mas, respectivamente, a gente está tratando de um novo baú que acabou de chegar, está conhecendo sua família, e ficamos muito num drama familiar, num livro familiar dos vaqueiros. Nessa segunda temporada, foi muito legal, porque a gente expandiu para os personagens.“
A série seguirá em sua missão de contar uma história instigante de ação e assalto, sem a pretensão de ser uma porta-bandeira do Nordeste. Ao contrário do que se discute em vários locais da internet, a região não tem a obrigação de se provar ou pedir aprovação para o restante do Brasil. Afinal, nós já sabemos o que somos.
“O Nordeste é o celeiro do Brasil. O discurso foi transformado durante a história pelo poder econômico, que foi transferido para outra região. Então a gente está nessa coisa de dizer: ‘A gente é importante’. Não precisa, a gente sabe que é importante.“, alertou Joálisson Cunha.






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