Chegaram às bancas do país os últimos números de Carnificina Absoluta e os seus tie-ins Carnificina Absoluta: Contos Sangrentos.
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A minissérie Carnificina Absoluta. Escrita por Donny Cates, um escritor que fez sua carreira na Marvel investindo no universo cósmico, principalmente Thanos e Guardiões da Galáxia, onde desenvolveu um estilo de escrita que une o terror espacial com o nonsense cômico. Ele criou também o Motoqueiro Fantasma Cósmico que é uma versão distorcida e ainda mais deturpada do Justiceiro, que agrada tanto aos leitores que adoram quanto os que odeiam Frank Castle. Essa maneira de escrever à beira do impossível, à beira da loucura, ultrapassando as sensibilidades da realidade e do senso comum fez com que Cates caísse nos gostos do público e da crítica.

Mas a gênese de Carnificina Absoluta vem de antes, da revista Venom, que Cates desenvolveu a tempo do primeiro filme-solo em live action, estrelado por Eddie Brock, interpretado por Tom Hardy; O sucesso da revista foi tanto, que o número nove da série fazia uma alusão à capa da cultuada graphic novel Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, desenhada por esse último. Isso fez Cates afirmar que Venom era melhor que Watchmen.
Piadas à parte, parece que, em anos, foi a primeira vez que Eddie Brock é escrito com ambição, mas uma ambição muito maior do que manter um título que dura no máximo 12 edições em suas mais diversas versões. Essa ambição quer abranger todo o Universo Marvel. Isso porque quando Cates reconstrói a origem do Venom – num mote narrativo chamado retcon (continuidade retroativa) que tem sido extremamente peculiar e popular nos quadrinhos de super-heróis a partir dos anos 2000 – ele já está de olho numa forma de tornar o personagem que sempre nada mais que um popular inimigo do Homem-Aranha relevante para todo o Universo Marvel.

Cates transforma o Venom em um guardião terráqueo que deve impedir o retorno do deus dos simbiontes, despertado há muitos anos atrás pela SHIELD, que a partir de experimentos com simbiontes, desenvolveu armas dentro de programas que já geraram outros supersoldados como Capitão América, Wolverine, Fantomex e mais. Dessa forma, Cates tornou Eddie Brock, o ser humano que conseguiu realizar a mais estreita simbiose com seu alienígena, uma espécie de bastião contra uma invasão alienígena do deus dos simbiontes, Knull.
Criando toda uma atmosfera de terror cósmico e de atormentações somadas às atribulações já sofridas diariamente por Eddie Brock, Cates trouxe a empolgação e o frisson para aquilo que os fãs acreditavam que poderia ser o estopim de sua fase no Venom: o crossover Carnificina Absoluta. O crossover teria tal importância para o desenvolvimento de Venom, que o desenhista regular da série Ryan Stegman – famoso por ter desenhado o Homem-Aranha Superior alternando a arte com Giuseppe Camuncoli – passaria a assumir a minissérie Carnificina Absoluta. Mais que isso, a minissérie envolveria todo o Universo Marvel porque Cletus Kasady, o Carnificina, retornaria para arrancar os códices, elementos escondidos na medula daqueles que já serviram de hóspedes de Venom, tudo isso para chamar até a Terra o todo-poderoso Knull deus dos simbiontes.

A empolgação dos fãs foi num crescente porque Carnificina Absoluta lembrava outra tentativa de crossover envolvendo Venom e Carnificina, antes de A Saga do Clone manchar com infâmia os grandes eventos aracnídeos. Foi Carnificina Total (Maximum Carnage), um maxi-evento do Homem-Aranha que envolveu o aracnídeo lado a lado com Venom, Manto e Adaga, Capitão América, Flama e outros heróis da Casa das Ideias. Carnificina Total foi um evento criado em 1993 e escrito por Tom DeFalco, J. M. DeMatteis, Terry Kavanagh e David Michelinie e entre os desenhistas figuravam grandes nomes como Sal Buscema e Mark Bagley. A história completa durou 14 edições e as reverberações dele foram tantas que rendeu o desenvolvimento de um jogo de videogame, um pinball, uma linha de action figures e até mesmo uma atração em parque temático.
Carnificina Total foi um evento e tanto, assim como Carnificina Absoluta deveria ser. Eu não me lembro direito do desenvolvimento de Carnificina Total, o evento aracnídeo que Carnificina Absoluta se inspirou. Mas eu me lembro bem da minha empolgação ao ler as páginas deste evento. Se o desenvolvimento de Carnificina Absoluta não é memorável, pelo menos a empolgação que ele gerou em mim foi verdadeira, de uma forma que nunca antes um evento aracnídeo havia causado. E, Carnificina Total, lá nos anos 1990, foi o primeiro desses grandes crossovers do Homem-Aranha e seu universo que realmente mexeu com meus brios.

A forma como ele foi publicado pela Editora Abril, naquela época, em dois especiais em lombada quadrada e mais de 160 páginas cada, foi especial para mim a ponto de eu colar um adesivo especial com meu nome que tinha ganhado meses antes. Por outro lado, Carnificina Absoluta tem o mérito de, desta vez, não ser um evento originado das páginas do Homem-Aranha, mas do venom, um feito e tanto. Também é uma das edições do simbionte que mais duraram estrelando Eddie Brock, perdendo apenas para o Agente Venom, de Flash Thompson. No Brasil, foi a primeira vez que Venom ganhou um título mensal só seu.
Carnificina Absoluta guarda um pouco desse ar de publicação especial, mas de uma forma inversa. Minisséries em fascículos, hoje, já não estarem mais na ordem do dia, afinal,quem reina supremo são os encadernados, com um encolhimento generalizado e sintomático das revistas mensais com poucas páginas. Os encadernados aqui no Brasil até já abocanharam as minisséries, como visto o que foi feito com Guerra dos Reinos. Deixar que a história encontre seu ritmo e desenvolvimento próprio, como ela foi planejada para acontecer originalmente ser na mente dos leitores, também acaba sendo um fator provocador da empolgação da leitura.

Volto a falar sobre o desenvolvimento dessas sagas versus a empolgação, o buzz e o hype que causaram nos leitores. Talvez a sua função – além de alavancar as vendas, obviamente – não seja causar nos personagens ou nos leitores grandes transformações ou apresentar mensagens construtivas que servirão de lições de vida, por anos repetidas por fãs. Talvez sua função seja nos envolver. Nos abocanhar com a empolgação que fazem para que nos sintamos dentro da história, quiçá da pele dos personagens, ou no caso do Venom e do Carnificina, entre a pele e o simbionte.
Talvez o desenvolvimento de Carnificina Absoluta não fique na mente dos leitores, mas o frisson que causou, é bem provável que fique. Da mesma forma como foi que Carnificina Total acabou funcionando comigo. Certamente eu gostaria de reler Carnificina Total hoje em dia sem os inúmeros picotes que as edições sofreram pela Editora Abril na época. Principalmente para poder estabelecer um paralelo com Carnificina Absoluta. Qual seria a mais bem estruturada? Qual seria a que desenvolve melhor o embate entre Venom, Carnificina e Homem-Aranha? Qual é mais bem amarrada entre os diversos tie-ins? Eu tenho lá minhas suspeitas, mas gostaria de reler com olhos de hoje o antigo crossover na íntegra.

De qualquer forma, quando chegamos ao final de Carnificina Absoluta percebemos que o crossover não faz parte de um desfecho. Não, ele é parte de um desenvolvimento ainda maior e mais ambicioso: o retorno à Terra de Knull, o deus dos simbiontes. Se chamará “King in Black”. Um outro e maior crossover está sendo preparado pela Marvel envolvendo Venom. Cates é sem dúvida ambicioso e está alçando o Venom (e talvez o Carnificina) a novos patamares dentro do Universo Marvel e na mente da memória coletiva das pessoas que habitam este mundo. Afinal, vem aí “Venom 2: Tempo de Carnificina”, com Carnificina como principal antagonista, e nem a Marvel, nem a Disney nem os fãs vão querer perder essa oportunidade de ver esses personagens combatendo em uma dimensão que ainda não foi testada. Mais um clash entre empolgação e desenvolvimento vem aí! Que nos estejamos preparados!
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